Se há algo de que posso me orgulhar é que fui um dos fundadores do jornal literário Rascunho e durante um tempo nele escrevi algumas resenhas e críticas.
Por dois anos, Rogério Pereira e eu vínhamos para a redação do Jornal do Estado – onde neste instante escrevo estas linhas – e editávamos juntos o Rascunho.
Eu diagramava – tentando fazer milagres com meu pobre conhecimento de design – e ele editava e paginava, escolhendo onde cada texto ficaria, tendo às vezes que tapar buracos de colaboradores que desistiam na última hora. Afinal, persistência é para poucos.
Chegávamos 11 horas da noite, quando os computadores da redação já estavam desocupados, e muitas vezes saíamos três ou quatro horas da manhã, cansados, mas orgulhosos por ter feito um bom trabalho dentro das nossas possibilidades.
Um orgulho meio quieto, de cansaço e de quem sabe o verdadeiro tamanho e não precisa se afirmar.
Eu cheguei a escrever a coluna de literatura infantil, sob a alcunha de Vovô Anselmo, mas com o tempo até essa atividade eu fui deixando de lado por descobrir que, na verdade, eu nunca gostei de escrever resenhas e críticas. Nem de literatura infantil.
Porém, admiro quem gosta e o faz com maestria e, por isso, reconheço a importância do Rascunho.
Recentemente encontrei esta entrevista com o Rogério Pereira no Digestivo Cultural e creio que a resposta que melhor traduz o espírito deste amigo – que há muito não vejo e que, no entanto, busco trazer sempre próximo – é a seguinte:
Parece estranho dizer isso, mas não gosto muito do mundo literário. Evito ao máximo me encontrar com os escritores, estreitar laços de amizade. Minha vida social está muito distante da literatura. Nos fins de semana, jogo futebol amador com muitas pessoas que nunca abriram um livro. No meu time (o grande Imperial, que disputa a 1ª Divisão de Amadores de Curitiba), estão mecânicos, pedreiros, encanadores, vendedores, muitos que também sonharam em ser jogadores de futebol e ficaram pelo meio do caminho. Prefiro ficar no meu mundo, no mundo que eu construí: minha família, a pequena Sofia que chega nos próximos dias a este lado do mundo, aos poucos amigos, sempre muito distante do egocêntrico mundo literário. É claro que parece estranho um editor de um jornal literário dizer isso, mas o importante são os livros, não a vaidade de quem os escreve.
Como diria Vinicius de Moraes: saravá, Rogério Pereira.
A literatura precisa de mais gente pensando assim.










