Festival de Curitiba: Mutarelli e Carandiru
1 de abril de 2008 | Publicado na Categoria Teatro | 1 Comentário »
Gosto muito do Lourenço Mutarelli. Uma adaptação de um de seus livros, O Natimorto, veio para o Festival de Curitiba. O Fernando Klug foi conferir e mandou um texto pra gente:
Teatro do Absurdo? Antes de tudo, criativo. Bom humor, diálogos rápidos. Antes de tudo, fragmento, elipses. História em quadrinho. Por que o ator protagonista é a cara do autor, não sei, só me resta pensar o óbvio. E deve fumar muito cigarro pela metade, o Mutarelli.
Um agente musical retraído, tímido, mas que fala sem parar: não tem falta de voz. E uma bonita e sensual cantora, vinda do interior e recebida por ele para fazer um teste. Só que o canto dela… é mudo. Sua voz é divina para ouvidos sensíveis, segundo ele. Os outros, simplesmente não a ouvem. Ele e ela se vestem igual, tons de bege; os dois são “do mesmo planeta”.
O teste será com um tal maestro que anda “faturando” a mulher dele. Ele sabe. Leva-a a jantar em sua casa, mas após entrevero com sua mulher expansiva, direta e de roupas coloridas que não a escuta e o acusa de brocha, ele acompanha a moça até o hotel. Lá, confessa duas coisas: que não deixa marcas na vida das pessoas, ou seja, ele só existe para elas quando está fisicamente presente; e que sente por ela grande atração – sendo assexuado como é. Propõe à cantora ficarem fechados no quarto do hotel, para sempre. Ela estranha (lógico), mas logo aceita a proposta (ilógico?). Mas não quer ficar trancada, precisa do contato com o mundo. Começa a almoçar com o maestro, a jantar com o maestro… E sempre retorna ao quarto. Ele, sempre ali, fumando, fedendo a roupas de cama nunca trocadas, porque ninguém pode entrar. No dia do teste, ela vai a uma chácara com o maestro. A leitura do tarô nos maços de cigarro não prevê coisa boa. E ela volta, tendo sido humilhada pelo maestro e convidados. Ele a usou. Ao que parece, para mostrar aos convidados o quanto ele, o agente, é ridículo, enviando a ele uma cantora que não canta.
Ela resolve ficar com ele pra sempre, no quarto. Ele, no entanto, deixou de comer por alguns dias. Porque vai devorá-la.
Será que ele… é ela? Estamos falando de um mundo de pessoas que não têm a menor sensibilidade e de uma pessoa que tem grandes dificuldades em se relacionar com esse mundo? Estamos falando que essa pessoa resolve entrar, para sempre, em si mesmo, alimentar-se de si mesmo, numa fuga final, esquizofrenia? Sem chance? Sem esperança?
Ou é apenas um espetáculo divertido?
Carandiru sem novidades
Talvez eu esperasse muito do Salmo 91 e da nova fase de Gabriel Villela.. Vi o filme, acompanhei os noticiários, não li o livro. Um espetáculo é feito para quem tem todas as referências, mas também para quem não tem nenhuma. Saí do auditório sem incômodos. Nada que eu já não soubesse sobre Carandiru. Nada que eu já não soubesse sobre presídios e presidiários. Nada de novo ou de tocante sobre a chacina. Apenas a gostosa sensação de ter assistido a belas interpretações. Este Salmo é fraco para quem viu o já antigo Barrela (de Plínio Marcos), ano passado, o Entre Quatro Paredes do submundo (o inferno são os outros, mesmo). E, para quem viu as ricas direções “barrocas” de Gabriel Villela, este Salmo é pobre. Não na economia cênica. Pobreza, por exemplo, de um cenário que nem precisava estar ali, quem sabe fosse melhor abrir o Guairinha até o fundo, mostrando o vazio desse confinamento.
Coragem, sem dúvida, para transpor o abismo entre uma estética conhecida e amada e a nova. Que se revela aos poucos. Que não é o que se espera dela. Parabéns a Gabriel Villela, pois mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda…

Tenho certeza de que tudo que lemos, é alvo de boas interpretações……..Se o Salmo é pobre, porque parabeniza-o então !!!
O reino dos céus, de Jesus, da palavra é pobres!!!