Evgen Bavcar: o fotógrafo cego

É inevitável usar o título que usei para o post, pois a imagem (ilusoriamente) parece ser escrava do olho que a viu e que, portanto, supostamente a produziu. A imagem, no entanto, existe independentemente disso. Apesar disso, continua ser espantoso que exista um fotógrafo cego.

Achei muito interessante a relação que ele tem com a fotografia da nudez segundo o que li em uma entrevista da Revista Coyote:

Lembro-me que um dia, em Stuttgart, encontrei um rabino de Israel. Ele me disse: “Como?! Você faz nus?”. “Sim, faço nus. É uma coisa muito bíblica.” “Como muito bíblica? Não é bom fazer fotos de mulheres nuas”. “Mas é muito bíblico,” eu disse. “Porque quando Adão e Eva tem  a consciência  da nudez, tem também a consciência de tornarem-se mortais. ” Eu nao estou fotografando a nudez, mas a mortalidade. Isto é o destino, porque o corpo é o barômetro do tempo, da existência e também um indicador da morte. Nós morremos com o corpo. O corpo é como um castelo onde está nossa vida, uma cidadela, uma Tróia. Nosso corpo é Tróia e fora estão as pessoas que nos cercam. Este é o destino do corpo e é necessário para o corpo sair um pouco para fora, ir para o mundo para defender-se, para não estar sempre cercado. Por isso, quando faço fotos de mulheres nuas, faço para que se compreenda que o corpo é mortal. E também por uma coisa muito pessoal. Eu faço estes nus porque na história foram muitos os cegos que não puderam, pelo menos uma vez na vida, ver uma mulher nua. Estou fotografando os nus para eles também. É uma relação com o corpo como única possibilidade da vida e da existência. Eu sou da parte de Eros, que foi um deus com os olhos cerrados, um deus cego. Eu faço a fotografia erótica mas não a de consumação sexual. Faço a fotografia erótica no sentido puro do termo, o sentido grego. Estou condenado a estar a vida toda perto de Eros.

A relação que Evgen Bavcar, por ser cego, tem com as imagens é bastante peculiar e pode mudar a perspectiva que você mesmo tem com a fotografia. Recomendo que você conheça o trabalho dele.

Existe um ditado que diz que “pior cego é aquele que não quer ver”. Existe um pior, no entanto. Aquele que acha que vê. É o caso de muitos de nós.

Postado em Artes e design.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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