Drummond é um daqueles amores antigos que sentam na sala e ficam olhando mansamente, em silêncio, por horas. Não precisa de muito mais para ser entendido. Os anos trazem a cumplicidade e o silêncio é um carinho àqueles ouvidos cansados de tanta gritaria. Chega, compartilha um momento, e vai embora, sem nada mais pedir e muito deixando.

São dias de prosa.

Drummond também tem seus dias de extravasar, de gargantas explosivas, usando todas as escalas para dar vazão a emoção das palavras.

São dias de poesia.

Drummond tem dias de assassino, nos matando de beleza a cada frase, cada palavra bem usada, a cada pedaço de nós que reconhecemos no poema.

Drummond é um metódico, um burocrático, que defendeu a anarquia das palavras e as libertou. Afinal, “As palavras não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem no céu, por vezes um desenho. São puras, largas, autênticas indevassáveis.”

Drummond, se foi herói, foi também mártir, lutando com as palavras a sua luta mais vã. Sendo debochado por as usar de forma inusitada para cantar uma pedra que aconteceu na vida de suas tão fatigadas retinas. Com sua disciplina de diligente funcionário público guardou uma a uma as criticas recebidas pelo poema e as publicou compiladas, tempos depois, em um livro. Talvez o primeiro caso de um poema com biografia.

Ah, Drummond, tanto tempo depois e nós continuamos sem saber para onde José marcha, mas o vemos atravessar nossos dias com o garbo dos grandes e a simplicidade dos mineiros.

Drummond é um daqueles amores antigos, que as vezes arrebenta em paixão para depois voltar a calmaria, e que serve como guia, como um horizonte, como um porto seguro para aqueles que se arriscam a navegar histórias.

Ps.: Texto escrito no dia 31 de outubro, quando comemora-se o aniversário de Drummond, em Belo Horizonte, capital do estado que ele sempre tão bem representou.

Ps.2: Quem quiser saber mais sobre o Dia D

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.