Há muito tempo a pergunta do título ecoa em meus pensamentos.

Por que alguém deveria ser parabenizado apenas por ter nascido com um determinado sexo? E se a teoria corrente diz que o responsável pelo sexo do bebê é o espermatozoide do homem, então quem deveria ser parabenizado neste dia eram os pais da mulheres por terem possibilitado a vida delas?

Raciocinio estranho, não? Eu considero. Mas é nisso que nos fazem pensar a maioria das comemorações nesta data do ano. Elas dizem que as mulheres devem ser parabenizadas por terem nascido mulheres e por serem seres tão maravilhosos, que geram crianças, que são sensíveis, que são carinhosas… e por aí vai.

E dá-lhe botões de rosas para agradá-las.

Também gosto de receber rosas e ouvir o quanto as mulheres são especiais & afins.

Contudo, essa não deveria ser a reflexão principal deste dia.

O Dia Internacional das Mulheres remete à reflexões acerca das precárias condições de vida às quais são submetidas as mulheres, que em 99% da história foram preteridas nos principais aspectos da vida em sociedade.

No livro SuperFreakonomics, os autores – Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner dedicam boa parte do primeiro capitulo sobre os dados estatiscos e analises dos porquês de ser mais difícil ser mulher do que homem no mundo. Eles escrevem:

 Ao longo de toda a história, sempre foi mais fácil ser macho que fêmea. Sim, trata-se de excesso de generalização, e, sim, há exceções; mas, por qualquer critério importante, as mulheres sempre enfrentaram mais dificuldade que os homens. Muito embora os homens se incumbissem de boa parte das guerras, das caçadas e dos trabalhos de força bruta, a expectativa de vida das mulheres era mais curta. Algumas mortes eram mais insensatas que outras. Entre o século XIII e o século XIX, nada menos que um milhão de mulheres europeias, a maioria pobre e muitas delas viúvas, foram executadas sob acusação de feitiçaria, sendo responsabilizadas até pelo mau tempo que matava as plantações.

Os autores explicam que ao longo do século XX as condições de vida das mulheres melhoraram, no entanto, são enfáticos ao afirmar: “… ainda se paga preço econômico considerável por ser mulher.” Eles explicam que é mais difícil para um trangêneros que é homem e faz tratamento para virar mulher do que os trangêneros que fazem o caminho inverso, por meio deste exemplo:

Ben Barres, neurobiólogo de Stanford, nasceu Barbara Barres e se tornou homem em 1997, aos 42 anos. A neurobiologia, como a maioria das disciplinas matemáticas e científicas, tem grande população de homens. A decisão “foi uma surpresa para meus colegas e alunos”, observa ele, mas todos “têm sido ótimos a esse respeito”. De fato, a capacidade intelectual dele até parece ter aumentado. Um dia, depois de um seminário conduzido por Barres, um colega cientista virou-se para um amigo de Barres entre o público e saiu-se com o seguinte cumprimento canhestro: “O trabalho de Ben Barres é muito melhor que o da irmã dele.” Mas Barres não tem irmã; o comentário era depreciativo em relação ao eu feminino anterior de Barres.

“É muito mais difícil para os homens se converterem em mulher que para as mulheres se transformarem em homem”, admite Barres. O problema, diz ele, é a presunção de que os homens são mais competentes que as mulheres em determinada áreas – mormente em ciências e finanças.

Frente a todos os dados compilados e explicados ao longo do cápitulo sobre a história do sexo feminino no mundo eles chegam a triste conclusão:

Apesar de todo o avanço das mulheres no mercado de trabalho do Sec XXI, a trabalhadora típica estaria bem melhor se ao menos tivesse tido o bom senso de nascer homem.

Não, senhores, não são flores que queremos no dia das mulheres. Queremos ter nossos talentos reconhecidos igualmente.

E isso implica, inclusive, em reformular a forma como as empresas trabalham. O modelo de trabalho atual foi construído em cima dos homens e suas particularidades biológicas e sociais. É muito difícil jogar um jogo onde as regras foram escritas para as armas dos concorrentes.

Mulheres são seres humanos maravilhosos e que não desejam ter suas perculiridades homenageadas, o que elas precisam é suas peculiaridades sejam respeitadas.

Homem, troco um botão de rosas pelo seu respeito.

Ps.: Não vou contar aqui como o Dia Internacional da Mulher se constituiu históricamente, se tiver interesse no assunto pode ler algo aqui.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.