Esta é uma coletânea de seis contos do escocês Arthur Conan Doyle (1859 – 1930), que em especial, é uma das séries na qual não aparece seu protagonista literário mais famoso, o detetive Sherlock Holmes. Trata-se por sua vez, de um conjunto que muito aponta para as estruturas clássicas do conto de língua inglesa em seu tom mais peculiar e extraordinário: o mistério, o suspense e o terror.

Dr. Negro e outras histórias de terror, 2º ed. Porto Alegre. L&PM, 2010.

Do primeiro escrito destaco esta proposição:

O homem teme o fracasso quando corre o risco de pagar por ele, mas no caso não havia pena que a fortuna pudesse cobrar-me. Eu era um jogador de bolsos vazios, a quem ainda se permite arriscar a sorte com os outros.

Um tanto quanto filosófica, esta passagem aparece no conto “O caçador de besouros” que problematiza sua história entre a questão da demência, um mal-estar dos nervos, uma certa patologia psicológica frente a caracterização do habitus científico da medicina.

Em “A caixa de Charão” aparecem desde uma nacionalista referência como “Tudo é sólido, maçiço e severo, como convém ao coração de um grande país” denotando a clássica aparição de uma índole inglesa austera. A saber, neste conto, Shakespeare é chamado de “a flor da raça”. Bem como, uma passagem preenhe de intimismo e que alude a esse tempo de revoluções de um século e suas adaptações com o moderno “Você é jovem mais o mundo anda depressa”.

Neste conto, também há, uma presença reflexiva de um personagem, que faz pensar sobre a típica cultura dos excitantes “Quando eu era moço, meu amigo, muitos anos mais moço que o senhor, vi-me atirado ao mundo sem um amigo ou conselheiro com uma bolsa que atraia tão somente e em demasia falsos amigos e falsos conselheiros. Bebi desmesuradamente do vinho da vida – se é que existe um vivente que bebeu mais abundantemente do que eu, não o invejo. Minha bolsa sofreu, meu caráter sofreu, minha saúde sofreu, tornei-me escravo dos estimulantes, uma criatura ante a qual minha memória se encolhe horrorizada”. Nesta parábola o desfecho se volta para o fonógrafo, invenção criada em 1877 por Thomas Edison.

No capítulo seguinte, temos o texto que entitula o livro: Dr. Negro, ou seja, a leitura do inesperado. O escritor rapidamente trata de indicar um dos pontos de vista que irão reaparecer na sua trama, o médico faria parte de um certa “raça tropical” que o mesmo por alguma razão, que não fica clara, o aproxima dos “hindus”.

O decorrer da narativa entrevê um casamento que não acontece e uma ligação do personagem com a América Latina, algo em Buenos Aires na Argentina, num enredo de morte e de reaparecimento por conta de um irmão gêmeo do médico em questão, e uma supeita de assassinato sobre um sujeito que terminaria inocente. A discussão entre fato e crença é bem latente, ao passo que podemos apontar no texto que “a lembrança é tão penosa quanto a experiência”.

Agora o que de fato impressiona no desenrolar é o excerto a seguir “Ela fizera o possível para induzi-lo a uma atitude mais sensata, mas ele era extremamente obstinado quando se tratava de suas emoções e preconceitos” me parece um sinal tocante e sintomático de um discurso para análise mais aguda da teoria racial. Além do que, o personagem se justifica no contexto da sua aparente morte com a assertiva que desapareceria para “Liberar as pessoas do fardo da minha presença”. No final, o autor casa o médico e parece a história, ter um “happy end”.

No penúltimo capítulo, “A relíquia judaica”, também denominada durante o texto de “o racional”, Sir. Conan Doyle nos entrega a sugestão acerca da “grafologia”, da “teoria”, do “branco clarão das lâmpadas elétricas” enfim, é a expressão óbvia da reunião do cientificismo literário da dedução e seu propósito, que aparece nessa maquiavélica passagem “Mas o fim o justificava. O fim justificava tudo.”

No conto final, “a sala do pavor” aparece um dos desfechos mais improváveis. Citarei, caros leitores, uma das artimanhas da ficção, algo assim como que “ali estava um homem que ela não conhecia. O americano prático e severo desaparecera. Em seu lugar foi como se ela visse num relance um herói, um santo, um homem capaz de alçar-se a uma altura sobrehumana de virtude desinteressada”. Essa relação entre o inglês e o americano é marcante entre os contos, mas nesse é incrível como o mistério de repente instaurado nas páginas que antecedem o final do livro surpreende e se finda de tal maneira que a capa se desvenda e deságua o diálogo:

– Que tal? – perguntaram todos juntos.

– Péssimo! – respondeu ele – Péssimo! Vamos refilmar toda cena amanhã de manhã.

Pois então, tudo era cinema!

Sobre o autor: Camillo César Alvarenga

É poeta, já que a poesia é prova da hipocrisia do nosso silêncio.