Festival de Curitiba: para sair sorrindo e um passeio pela Vila Verde
28 de março de 2008 | Publicado na Categoria Teatro | 1 Comentário »
O Fernando Klug enviou-me mais dois textos exclusivos sobre espetáculos do Festival de Curitiba, um sobre Pelo Cano e um sobre o Projeto Fauna, dos celebrados Satyros.
Ei-los:
Pelo Cano
Em Pelo Cano, duas palhaças interagem com objetos e criam com else realidades inesperadas. Em resumo, é um trabalho clown. Mas não confundam: tempos atrás, os mímicos faziam belos quadros de humor pelas ruas. Aí chegaram os “sombras”, e o público achou que os sombras eram mímicos. Agora, acontece o mesmo com os clowns: há uma epidemia clown no teatro de rua. E, embora a palavra signifique palhaço, nem todo palhaço é clown. E nem todo aquele que se veste de palhaço é, realmente, um palhaço. Mas,voltando ao clown, como explica-lo? Teatro voltado ao momento? Personagens que lembram crianças, mas não são crianças? Teatro simples, repleto de suavidade, graça e inventividade? Bem, o melhor é ver Paola Musatti e Vera Abbud – sem o medo de entrar Pelo Cano. De lambuja, leva-se um pouco de música. Para adultos e crianças sorrirem.
Excursão à Faunda da Vila Verde
Louvável a iniciativa do projeto Fauna. O grupo Os Satyros já faz isso lá por São Paulo. Enquanto o micro-onibus nos leva, vemos e ouvimos entrevistas com os moradores da comunidade de Vila Verde, fazendo-nos conhecê-la através de seus olhos. Ao chegarmos, o filme vira realidade, e aqueles personagens, tão iguais e tão diferentes de nós, ali estão. Só faltava vermos o filme que mostra nosso ônibus entrando na comunidade, justamente enquanto entramos na comunidade.
Ao sairmos do ônibus, o espetáculo da visita vai começar. Um morador, representante da associação dos moradores, microfone à mão, serve de guia. O passeio do grupo parece – em parte – uma excursão dessas à Disney: recebemos dados sobre a comunidade e sobre OS locais visitados. Mas há algumas cenas de teatro. E há dança. Há a música popular da Vila, dividida entre o rap e o sertanejo. E, de repente, uma cena aqui e outra Ali. De repente passam vários garotos de carrinho de rolimã. Em seguida, um Escort com som alto passa. Ou um garoto tenta vender um celular (roubado?) a um espectador. E, de teatro mesmo, temos a intervenção de atores dos Satyros, geralmente em personagens que fazem oposição à realidade que vemos: bem vestidos, de bom falar, surgem das janelas ou aparecem nos banheiros das casas.
Para a líder comunitária Julieta, este projeto serve para desmistificar as comunidades carentes, no caso mostrar às pessoas que a Vila Verde não é o habitat natural de bandidos e traficantes, mas uma comunidade com gente que luta, honestamente, para sobreviver. O curto contato com o projeto teatral dos Satyros ajudou aos moradores a contarem um pouco de si. Por algum tempo, passou-se a ter voz. E, ao falar de si, se reconhecer.
Se as entrevistas filmadas seguem um padrão temático dado pelos Satyros: sexo, amor, trabalho, família, medo, vida… O roteiro da visita parece mostrar o que a própria comunidade elegeu como valores a serem propagados.
Os moradores passam por nós todo o tempo. Lógico, a Vila não parou para nos receber. Dessa forma, como qualquer coisa à Volta pode ser uma cena, uma interferência, a própria vida comum passa a ser vista por nós como espetáculo. Por um instante, porém, senti-me constrangido: fomos convidados a visitar uma casa “típica”, da Vila. Olhávamos pelas janelas e víamos cenas comuns: a mãe penteando o cabelo da filha, a senhora vendo televisão, lá fora o menino tirando o balde do poço. As pessoas ali, fazendo o papel de si próprias. E nós, como se estivéssemos visitando um jardim Zoológico. Naquele instante tive a incômoda impressão de que alguém nos colocou na posição de “seres superiores” àqueles que observávamos.
Em locais do caminho, pintados no chão, contornos de corpos. Como nos filmes policiais americanos: a marca de onde morreu a vítima. Esses corpos, segundo o guia, significam o grande número de pessoas que perdeu sua vida, seus sonhos, de maneira abrupta.
Após a cena final, a despedida. Fomos mais aplaudidos do que aplaudimos. Aplaudidos até ao subir de volta ao ônibus. Parecíamos nós as estrelas. Novo constrangimento. Fazer o que, afinal? Mas a sensação de conhecer realidade tão diferente, que é a realidade da maioria das pessoas que passam todos 0s dias à minha volta, essa não tem preço.

olá Alessandro.
Eu tenho aqui os meus “poréns” com o festival.
Sabe como é; o filezinho da mostra principal quase todo dominado por São Paulo e Rio, essa loucura descabida do Fringe, entre outras. Mas não sou bobo em não reconhecer o valor do festival.
Deixo aqui meus parabéns para você e o Fernando.
Muito bom o trabalho de vocês, melhor que muita mídia profissional sobre o assunto.
abs