Estatuto do Nascituro: o estupro ético por nossos legisladores

Ao ver que o Estatuto do Nascituro está indo tão longe, me pergunto sobre até que momento os nossos legisladores – municipais, estaduais e federais – continuarão a cuidar questões éticas e morais de nossa vida quando, individual e coletivamente, demonstram não ter a menor competência nessas áreas.

Cotidianamente.

Cito o texto linkado:

Pois bem, o tal Estatuto define o nascituro como portador de direitos desde “a concepção”. (…)

Essa definição não apenas dificulta uma futura legalização do aborto por decisão da mulher, como acaba com as duas possibilidades legais hoje existentes. Provalvemente, terá também repercussões para as pesquisas com células-tronco de embriões.

A autora do projeto, a deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), defende sua posição alegando que “a criança não pode pagar pelo erro dos pais.”

Embora essa declaração tenha a grandeza de um embrião (um pouco menor, quem sabe) e a sabedoria do senso comum a escoltá-la, sou obrigado a concordar com a deputada: o erro dos pais, porém, foi obviamente o voto nas últimas eleições. O erro, aliás, das últimas gerações.

Seria mais produtivo se os nobres deputados votassem leis de real impacto, então, sobre os tais erros.

Por exemplo: pessoas efetivamente alfabetizadas, bem educadas, saudáveis economica e fisicamente cometem menos erros, seja escolhendo a hora certa de engravidar seja escolhendo melhores políticos para governar e legislar.

No entanto, em vez de cuidar de questões macro, abrangentes e efetivas, nossos deputados e senadores preferem cuidar do útero de nossas mulheres. Com um pouco de imaginação, podemos chamar isso de estupro ético.

O próximo passo é cuidar dos intestinos, talvez. Do que entra e sai deles, quem sabe. Acredite. Não estamos longe disso.

Na prática, a situação, então, continuará a mesma: a mulher que puder continuará pagando por uma boa clínica para fazer seu aborto e aquela que não – aquela que mais precisaria da assistência do estado – continuará pagando por uma má clínica ou apelando para recursos ainda mais medievais. A situação até piora se considerarmos os casos de estupro ou má-formação. A mulher sempre será a maior mártir dos falsos moralismos.

E os caros legisladores estarão sossegados, pois cumpriram o seu papel, cuidando para que as coisas continuem como sempre foram. Piorando um pouquinho sempre que possível.

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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