O livro tornou-se um objeto tão popular que a força de alguns de seus significados perderam-se pela saturação de sua presença.

Afinal, tudo o que se repete cotidianamente pode – eu disse: pode – perder os seus sentidos mais profundos.

Porém, esses sentidos não desaparecem. Só contrastam com a superfície.

Entre a coleção da Júlia, há esse interessantíssimo Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, do qual não encontrei uma edição brasileira atual.

Tomei a liberdade de reproduzir trechos do verbete acerca do Livro:

O livro é sobretudo, se passamos a um grau mais elevado, o símbolo do universo: O Universo é um imenso livro, escreve Mohiddin ibn-Arabi. A expressão Liber Mundi pertence também aos Rosa-Cruz. Mas o Livro da Vida, do Apocalipse está no centro do Paraíso, onde se identifica com a Árvore da Vida: as folhas da árvore, como os caracteres do livro, representam a totalidade dos seres, mas também a totalidade dos decretos divinos.

(…)

Se o universo é um livro, é que o livro é a Revelação e, portanto, por extensão, a manifestação. O Liber Mundi é ao mesmo tempo a Mensagem divina, o arquétipo do qual os diversos livros revelados não passam de especificações, traduções em linguagem inteligível. O esoterismo islâmico distingue às vezes entre um aspecto macrocósmico e um aspecto microcósmico do livro, e estabelece entre os dois uma lista de correspondências: o primeiro é efetivamente o Liber Mundi, a manifestação emanando de seu princípio, a Inteligência cósmica; o segundo está no coração, a Inteligência individual.

Faz lembrar de Biblioteca de Babel, de Borges (que, neste momento, só encontrei em espanhol):

El universo (que otros llaman la Biblioteca) se compone de un número indefinido, y tal vez infinito, de galerías hexagonales, con vastos pozos de ventilación en el medio, cercados por barandas bajísimas. Desde cualquier hexágono se ven los pisos inferiores y superiores: interminablemente.

No centro dessa biblioteca, que abarca todos os livros possíveis e na qual nenhum livro é igual ao outro, estaria um livro que corresponderia a Deus.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!