Estou lendo Gente, de Fernando Sabino, uma coletânea de perfis que o escritor fez para o Caderno B, do Jornal do Brasil, de 1973 a 1974. Gosto dos textos, entre outros motivos, porque o escritor não se exclui do texto e se posiciona em relação aos retratados.
O perfil de Manuel Bandeira é particularmente interessante porque o autor exprime aquela vontade, que em maior ou menor grau, todos temos, a de sermos amigos de nossos ídolos, a de termos a possibilidade de sentarmos à mesa com eles para discutirmos banalidades ou mesmo coisas profundas.
Foi em 1944 que estive com ele pela primeira vez em casa de Portinari. Conversamos sobre o poder encantatório das palavras, cujo verdadeiro sentido tinha de ser redescoberto: contei-lhe que para Hélio Pellegrino, por exemplo, sinecura era um canto de sacristia e almoçar, um templo árabe.
Nesse ano, Sabino tinha 22 ou 23 anos. Um jovenzinho que recém tinha batido diversos recordes brasileiros de natação.
No ano seguinte, Sabino encontra novamente o poeta.
Uma noite, em 1945, pude tê-lo por acaso a meu lado, numa mesa do Alcazar, na Avenida Atlântica. Era uma reunião de amigos festejando a presença de Neruda entre nós, quase todos poetas: Vinicius, Schmidt, Paulo Mendes Campos, se não me engano o próprio Drummond. Quando Manuel Bandeira se aproxima, já está estabelecida a confusão comum a uma mesa de bar, entre rodadas de chope: uns bebem, outros falam, outros riem, outros proclamam a República. Depois de fazer o pedido ao garçom, ele se acomoda melhor junto à mesa, esperando que a conversa o envolva também. Seu olhos erram por cima das cabeças, e se perdem ao longe, no mar. O garçom acaba por trazer mais chopes e de deixar uma taça de sorvete à sua frente. Ele se inclina sobre a mesa e dá uma provadinha. Já que ninguém o observa, esfrega as mãos, e diz para si mesmo, satisfeito como um menino: “É de creme”.







