Aquele fim de tarde chegou iluminado pelo sol que alcançava João através da janela do seu quarto. Aquele parecia mais um dia interminável naquela cama, naquele hospital.

Os dois pássaros que alegravam as tardes do garoto ainda não tinham dado as caras. E João, sozinho naquele quarto frio e branco, imaginava-se como um pássaro, a tão sonhada liberdade enchia seu peito de esperanças, sua mente aquecia com estórias e mais estórias imaginadas com seus mais fantásticos personagens.

A vida daquele garoto, de 12 anos de idade, há mais de três anos restringe-se às paredes gélidas daquele imenso prédio triste. Ali, ele passou a viver, seus sonhos tomavam forma, e era ali que nascia a cada hora, a cada minuto, um novo João.

As dores suportadas e silenciadas por fortes analgésicos já não amedrontavam, o único sentido e valor que devia ser creditado estava na natureza, na família e naqueles inúmeros desconhecidos que faziam da vida de João um paraíso de amor, paz e liberdade.

Os corredores já não o assustavam mais, e seus habitantes também pareciam, como ele, esperar um milagre. Mas João passou a acreditar que o verdadeiro milagre da vida se faz sonhando e vivendo cada momento, cada palavra, cada gesto.

Tudo era imensamente grande diante dos olhos azuis de João, e seus cabelos pareciam lançar chamas amarelas quando ele tentava correr. Mesmo em sonhos, correr era um desafio.

Os dois pássaros chegaram, pousaram na janela, João sorriu, levantou vagarosamente da cama e ficou admirando o sol, as nuvens, os pássaros e a imensidão de prédios à sua frente. Era tudo aquilo que o fazia sentir-se vivo, cada vez mais vivo.

A cada dia, a cada momento renascia um novo João.

Crônica inspirada na leitura do livro Pulmão de Aço: uma vida no maior hospital do Brasil, de Eliana Zagui

Sobre o autor: Amilton Costa

Amilton Costa é Dentista, Mestre em Saúde da Família , autor dos livros De Boca Aberta: crônicas de vidas na cadeira odontológica, e 20 Dias.