Tenho a teoria de que algumas pessoas são tão legais que deveriam ser remuneradas pelo simples fato de existirem.

Isso seria fácil de acontecer se todos nós tivéssemos total identidade com aquela atividade que nos remunera, de maneira que não precisássemos ser em essência de um jeito e, no trabalho, de outro, obrigados a isso pelo dinheiro (ou seja lá o que for) que precisamos receber e, assim, manter uma razoável qualidade de vida.

Neste fim de semana, durante o DeRose Pro Estratégico, falei para um grupo de empreendedores assim, cujos desígnios profissionais e pessoais se entrelaçam de tal modo, que eu diria facilmente que nos momentos de lazer estão a serviço e nos momentos de serviço, a lazer. Tudo, cada gesto, é uma expressão daquilo que escolheram realizar no mundo.

Quando não somos puxados para um lado por nossas convicções, desejos e necessidades pessoais e, para o outro, pelas contingências profissionais e, antes, essas duas forças trabalham na mesma direção, as resultantes são realização, satisfação e, sim, ética.

As palavras ética e integridade frequentemente aparecem juntas. E não é à toa.

Um trecho de um texto de Mario Sérgio Cortella ajuda a entender:

A integridade é o cuidado para se manter inteiro, completo, transparente, verdadeiro, sem máscaras cínicas ou fissuras. Nessa hora, um perigo se avizinha: assumir- se individual ou coletivamente uma certa “esquizofrenia ética”. Ela desponta quando as pessoas se colocam não como inteiras, mas repartidas em funções que pareceriam externas a elas. Exemplos? “Eu por mim não faria isso, mas, como eu sou o responsável, tenho de fazê-lo”. Ora, eu não sou eu e uma função, eu sou uma inteireza, eu não sou eu e um professor, eu e um pesquisador, eu e um diretor, eu e um Secretário, eu sou um inteiro. “Eu por mim não faria”, então eu não faço!

Cautela! Coloca-se um estilhaçamento da integridade: “Eu, por mim, não lhe reprovaria, mas como eu sou seu professor, eu tenho que reprovar”; “Eu, por mim, não lhe mandaria embora, mas como eu sou seu chefe…”; “Eu, por mim, não lhe suspenderia, mas como eu sou seu superior…”; “Eu, por mim, não faria isso, mas como eu sou o contador…”; “Eu, por mim, não faria isso, mas como eu sou o responsável pelo laboratório…”.: “Eu por mim não faria”, então eu não faço; “Eu por mim não lhe reprovaria”, então não reprovo. De novo: eu não sou eu e uma função, eu não sou eu e um pesquisador, eu e um chefe do laboratório, eu e um diretor de instituto, eu e um Secretário…

Quando o trabalho não divide a pessoa entre aquilo que ela é e aquilo que ela faz, muito mais facilmente seus pensamentos e atitudes responderão àquelas simples e difíceis perguntas éticas – quero? posso? devo? – com saudável coerência.

Cortella nos lembra ainda da famosa frase de François Rabelais em que, justamente, aparece uma combinação destes três verbos:

“Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam.”

A beleza da frase nos faz pensar em grandes momentos históricos, mas trata-se de uma ilusão. Ela se aplica aos nossos mínimos gestos, profissionais ou amadores.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!