Fui a sete formaturas em cerca de dois anos (de diferentes cursos, diferentes faculdades, pública e privadas, “renomadas” ou não) e conto nos dedos das mãos o número de formandos negros – e isso juntando todas, não em cada uma. Como conto nos dedos os negros consumidores na praça de alimentação de qualquer shopping aqui de Curitiba. Já entre os funcionários de redes de fast food e de supermercados é bem mais fácil encontrar negros. É o famoso “teste do pescoço”, tão ou mais eficaz que qualquer estudo ou estatística.

Trago para esse Dia da Consciência Negra dois breves trechos de textos de estilos completamente diferentes. O primeiro é do livro “O Povo Brasileiro“, do Darcy Ribeiro:

“As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos dos antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era substituído facilmente por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis. Todos eles são tidos consensualmente como culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão.”

E o segundo é da música “A Vida é Desafio“, dos Racionais MC’s:

“tem que acreditar
desde cedo a mãe da gente fala assim:
‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor’

aí passado alguns anos eu pensei:
como fazer duas vezes melhor se você tá pelo menos cem vezes atrasado… pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo que aconteceu?
duas vezes melhor como?
ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez.

e sempre foi assim.
você vai escolher o que tiver mais perto de você,
o que tiver dentro da sua realidade.
você vai ser duas vezes melhor como?
quem inventou isso aí?
quem foi o pilantra que inventou isso aí?
acorda pra vida, rapaz.”

Querer negar o direito a um Dia da Consciência Negra – e não apenas o dia, mas tudo o que ele representa – sob o pretexto de “se eu usar uma camiseta 100% branco, sou chamado de racista” ou simplesmente “orgulho branco” ou “precisamos de um dia da consciência humana, não negra ou branca ou amarela ou vermelha” é negar a história e negar a exclusão do negro das esferas social, política, econômica, financeira, de consumo, de poder, de acesso a serviços públicos e privados.

As exclusões no Brasil são cada vez mais acompanhadas de um “agora tudo é racismo” (da mesma maneira que há o “agora qualquer coisa é homofobia” ou “esse pessoal do politicamente correto”) em que o “agora tudo” e o “agora qualquer coisa” ignoram (por conveniência) exclusões tácitas e inerentes ao nosso dia a dia.

Vejo que comumente compreende-se como ação clara de racismo se alguém falar “não vou te contratar por você ser negro” – o que quase nunca acontece -, mas se, por outro lado, isso ocorrer de maneira silenciosa e uma determinada empresa tiver entre os seus funcionários terceirizados de limpeza 50% de negros e entre os seus funcionários de diretoria apenas 5% de negros, há nada de racismo. Mesmo quando grupos de extermínio de caráter racial assassinam negros, algumas pessoas recorrem a “não importa se é negro ou branco, importa é que alguém foi assassinado”.

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A verdade é que é muito complicado debater racismo (e o que é mais importante e ainda mais complexo: debater como acabar com ele) quando muitas pessoas dizem que “o racismo só existe por falarmos sobre ele” e que “é só pararmos de falar em racismo que ele acaba”. Esse tipo de discurso, que apareceu até mesmo em um post da página da OAB/SE no Facebook (e logo no Dia da Consciência Negra), não raro traz o vídeo do Morgan Freeman falando sobre o tema. Vídeo por vídeo, há o vídeo do Neil deGrasse Tyson, sobre expectativas, condições e oportunidades.

10577116_440226822786480_179846941450104579_n[1]É quase impossível debater sobre racismo quando tantas pessoas buscam relativizar o fato de chamar um negro de macaco, dizendo que “é coisa do futebol”, como se fosse somente isso. Afinal de contas, hoje “qualquer coisa é racismo”. As mesmas pessoas que dizem que é normal isso acontecer num estádio de futebol, afirmam que cotas para negros (em faculdades, concursos, etc) são a maior prova de racismo. Sim, chamar uma pessoa por algo que remete ao estágio anterior do homem é normal, inaceitável é “tirar” (e muito bem posto entre aspas) uma vaga de outra pessoa – que teve, em geral, melhores condições e oportunidades de estudo. Nada mais conveniente que afirmar que o que cria o racismo são políticas públicas e debates que diferenciem as pessoas pela cor da sua pele, quando é justamente a segregação diária (e mais que secular) que o faz.

Uma breve comparação dos salários ou das chances de ser preso ou assassinado antes dos 30 nos dá a dimensão exata de como opera o nosso racismo. Racismo velado que determina pela cor de pele os que são sujeitos ativos e os que são apenas sujeitos passivos do processo político-decisório, racismo que tenta naturalizar o fato de que a cor da pele determine quem tenha mais espaço enquanto cidadão e enquanto ser humano, racismo que sempre se impõe, mas que quase nunca se expõe. Racismo que desaparecerá se pararmos de falar sobre ele; como não pensamos nisso antes?

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.