Ao visitar a Biblioteca Pública do Paraná – uma muito boa biblioteca se comparada à miséria livresca de outros estados da Federação que amigos relatam – deparei, em um livro que por acaso abri, com o discurso de William Faulkner, na cerimônia em que recebeu o Nobel de Literatura, em 1949.
O discurso é surpreendentemente curto, característico de quem gosta de ir direto ao ponto sem chatear a audiência. Quase 60 anos depois, ele é cada vez mais atual.
Cito um trecho:
Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.
Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.
Se em 1940 estávamos no pós-guerra e, em breve, a Guerra Fria estaria totalmente configurada, tornando a pergunta “quando vão me explodir?” uma indagação tão cotidiana quanto um bom-dia, hoje sinto que ainda não deixamos de fazê-la apesar de as ameaças serem mais fantasmagóricas, menos sólidas: violência urbana, meio-ambiente, terrorismo e outros.
A última frase do trecho que pincei, aliás, faz lembrar de um episódio em que meu amigo Rogério Pereira, editor do Jornal Rascunho, quase teve que sair no braço com um escritor menor de que não me lembro o nome, que o ameaçava aos berros dizendo que escrevia com os culhões. Tudo não passou de uma bobagem e agora faz parte do anedotário da parte mais efêmera da literatura nacional, mas ilustra o que Faulkner quis dizer.
Leia o discurso completo no blog do Yuri. Vale a pena ir lá e ouvir o áudio da fala do escritor. Em apenas três minutos, o som hesitante do virar das folhas diz tanto quanto ou até mais que as palavras.









