Disney Nature vai mostrar natureza com cheiro de pinho-sol

Vi neste fim de semana o trailer de Earth, do novo segmento cinematográfico da Disney, o Disney Nature.

Tive a impressão de que senti cheiro de pinho-sol enquanto o assistia. Definitivamente, aqueles bichos não fazem cocô. Cada vez mais concordo com George Carlin, que afirma que os ambientalistas de fim de semana querem apenas um habitat mais limpinho para seus Volvos.

O que mais me chamou a atenção no trailer do filme, documentário ou o que seja é o número de vezes em que aparece o termo nosso planeta. Crédito para meu amigo Nilzo Andrade, que fez essa observação.

Em algum momento, o locutor diz uma frase mais ou menos assim: “Venha conhecer as criaturas que compartilham o nosso planeta.”

Como se o planeta, enfim, também não fosse das criaturas.

De certo modo, não é. Do mesmo modo como também não é nosso.

Mais fácil que, ao contrário, nós pertençamos ao planeta.

Acho meio estranha essa necessidade constante de dizer que algo é nosso. A necessidade de se relacionar com as coisas através da posse me é cada vez mais esquisita, embora eu ainda a tenha como qualquer um de meus contemporâneos. Talvez o homem primitivo não pensasse em seu planeta, mas em o planeta. O mundo. Os pronomes possessivos devem ser uma invenção recente.

Por outro lado, sinto em algumas vertentes ecológicas o surgimento de novas religiões e novos fundamentalismos religiosos:

  • a promessa de uma salvação: antes era a salvação da alma imortal;  agora é a do planeta ou da espécie (que se julga eterna)
  • a religião pretende aproximar o homem de Deus; agora pretende-se aproximar o homem da natureza
  • culpa por coisas anteriores e que você não fez: antes era ter comido uma maçã; agora, a Revolução Industrial
  • culpa por coisas que você faz cotidianamente: antes era masturbar-se; agora, por não separar lixo orgânico do reciclável (em ambos os casos você pode ficar cego ou pegar tuberculose)
  • e, claro, fundamentalistas que hoje agem pelo constrangimento. Um pulo para agirem pela ameaça, pelo medo, pela fogueira

Mas essas vertentes são movidas não porque há o planeta. Mas o seu planeta. Da mesm forma, continuando a analogia com as religiões, não porque existem os deuses, mas os seus deuses. Definitivamente o ambiente natural é interpretado diferentemente entre um morador dos Estados Unidos, um do Brasil e um do Iraque e com diferentes interesses.

Você já percebeu um problema nisso, certo?

O homem se distanciou tanto da natureza que quase sempre que fala dela se coloca de fora, como se fosse ou seu guardião, a protegê-la, ou seu inimigo, a domá-la, ou o seu dono, a possuí-la.

Mesmo neste momento em que afirmo que somos bichos como quaisquer outros, esqueço que sou bicho. Quando ganhei a racionalidade, devo ter perdido a consciência junto com o rabo.

Essa é a nossa natureza. Esse é o nosso planeta.

A catequese já começou e, claro, ela estará nos cinemas.

Postado em Artes e design.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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