(artigo de autoria do articulista convidado Fernando Klug)
Segunda criação do dramaturgo e diretor Claudio Tolcachir, Tercer Cuerpo reúne três ingredientes que garantem sucesso: um enredo humano tocante e moderno, um texto-direção basicamente naturalista (portanto de fácil identificação) e um elenco com qualidade suficiente para transmiti-lo. O enredo, através de três personagens unidos pelo trabalho em um escritório e um casal qua vai ligar-se a eles depois, fala de solidão, de incompreensão e de necessidade de amar. E da incapacidade disso. E dessa proximidade com isolamento que vivemos. É um humor já conhecido por quem assiste ao cinema argentino: piadas secas e rápidas que, ao mesmo tempo que fazem gargalhar, nos mantêm atados ao eixo dramático. E, às vezes, nele nos afundam. Mas não deixamos de rir até que a luz do escritório, assim de seco, se apague. E sem que nada se resolva. Claro, é difícil apontar soluções para esse movimento de individualismo e de desagregação em que vivemos.
O cenário único e naturalista é um escritório – na próvável década de 1980, momento em que passávamos da carta ao e-mail. Mas é teatro e a direção subverte o naturalismo: a funcionária senta em frente à escrivaninha – mas agora não é mais o escritório, mas o consultório onde ela conversa sobre uma inseminação artificial. Ou a mesma escrivaninha passa a ser duas mesas de restaurante, servindo a dois diálogos simultãneos. Tudo sem alteração de luz. Os diálogos se cruzam muito, as pessoas falam muito e não é difícil perceber o muito que se esconde por trás de tudo. É um cheiro de algo antigo com algo moderno, algo mesmo entre o computador e a máquina de escrever. Como é falado em espanhol, as legendas ao fundo e acima ajudam o entendimento. Apesar de certo incômodo para quem está mais próximo do palco.
O elenco é competente em nos levar aos personagens e tem um tempo de comédia drama apreciável. É um naturalismo que eles (os vizinhos) fazem muito bem Mas nada além, exceção feita à atriz Melissa Hermida, cuja construção artística vai além de personagem e gênero. Tem aquele toque que faz o entretenimento elevar-se à categoria de arte.
O público aplaudiu de pé por muito tempo. Pareceu espontãneo, embora em Curitiba aplaudir de pé seja item de educação básica.







