Dostoiévski e a pena de morte

No livro O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, o personagem principal, o príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, conversa sobre os costumes franceses com um outro pernsagem.

O tema da pena de morte vem à tona e, então, é comentado que a guilhotina seria um meio quase que livre de sofrimento para o condenado, dada a velocidade com que a lâmina separa a cabeça do resto do corpo de sua vítima.

Antes de citar o trecho a que me refiro, cabe lembrar que o próprio autor, Dostoiévski, foi certa vez condenado à morte e sua pena foi suspensa minutos antes de ser executada, quando já estava tudo pronto para isso.

Portanto, ele sabe muito bem do que está falando.

Diz o príncipe Míchkin, então, como porta-voz do escritor:

Sabe de uma coisa? – secundou o príncipe com ardor. – Essa mesma observação que o senhor fez todo mundo faz, e a máquina, a guilhotina, foi inventada com esse fim. Mas naquela ocasião me ocorreu uma ideia: e se isso for ainda pior? O senhor acha isso engraçado, isso lhe parece um horro, e no entanto sob um certo tipo de imaginação até um pensamento como esse pode vir à cabeça. Reflita, por exemplo, se há tortura; neste caso há sofrimento e ferimentos, suplício físico e, portanto, tudo isso desvia do sofrimento moral, de tal forma que você só se atormenta com os ferimentos até a hora da morte. E todavia a dor principal, a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de uma hora, depois dentro de dez minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, neste instante – a alma irá voar do corpo, que você não vai mais ser uma pessoa, e que isso já é certeza; e o principal é essa certeza. Eis que você põe a cabeça debaixo da própria lâmina e a ouve deslizar sobre sua cabeça, pois esse quarto de segundo é o mais terrível de tudo. O senhor sabe que isso não é fantasia minha, que  muitas pessoas disseram isso? Eu acredito tanto nisso que lhe digo francamente qual é minha opinião. Matar por matar é um castigo desproporcionalmente maior que o próprio crime. A morte por sentença é desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Aquele que os bandidos matam, que é esfaqueado à noite, em um bosque, ou de um jeito qualquer, ainda espera sem falta que se salvará, até o último instante. Há exemplos de que uma pessoa está com a garganta cortada, mas ainda tem esperança, ou foge, ou pede ajuda. Mas, no caso de que estou falando, esssa última esperança, com a qual é dez vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza; aqui existe a sentença, e no fato de que, com certeza, não se vai fugir a ela, reside todo o terrível suplício, e mais forte do que esse suplício não existe nada no mundo. Traga um soldado, coloque-o diante de um canhão em uma batalha e atire nele, ele ainda vai continuar tendo esperança, mas leia para esse mesmo soldado uma sentença como certeza, e ele vai enlouquecer ou começar a chorar. Quem disse que a natureza humana é capaz de suportar isso sem enlouquecer? Para quê esse ultraje hediondo, desnecessário, inútil? Pode ser que exista um homem a quem leram uma sentença, deixaram que sofresse, e depois disseram: “Vai embora, foste perdoado”. Pois bem, esse homem talvez conseguisse contar. Até Cristo falou desse tormento e desse pavor. Não, não se pode fazer isso com o homem!

Sobre a condenação de Dostoiévski à morte, o editor esclarece em nota:

(…) Dostoiévski fala sobretudo de si mesmo e de outros integrantes do círculo de Pietrachevski, a quem foi comunicada a comutação da pena de morte só depois da leitura da sentença e da preparação dos mesmos para o fuzilamento. (…) Lendo os jornais o escritor provavelmente soube que a “execução” dos pietrachevskianos não fora um caso isolado.

Sobre Cristo, a nota do editor:

Tem-se em vista a cena de Jesus no jardim de Getsémani: “Então lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte… Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia não seja como eu quero, e, sim, como tu queres” (Mateus, capítulo 26, versículos 38 e 39)

O personagem e o autor, obviamente, eram humanistas, mas – como qualquer um que tenha visto cinco minutos de algum programa policial sabe – isso está fora de moda.




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