A certa altura de A História Sem Fim, de Michael Ende, o personagem Bastian Baltazar Bux descobre que no verso da medalha que lhe dá poderes para realizar qualquer um de seus desejos, sem limites, o Aurin, está escrito: “Faça o que quiser”.

Esta frase não é novidade. Ela também está em Gargantua e Pantagruel, de Rabelais. E também você já deve tê-la ouvido em uma música de Raul Seixas. Ou ainda como máxima de Aleister Crowley.

Para entender que essa frase, tão simples, mais do que um chamado à bandalheira é um convite a Ética, basta perceber que “Faça o que quiser” é diferente de “Faça o que lhe agrada”. Para fazer, de fato, o que se quer é preciso boa dose de conhecimento de si, do outro e do mundo.

Encontrei a frase novamente, citada de Rabelais, no livro Ética Para o Meu Filho, de Fernando Savater:

Assim dispusera Gargantua. Sua única regra era:

FAÇA O QUE QUISER,

porque as pessoas livres, bem nascidas e bem educadas, quando tratam com pessoas honradas tem por natureza um instinto e um ímpeto que sempre as leva a feitos virtuosos e as afasta do vício, o que chamam de honra. Mas quando essas pessoas por vil sujeição e imposição veem-se reprimidas e constrangidas, desviam-se do nobre pendor, pelo qual livremente tendiam à virtude, para se rebelar e romper o jogo da servidão, pois sempre tendemos buscar o proibido e a buscar o que nos é negado.

Ontem, Júlia  me falava sobre o Anel de Giges. Em A República, Platão narra a lenda do pastor Giges que encontra, no fundo de um abismo, um anel que lhe permite ser invisível (você já viu isso em algum lugar certo? em uma trilogia de Tolkien talvez?).

Ao desfrutar da invisibilidade, o pastor passa a agir sem escrúpulos e, movido pelo desejo de poder, seduz, rouba e mata.

A questão é: entregue a sua própria vontade e a seus desejos – sem nenhuma vigilância -, o homem faria o que é certo? Faço as coisas boas porque posso ser recompensado ao fazê-las e, por outro lado, sou coagido por leis (humanas e divinas) a não fazer as más ou ajo por minha própria vontade? Ajo desta ou daquela forma porque faço o que quero?

Há dois meses tive a carteira de motorista suspensa por um engano. Observei que muitos amigos meus nas mesmas condições optaram por dirigir mesmo sem o documento (apesar dos riscos de suspensão por dois anos ou mais por conduzir nessas condições).

Passei a me questionar se eu não era um sujeito certinho demais.

E concluí que, se eu dirigisse mesmo com a carteira suspensa, estaria fazendo isso por comodidade e não por uma razão ética de fato: por exemplo, por considerar a lei injusta (no fundo, o engano que ocasionou a suspensão foi meu e de meu pai).

Assim, quando surgisse um momento de me rebelar contra uma lei que julgasse de fato injusta, eu me omitisse. Também por comodidade. Deixando então de me opor à situação, permitindo me oprimir.

Assim, passei esses dois meses sem dirigir. Já estou nas ruas novamente.

Fiz o que quis. Suponho.

(texto publicado originalmente em 29 de setembro de 2009)

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!