Fui doar sangue ontem e a moça que coletou a minha doação contou-me que aquele vídeo que se propagou pela internet no ano passado, em que um marmanjo se contorce ao ver a agulha entrar em seu braço prejudicou um pouco o volume de doações.
- Uma pessoa que nunca doou e vê aquilo perde a vontade – disse-me ela.
Eu mesmo, quando vi o vídeo, achei graça. Justamente por já saber que doar sangue não dói nada. É sempre divertido ver um sujeito grande tremer por nada.
O calibre da agulha pode impressionar, mas a picada é menos sensível que tomar injeção no ombro, dependendo do medicamento.
Meu pai contou-me, quando trabalhava para a saúde pública, que foi vacinar os seguranças de um shopping de Curitiba contra uma dessas doenças infecciosas que grassam por aí de vez em quando.
E o sujeito, vestido de agente Smith daquele jeito – terno preto, foninho no ouvido – e com dois metros de altura, perguntando baixinho:
- Vai doer?
E meu pai respondia daquele jeito bom dele: não, claro que não.
Lembre-se: quando vir um segurança mal-encarado, há ali uma criança morrendo de medo de agulha, querendo pedir ajuda para o primeiro senhor barbudo que aparecer.
Doar sangue é indolor. Não dá para chamar aquela espetadinha de dor, a não ser que você seja uma pessoa muito impressionada e delicada. Dor é bater com a cabeça na quina da porta. Dor é depilação, cólica, macetar o dedo com o martelo, levar canelada no futebol, torcer o pé. Isso é dor. Doar sangue não. Se tanto, é um incomodozinho: a nossa cabeça é estranha; tanto mais temos medo, mais nossos medos nos abocanham e tornam real o que é apenas imaginário.
Além disso, em alguns estados – aqui no Paraná, por exemplo – o doador de sangue tem direito à meia-entrada.
Creio que a doação de sangue deve ser um ato de altruísmo, mas sinceramente não entendo porque os bancos de sangue não divulgam melhor essa informação. Não considero tal publicidade anti-ética.
Minha carteirinha chega na semana que vem e eu vou pagar metade do ingresso nos cinemas sem ter que ser massa de manobra de grêmios estudantis.
Mais que isso: tenho a certeza de que ajudei alguém com algo que não tem preço.







