Este aqui é o terceiro post sobre epitáfios de escritores (confiram a Parte I clicando aqui e a Parte II clicando aqui). E desta vez, finalmente, quem aparece são os escritores brasileiros.

Clarice Lispector (1920 – 1977)

“Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria.”

A frase é do livro “A Paixão Segundo G.H.”, e o parágrafo inteiro é:

“Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer – nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior – muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono.”

Clarice Lispector

Paulo Leminski (1944 – 1989)

“Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
São suas obras completas.”

Esse é o “Lápide 1 / epitáfio para o corpo”, escrito pelo próprio Leminski, que também já havia escrito:

“Lápide 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces”

Paulo Leminski

Machado de Assis (1839 – 1908)

“Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.”

Quando Carolina, esposa de Machado, faleceu, em 1904, ele escreveu “A Carolina”, que foi o seu último soneto escrito.

Machado de AssisCora Coralina (1889 – 1985)

“Meu adeus a vida

Morta serei árvore
serei tronco serei fronde
e minhas raízes agarradas
às pedras do meu berço
são as cordas quebradas
de uma lira.
Enfeitar de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo de vida
vegetal.
Não morre aquele
que deixou na Terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.”

  Cora Coralina Casimiro de Abreu (1839 – 1860)

“Um anjo dorme aqui; na aurora apenas,
Disse adeus ao brilhar das açucenas
Sem ter da vida alevantado ao véu.

— Rosa tocada do cruel granizo —
Cedo finou-se e no infantil sorriso
Passou do berço p’ra brincar no céu.”

Poema “No túmulo dum menino”, do próprio autor.

 Casimirio de Abreu

Carlos Marighella (1911 – 1969)

“Não tive tempo para ter medo”

Mais conhecido pela sua atuação política, Marighella foi também poeta e escreveu inclusive durante as várias vezes em que foi preso. O seu túmulo foi desenhado por Oscar Niemeyer, com a sua silhueta e cinco marcas de bala no peito. Seu epitáfio lembra o que Jorge Amado escreveu (confira aqui) sobre ele: “Aqui estás, plantado em teu chão e frutificarás. Não tiveste tempo para ter medo, venceste o tempo do medo e do desespero.”

Carlos Marighella

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.