‎Emily Dickinson: A Mulher por trás do Mito

Emocionando sucessivas gerações ao redor do mundo, o maior de todos os poetas americanos era uma mulher: Emily Dickinson, segundo Otto Maria Carpeaux, no livro História da Literatura Universal.  Descrita em inúmeros estudos como solitária e “Grande Reclusa”, a autora nasceu em 10 de dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts (EUA) e faleceu no mesmo local em 15 de maio de 1886, teve uma educação bastante rigorosa e uma vida sem muitas aventuras, apenas cheia de sentimentos, impressões que passou para o papel.

Emily Dickinson produziu muito e publicou pouco. Foram cerca de 1.800 poemas e quase 1000 cartas, nunca publicou um livro em vida, apenas anonimamente alguns versos. Na verdade, após quatro anos de sua morte, em 1890 foi lançado o Poems by Emily Dickinson, pela Robert Brothers e a partir dai todos a reconheceram publicamente.  No Brasil, só em 1940, seus poemas foram traduzidos por Manuel Bandeira e mais tarde, em 1954, por Cecília Meireles.

 

 

Mas o que intriga mesmo os leitores da obra de Dickinson é a sua trajetória, que para alguns estudiosos é totalmente interligada aos acontecimentos da sua existência. Uma curiosidade é que a vida da poeta lembra a de outra grande escritora, a inglesa Jane Austen (1775-1817). Apesar do pai de Emily ser bem mais rigoroso do que de Austen (Emily chegou a ler Shakespeare escondida do pai), ambas tiveram a sorte de ter uma irmã (Lavínia Dickinson), que as apoiavam e nunca se casaram, vivendo juntas até a hora de sua morte.

Outra curiosidade é a respeito das correspondências, pois tudo o que se sabe sobre a vida íntima e familiar de Dickinson foi devido à leitura destas cartas trocadas com a cunhada Susan Dickinson e alguns intelectuais, como Samuel Bowles, Thomas Higginson e Helen Hunt.  E ainda, há um único retrato considerado autêntico da escritora, assim como a da romancista inglesa. Deixando as comparações e curiosidades de lado, vamos aos fatos da construção do mito chamado Emily Dickinson.

Com uma sensibilidade literária a flor da pele, Emily Dickinson teve uma produção intensa. A sua psique era extremamente sensível, viveu reclusa durante seus poucos anos de vida, possivelmente para ter mais tempo para escrever. Escreveu sobre o amor e sobre a morte na mesma intensidade, encontrando inspiração profunda na natureza, nos simples objetos e numa paixão não correspondida. É difícil imaginar como teria sido realmente a sua vida pessoal, mas segundo alguns críticos, os poemas de Amor da autora são inspirados, por um clérigo que ela conheceu em uma de suas raras viagens para Filadélfia.  Charles Wedsworth é apontado como essa influência, sendo alvo de boa parte desses poemas.

“Emily Dickinson ilustra a natureza e a qualidade da poesia americana como um todo. Em sua obra existem bem poucos poetas americanos cujas imagens não tenham sido focalizadas por ela, cujas visões ela não tenha recapitulado, criticado, ou antecipado. Seus poemas demonstram como as coisas mais comezinhas da vida, num país de grande senso prático, podem ser vitalizadas e tornadas preciosas para o espírito, transformadas em poesia de alto nível.”  ( FERNANDES, 2006)

A partir desses elementos, a poeta deu vida a sua forma de escrever e quebrou as convenções no conteúdo dos seus textos. Dickinson manteve seu estilo conciso, moderno e inovador. Além disso, a autora também tinha senso de humor nos seus textos, por abranger temas do cotidiano. Ela ainda mostra uma consciência existencial terrível e como Edgar Allan Poe, explora a parte oculta e sombria da mente, com uma linguagem muitas vezes oblíqua e obscura, dramatizando o amor e a morte. Muitas vezes evoca um paradoxo do limite humano preso no tempo.  Vejamos um poema sobre a morte:

A Ausência Desincorpora

A Ausência desincorpora – e assim faz a Morte
Escondendo os indivíduos da Terra
A Superstição ajuda, tal como o amor -
A Ternura diminui à medida que a experimentamos -

Ora serena e ora desesperada, a personalidade e a obra de Emily Dickinson transcende gerações e incomoda, por transformar a poeta, em mito. A obra pode ser até mesmo incompreensível para algumas pessoas, assim como os detalhes da sua vida, porém, não se pode negar que ela tenha sido uma mulher ousada, criativa e que tinha uma visão fenomenal do universo e do ser humano e mesmo não tendo vivido ou gozado de uma liberdade na limitada vida, no fundo da alma ela soube transcender o que havia de mais forte e intenso dentro de si, o amor pela escrita.

A alma para si mesma 
É imprescindível companhia – 
ou – como se de inimigo – 
Ela é torturante espiã.

Segura contra si mesma – 
Trair-se não é de supor – 
Mas sendo de si rainha – 
Ela se infunde terror. 

 

Dica: Uma das últimas traduções em português foi do José Lira, pela Editora Iluminuras , 2008.



Em breve uma jornalista(com diploma). Cursou Letras na Universidade Federal do Amazonas(UFAM). Possui a síndrome da “Era de Ouro” e é apaixonada por filmes clássicos, cinema francês, Literatura e rock and roll. Adora Teatro, Ópera, Arquitetura, Artes plásticas, Moda, Dança e, acima de tudo, ama escrever. Atua em produção cultural e jornalística. É colunista e proprietária do Primeiras Impressões e do site Viva Cultura! Foi colaboradora do Blog 7em1 e Colunista no CineSplendor. Atualmente é Produtora Executiva na Tv Amazonas.


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