Festival de Curitiba: Estilhaços, de Wotzik – um demais com nada de mais

(artigo de autoria do articulista convidado Fernando Klug)

Após muitos passos por dentro de prédios e por passarelas ladeadas de grama, entramos num dos pavilhões do Cietep. Esperamos por algum tempo, até que ligam algumas tvs e assistimos, durante uns bons 10 minutos, a um diálogo de MSN com cara pré-adolescente. O tema: ficar, separação, tenho que te falar… quer terminar comigo é isso? prefiro te falar ao vivo… fala por fone … por fone não a minha mãe tá perto…e por aí vai. Mas o humor já vai dando a cara do que se vai ver. As portas se abrem e caminhamos por uns trinta metros de espaço aberto até um cenário baixo, composto por uma plataforma quadrada toda branca em cujo interior existem apenas cubos também brancos, dispostos em filas retas. Me senti por um instante no bar de Laranja Mecânica. Somos orientados a não tirar os cubos do lugar após sentarmos. Assim sentamos, casais de frente um para o outro, de costas um para o outro, de lado… Como não há refletores que nos indiquem onde é a frente, apenas luzes frias, cada um senta virado para um lado. Começa o ator Marcos França, levantando a nos falar sobre algo do seu cotidiano, algo em primeira pessoa, não lembro o quê. Levanta uma atriz, Analu Prestes, e comenta o que descobriu dos preços do papel higiênico e a sua descoberta: eles diminuiram os rolos além do que diz na embalagem: assim é que se mantém o mesmo preço por anos: nos roubando pedaços de papel. E, dali para diante, os atores vão andando por entre as fileiras e falando por uma hora sobre a relação entre homens e mulheres, desde Zeus e Hera, estilhaçando aqui e ali outros temas. O cotidiano num papo gostoso com atores e atrizes de meia idade e aquela tranquilia maturidade cênica que torna tudo tão simples. Os textos todos no masculino, mesmo os ditos pelas atrizes, nos indicam que há um autor, um autor de humor afiado a nos dar olhares sobre a urbanidade. É teatro, sim, não só conversa. Emerge da naturalidade dos atores uma teatralidade que nos faz olhar para nós mesmos, eis o jogo. E para os outros que, como nós, fazem parte daquilo. Os comportamentos, as reações, os tipos. E – como evitar o interesse, revelados nos cruzamentos de olhares. Afinal, é o tema. Por fim, a gostosa sensação de se ter passeado. Impressão de não estarmos em um teatro, mas do teatro estar ali.

Fui apresentados pelo Chico Nogueira ao elenco. Não precisou falar muito com o autor e diretor Eduardo Wotzik para ele dizer da escolha estética, espetáculo praticamente sem refletores e sem som a pontuar e dirigir as cenas. Composto do texto, do espaço, dos atores e dos espectadores. Primeiro que não é necessário ficar isolando as cenas com focos como quem diz como e onde a atenção deve estar- o público de hoje consegue fazer muitas coisas ao mesmo tempo sem deixar de focar. Na luz geral cada um dá atenção em quem conta a história, também nos outros atores, também à reação da pessoa sentada ao lado do ator. O espetáculo também pode ser eu me emocionar e ao mesmo tempo perceber a emoção do outro ali como eu. Blablaba e nossa conversa derivou para atores, e ele, Eduardo, sente que o ator curitibano (trabalhou com alguns) tem uma certa densidade no olhar. Isso não o faz melhor que outros, mas é um traço diferenciador. Temos a fama de sermos focados, dados ao exercício e ao trabalho árduo. Creio eu que esse traço se acentue quando fora daqui, em capitais maiores e mais comprometidas com a raiz, com a história e coisa e tal ; ainda assim em apenas certos nichos: parece que ali vale a pena. Em Curitiba, capital cultural que muito se representa para o inglês ver – e que não parece se querer ver, é preciso um esforço contínuo e árduo, mesmo, pela arte.

Talvez coisa tão importante quanto o espetáculo sejam as reflexões que ele gera, sempre atuais: além das cotidianas derivadas do tema, uma que emerge, dada a simplicidade da estrutura do espetáculo, é sobre a natureza do teatro. Chico Nogueira me fala da base central que faz do tatro vivo por séculos: a emoção. O Eduardo Wotzik fala do compartilhar. Da necessidade do público, desse encontro tão bom, quando o teatro acontece completo. Há algumas peças onde há o encontro entre a qualidade e o sucesso: lotam por anos. Anos se fazendo o que gosta com quem se gosta – diria. Que maravilha! Mas essas peças são até uma má influência, pois seu sucesso faz parecer possível a exceção virar regra. Voltando para casa, penso no genuíno ato do representar, do fazer ver o que não está aqui. E, através desse ficional, provocar a vinda do real. Estilhaços.

Postado em Artes e design.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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