Dois livros intermináveis ou um dos motivos pelos quais eu gosto de literatura

Às vezes acontecem esses livros intermináveis na minha vida de leitora. Classifico como livros intermináveis aqueles que demoro tanto para terminar que parece que os estou sempre lendo. Os motivos pelos quais demoro para terminá-los são muitos, mas em comum esses livros costumam ser extensos e exigir uma leitura mais densa.

  • Dois livros intermináveis

Esse é o caso de dois livros pelos quais meus olhos andam passeando recentemente. Um deles é o clássico Walden, do Henry David Thoreau, que comecei a ler em meados de 2011 e só fui terminar nos últimos dias de 2012. Um ano e meio para um livro de pouco mais de 300 páginas na sua edição bolso, há de se convir que é bastante tempo. Por este período fui e voltei na sua leitura várias vezes.
O livro é uma espécie de diário que o Thoreau manteve durante o período de sua vida em que ele viveu sozinho em uma pequena casa que construiu a beira do Lago Walden. O relato é recheado de trechos reflexivos, frases que exigem uma segunda, terceira, quarta, infinitas leituras, pela sua beleza e raciocínio.

O livro, publicado pela primeira vez em 1854, trata de temas muito atuais de tal forma que é difícil de acreditar que foi escrito há um século e meio. Por outro lado, existem trechos excessivamente descritivos, onde o lado naturalista de Thoreau aparece, e que desaceleraram incrivelmente a minha leitura.

Contudo, devo dizer que se configurou como um livro companhia, daqueles que a sua constante presença é tão ou mais importante do que conhecer todo o seu conteúdo, pois nos ajudam a refletir sobre a vida, o universo e tudo o mais.
O outro livro interminável é A Descoberta do Mundo da Clarice Lispector, que contem todas as crônicas da autora publicadas no Jornal do Brasil de 1967 a 1973.

O livro é lindo.

O que fez ser um dos intermináveis é que, primeiro, o livro é um tanto pesado para carregar na bolsa então acaba não ficando sempre a vista. Outro motivo é que, depois de ler seguidamente um terço das crônicas publicadas, tive uma overdose de Clarice e acabei enjoando temporariamente do livro.

Comecei a lê-lo em meados de 2009 e depois de uma leitura inicial animada, fiquei um tempo apenas lendo uma ou outra crônica de vez em quando. No começo de 2013 coloquei ele novamente nas minhas leituras, dessa vez sem pressa, lendo uma ou duas crônicas por dia. Talvez termine o livro este ano, ou talvez ele continue interminável.

 

Os intermináveis

Os intermináveis

 

  • A missão secreta de achar uma citação

Pelas minhas contas, este é o sétimo livro da Clarice Lispector que leio. Esse é um dado que ressalto porque demonstra que estou acostumada com a escrita da autora e gosto dela, então este não é o motivo da demora na leitura.

O outro motivo é bem mais prosaico. Em 2001 a minha Universidade estava em greve, e eu estava em uma cidade do interior de Goías sem biblioteca pública e sem livrarias. Não havia muito para ler por lá. Felizmente meus pais assinavam revistas, entre elas a Marie Claire. Naquele ano a revista publicou uma reportagem sobre felicidade. Não lembro exatamente da matéria, mas lembro que era bonita, cheia de coisas lindas, entre elas uma citação da Clarice. Anotei a citação e rapidamente decorei-a. Linda que era a coloquei em todos os lugares possíveis e a falava para todos e sempre quis saber de que livro ela havia sido tirada. De certa forma, li tantos livros dela para encontrar a citação.

Eu, sempre tão cética com relação à autoria de textos, nunca desconfiei que aquela frase pudesse não ser da Clarice. Até que em 2007 um amigo me disse com toda a convicção que está frase não era dela. Assim, simples e direto. Ele me deixou arrasada. Não pela frase, que continuava bela em sua sabedoria, mas pela sensação de nunca ter nem ao menos desconfiado da autoria da frase, acreditando piamente na jornalista de uma revista feminina.

Depois dessa conversa, mais do que nunca lia os livros dela guardando comigo a missão secreta de achar – ou não – aquela citação. Se fosse dela eu queria ter certeza. Se não fosse também.

  • Intertexto: o Kinder Ovo da literatura

Uma das coisas que torna a literatura tão especial para mim é o intertexto*. Um livro que fala de outro livro, que fala da história de um povo, que faz referência a um personagem histórico… quando identificamos essas referências no texto a leitura ganha outra dimensão. Indescritível é o prazer de achar uma dessas. É uma pequena felicidade. E o mais bacana é que quando mais lemos, vivemos, estudamos, mais conseguimos perceber este intertexto. Por isso não enjoamos de ler. Quanto mais lemos, mais cada livro se torna uma caixinha de surpresas em potencial.

 

Quando Lispector e Thoreou se encontram

Quando Lispector e Thoreou se encontram

 

  • Quando Lispector e Thoreou se encontram

Terminado Walden decidi que A Descoberta do Mundo seria o próximo interminável a ser terminado. E logo depois de voltar a lê-lo, chego a uma crônica chamada Aprendendo a Viver onde a Clarice fala justamente de Walden e as preciosas lições que aprendeu com ele. Encontrar esse texto logo após terminar o livro já foi um precioso presente, uma pequena alegria impossível de compartilhar. É o presente do intertexto somado ao acaso temporal.

E nesta crônica, justo nesta crônica que fala do livro que acabará de ler, encontro a citação tão procurada – sim, a citação era da Clarice.

“A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência de agoras é que você existe” (p. 160, Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo)

Linda, não?

E este é mais um dos motivos pelos quais eu gosto de literatura.

 

Nota:

* Achei essa definição de intertexto que explica bem o que ele é: “A intertextualidade  é uma espécie de conversa entre textos; esta interação pode aparecer explicitamente diante do leitor ou estar em uma camada subentendida, nos mais diferentes gêneros textuais. Para compreender a presença deste mecanismo em um texto, é necessário que a pessoa detenha uma experiência de mundo e um nível cultural significativos.

O intertexto só funciona quando o leitor é capaz de perceber a referência do autor a outras obras ou a fragmentos identificáveis de variados textos. Este recurso assume papéis distintos conforme a contextura na qual é inserido. A pressuposta cultura geral relacionada ao uso deste mecanismo literário deve, portanto, ser dividida entre autores e leitores.”

Fonte: InfoEscola

Referencias:

Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Thoreau, H. D. Walden. Porto Alegre: LP&M, 2010.




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