Não sei se vocês sabem, mas o mago Paulo Coelho tem um primeiro livro, chamado Manual prático de vampirismo da qual ele se envergonha. Não sei dizer se ele mandou recolher, se impede a publicação, se tirou da lista de livros dele ou se ele apenas não gosta. Pelo nome, dá pra perceber que o assunto é místico, mas num enfoque diferente. Onde já se viu, um mago do bem ensinando a ser vampiro? Na época que ele escreveu, ter seu nome associado ao vampirismo não lhe parecia tão ruim. Mas os anos passam e as pessoas mudam. Só que o que foi publicado fica.

Para o bem ou para o mal, não é só o que Paulo Coelho disse ou o que foi publicado por uma grande editora que fica. O que escrevemos em blog fica, o que tuitamos fica, os vídeos que favoritamos ficam, tudo o que escrevemos no Facebook fica. E um dia isso pode voltar para puxar o nosso pé. Tenho dois posts de 2009 que falam sobre piercing que são campeões de acessos. Neles eu relato o curto período que tive piercing de nariz. Falo de coisas prosaicas, como da dificuldade de tirar a meleca, e do que me levou a tirar o piercing depois de poucas semanas. Nunca imaginei que teria que moderar comentários quase todos os dias, durante anos, até decidir trancar o post. De vez em quando, ainda aparece alguém querendo me adicionar no Facebook ou que me manda e-mail perguntando se pode comer batata frita quando coloca o piercing ou que pomada usar no caso de infecção.

Outro post que as buscas não me deixam esquecer é um que fala sobre desvantagens de morar em Curitiba. Ele também é de 2009 e nem lembro direito o que escrevi. Na época, tinha uma relação de amor e ódio muito grande com a cidade onde vivo. Hoje as coisas estão mais calmas entre nós duas, e é pouco provável que eu escrevesse aquilo de novo. Mas sempre surge alguém que reage àquele post. Alguns concordam, outros se assustam, e tem os que aparecem para me xingar e defender a cidade. Respondi por e-mail, recentemente, um italiano que estava baseando sua decisão de morar em Curitiba, dentre outras coisas, nos meus posts.

Não tenho um blog famoso e ainda assim recebo e-mails de dúvidas. Por ter me colocado como pessoa que entende de um assunto, as pessoas me procuram para falar desse assunto. Procuro ser responsável; no caso do piercing, sempre recomendo que as pessoas procurem um estúdio onde se coloca piercing e falem com esses profissionais. No caso de Curitiba, tenho que responder até hoje por coisas que falei mal da cidade, por mais que minha opinião tenha mudado. A internet nos coloca disponível aos leitores – tudo o que dizemos pode ser resgatado, e esse resgate é feito de uma maneira que ignora tempo e contexto. Por isso, todo cuidado é pouco. Desses dois posts, tiro duas lições importantes:

  1. Evite se colocar como especialista se não entende. Se mesmo assim te procurarem, indique os verdadeiros especialistas.
  2. Evite declarações polêmicas, preconceituosas e/ou agressões gratuitas. As pessoas podem querer te responder na mesma medida, numa época que você até já esqueceu do assunto. Sem dizer que, no futuro, você pode querer voltar atrás e isso não ser mais possível.

Sobre o autor: Caminhante Diurno

Caminhante tem casa, marido, cachorro, blogs (Caminhante Diurno e Caminhando por Fora), carteirinha da biblioteca. E não pode viver sem qualquer um deles.