O poeta Carlos Drummond de Andrade, no título de um de seus livros, diz: amar se aprende amando.

O mesmo vale para outras atividades, sobretudo para aquelas que exigem alguma dose desse mesmo amor.

Pois bem.

Ler se aprende lendo. Escrever se aprende escrevendo.

O professor não espere inspirar a paixão pela leitura e pela escrita ensinando orações subordinadas e insubordinadas.

Sinceramente, até hoje eu sou um ignorante desses detalhes técnicos da língua. Não digo isso com orgulho. Mas tampouco tenho vergonha.

Simplesmente o digo para reafirmar que não me tem feito falta tais conhecimentos.

A gramática e o apego excessivo a aspectos mais analíticos da língua devem estar entre as grandes baboseiras do ensino atualmente. Não que eles não sejam importantes. Ela são. Porém não são a prioridade neste instante.

Vamos deixá-los, por enquanto, aos tarados da Língua Portuguesa. São coisas para maiores de idade.

Sinceramente, se eu tivesse guardado minhas redações da época em que tinha 10 anos certamente teria encontrado erros mais graves que trocar uma letra na palavra “cena”, por exemplo. Diverti-me, na semana passada, ao ver supostos adultos tripudiando sobre esse erro, cometido por Sasha, filha de Xuxa, e ao tripudiar usar modalidades de expressão equivalentes ao erro que criticavam.

Veja só. O Brasil foi um dos piores colocados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos há alguns meses. No quesito leitura, foi o quadragésimo oitavo entre 56 participantes. Não conseguimos interpretar nem uma tabuleta de banheiro.

Isso quer dizer que, de geração à geração, nosso País vem se empenhando em formar analfabetos funcionais. Gente que sabe juntar as letrinhas, assinar o nome, mas que é incapaz de entender esta frase simples.

De um lado, temos professores que cumprem seus programas, tentando ensinar a gramática.

Esses mesmos professores, porém, ao cumprirem seus programas, não têm tempo ou mesmo interesse em despertar em seus alunos o prazer da leitura. É claro, na hipótese de eles mesmos terem tal prazer.

Do outro lado, vemos alunos que não conseguem aprender a gramática, por ser chata e desinteressante quando não aplicada à escrita e quando não amparada por bons livros.

Esses mesmos alunos ainda não terão a chance de descobrir a leitura, que em suas mentes estará para sempre associada a um tipo de atividade enfadonha.

Veja o que diz Rubem Alves a respeito do aprendizado do prazer da leitura:

Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua. (…) Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.

Lembro, quando eu era criança, dos óculos que roubei à minha avó, na esperança de decifrar o conteúdo de um livro. Pois eu sempre a via usando os tais óculos quando lia para mim. E eu precisava, ainda desconhecedor das letras, saber o que havia dentro daquele livro.

Pedro Sette Câmara, do blog O Indivíduo, também defende a idéia de que o ensino da gramática deve ser revisto. Ele vai além e pede o seu fim:

(…) o aluno é obrigado a aprender um monte de regras e classificações vazias e tem pouco contato com o uso literário (isto é, melhor) da língua. De nada adianta saber a diferença entre o adjunto adnominal e o complemento nominal, ou apontar uma oração subordinada substantiva apositiva (coisa que só aprendi muito depois da escola, já que sempre abominei o estudo da gramática tanto quanto abominava a química orgânica e a física do fio sem massa e da superfície sem atrito) sem ser capaz de escrever claramente. Notem que eu falei “claramente”, não “corretamente”. A situação hoje é muito grave.

Recomendo a leitura integral do artigo Parem de Ensinar Gramática.

Se eu fosse professor, pararia.

E investiria meu tempo em ler todos os meus livros preferidos para meus alunos durante cada minuto de aula.

Quem sabe eu ainda salvasse dois ou três. Já seriam bastantes.

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