(artigo de autoria do articulista convidado Fernando Klug)
De passagem. Há muitas mostras nesse Festival, mostra disso, mostra daquilo. Se olhar bem no guia, até oficinas tem. Quer dizer, tinha, porque quando viu, já tinha lotado, nego. Algumas coisas escondidinhas, muitos nomes que estão aí, o pessoal do grupo Espanca, o ensaio do Murro Em Ponta de Faca, a direção do Joelson Medeiros, a dramaturgia do SESI, palestras, a nova peça do Damaceno…. Acho que o Fringe deveria ficar na parte 2 do caderno mesmo, já que é franja., e essas mostras passarem a destacar-se mais. . Então sinto que, tá ficando com cara de Festival de novo, aos poucos, porque tá mostrando painéis por gêneros e essas outras coisas de festival. Outra coisa: sempre tem gente que diz que “festival é premiação, cadê?” . Acho uma besteira premiar, mas cada um cada um. O espírito de festival ta nessa coisa da provocação, dos olhares possíveis, do painel mesmo. As coisas melhoram, por esse ângulo. Aí não há problema algum nas peças com nomes estelares, tem que haver o espaço pro comercial e pro não comercial, fazer o que. Mas, puxa, que bom se a organização levasse em conta tudo de bom aprendido desde o primeiro, não precisava nem se espelhar em outros festivais, já teria uma cara muito melhor.
Agora, por dios, não agüento ver de novo o nome daquelas peças que vem ao Fringe pelo sexto ou sétimo ano seguido. A mesma peça, de novo. Lá vem elas. Se bem que, pensando que o Festival é pauta, é espaço para uma nova temporada anual, até que vai. E é outro público, que ainda não viu… então , quem sabe… afinal em 5 anos já é uma nova geração que vai assitir, eheh. Ou, quem sabe aquele crítico ou aquele jornalista ou aquele olheiro não vai me ver dessa vez, não é? É.. cada qual com sua razão, ai ai.
Em tempo. Uma senhora antiga, sobre o mofo do Guairinha e sobre a estreiteza entre uma fila e outra dos teatro mais antigos, que impede a gente de passar: ‘É porque esse teatro foi feito para crianças. Só que as crianças cresceram.”
Inverno da Luz Vermelha, A MELHOR PEÇA DO FESTIVAL
Por isso que é bacana uma mostra desse tamanho , porque a gente não consegue ver nem um ésimo dela e acaba por cada um eleger a sua melhor peça e não tem briga. A minha melhor acho que vai ser a dessa graça chamada Marjorie Estiano. Sorte de quem a conheceu em Curitiba, azar o meu, agora há um Rio de distância. Sério agora: Inverno da Luz Vermelha é o espetáculo mais completo a que assisti. Um texto contemporâneo, pra começar. Personagens fortes, numa perseguição que parece fechar um triângulo mas -e o autor joga pistas todo o tempo – ao final aponta para fora, se abre em caminhos de solidão. Me lembra João que amava Tereza… que casou com o J Pinto de tal, do Drummond. Outra referência é aquele primeiro filme da Sophie Coppola , Encontros e Desencontros. Digo que é contemporâneo por um enredo simples, mas no qual sobram detalhes, meias informações, por vezes contraditórias, que se completam e apontam possibilidades. Se passa em Amsterdã e em São Paulo, mas de certa forma em Paris, em New York ou tantos lugares do mundo, uma sensação megalópole e aldeia global: as personagens estão em todo lugar,dentro e fora de nós, almas pairando. Não são simples nem harmônicos, mas formados de contradições e contrariedades, assim como suas relações. A gente vê o amor de dois amigos desiguais. David e Matt, que se encontraram e desencontram-se, mas não sabe a história deles; a gente sabe da conexão, que é a ex- namorada de um “cedida” ou “roubada” pelo outro. E a presença de uma garota, Christine, de quem a gente nem sabe o nome real nem a história real (até porque é a história dela é pedaços de histórias de tantas garotas por aí). A presença dela é o azeite da engrenagem dramática. E não há final, evidente, não poderia, porque seria empobrecer a vida, que sempre segue em frente. Fica uma pergunta sobre o conflito (e a identidade) sexual do tímido Matt. Mas não precisa haver resposta. Ficam muitas perguntas sobre as angústias que movem o “belo” David, Ficam as possibilidades sobre as verdades e mentiras que compões a história de Christine, ou Cristina, ou Ana, ou…. Provocações, pistas falsas, o texto está cheio delas.
O enredo básico: em Amsterdã, David conhece uma prostituta francesa e a traz para o ap. para “salvar” Matt de suas angústias; a francesinha Chritine é trazida por amor de amigo ; ou por um arrependimento por ter tomado a namorada do outro e o jogado para dentro do redemoinho de si mesmo. É dessa forma que Christine aparece na vida de Matt, vida de escritor enredado por suas angústias. Naquela noite a presença dela o salva – como ele diz e o vemos– do suicídio.
Mas fazer o que se ela se apaixonou por David, ela veio ali por David, foi a presença de David no prostíbulo que a salvou de uma história sem sentido e sem amor, um casamento de aparências com um gay em Paris, com o qual passa seis meses por ano. A trepada, as mentiras e o presentinho falso do belo David enganaram a moça. Conversa vai, alimentando o momento tenso de possibilidade de sexo para o tímido Matt, ele percebe que ela não é francesa, ela é uma farsa, uma atriz vivendo um papel. Descobrerta, ela aceita e o jogo se inverte. Aqui se desenha um esboço de envolvimento, baseado em verdade. Ela confessa ser brasileira de Santos e coisa e tal. A verdade parece aparecer na história. Eles transam, coisa forte. Ele amanhece sozinho.
Ato dois. Um ano depois, em São Paulo, já separados, Chritine aparece, procurando por David. O rapaz havia, a seu pedido, lhe passado seu endereço no Brasil, no ato anterior. Mas era o endereço de Matt. Matt não acredita estar vendo essa mulher. Momento cruel, porque a moça não se lembra dele. Nem da transa que lhe salvou a vida. Neste novo encontro ela revela ser Cristina, depois Ana, e os pais são de Ribeirão Preto. Está aidética, diz. De quem? Breves momentos de receio, Matt a acolhe e declara seu amor, precisa revelar. Ele a ama e a vai proteger. Fala da peça que está escrevendo, que o persegue, cujos personagens são os três. Como ela está faminta, sai para comprar comida.
Chega David para pegar o celular esquecido ali dias antes. Ana não cabe em si. Voltando a a fingir ser a Christine de sotaque francês. Mas agora a crueldade se inverte e é David quem não se lembra dela, entre tantas com quem esteve. David descobre que Matt o está usando como personagem, apontando seus defeitos. Literalmente, joga o laptop do outro na geladeira. Eles transam, ela pela falta afetiva e ele por uma descarga animal, ou algo mais. E vai embora.
Ela vai embora, também, para o mundo, para os pais, para lugar nenhum, vá saber. Matt volta, não a encontra. E a última cena vista é a dele dançando envolto em uma peça de roupa de Ana… que guarda desde quando a conheceu.
As atuações de André Frateschi , Rafael Primot e Marjorie Estiano são exatas em seus personagens incompletos e complementares. Não há destaques, e nesse quesito a direção precisa merece sempre ser destacada. A cena da música interpretada com guitarra por André Frateschi é perfeita, tocante, profunda, bela. E a atriz surpreende na delicada construção de início, da personagem “francesa” que oscila entre o humor e o drama. É, então, uma perfeita coadjuvante, mesmo dona de uma sensualidade ímpar. Em seguida consegue cumprir a incrível tarefa de perder a graça sensual, ganhando em peso dramático. Um trabalho e tanto, uma interpretação completa, física, presente. Crhistine, Cristina, Ana é personagem difícil, a que sofre a transformação durante o espetáculo.
A direção- nisso exalto a luz, o cenário, as partes musicais, todos exclentes – é dessas direções que não aparecem, de tal maneira integradas no todo da montagem. É a alma da montagem. A cena que separa os dois atos, uma desmontagem do apartamento de Amsterdã, que se transforma na kitinete de São Paulo São Paulo, com os contra-regras trocando tudo sem o personagem Matt sair de cena, me lembrou as mais belas cenas de teatro de bonecos, de manipulação direta: a teatralidade existente, a passagem de espaço e tempo à nossa vista e sem que o personagem a perceba.
Uma peça para ser vista mais de uma vez. E a cada vez, de novo.






