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Desentendimentos na internet e ética

9 de junho de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 21 Comentários »

Os desentendimentos e brigas na internet acontecem em última análise porque é mais difícil ver um outro ser humano do outro lado daquelas palavras e imagens que se enxerga na tela.

O artigo sobre bom senso na internet, do Escrita Torta, não é o primeiro a tocar nesse assunto mas moveu-me a falar sobre isso.

Ele observa que, na vida real, os conflitos são menos freqüentes – embora eu considere que já sejam em número acima do esperado. E, de fato, tem razão. Assim é.

Esse é tão somente um fenômeno de natureza ética segundo o que aprendi do livro Ética Para Meu Filho, de Fernando Savater. A ética depende de – entre outras coisas – liberdade e da capacidade de se colocar no lugar do outro.

Sobre a capacidade de se colocar no lugar do outro:

O pêssego nasce pêssego, o leopardo já vem ao mundo como leopardo, mas o homem não nasce já totalmente homem, e nunca chega a sê-lo sem a ajuda dos outros (…) . Por isso, falar com alguém e escutá-lo é tratá-lo como pessoa, pelo menos começar a lhe dar um tratamento humano (…). Para que os outros possam fazer-me humano, tenho de os fazer humanos; se para mim todas as pessoas são como coisas e animais, também eu não serei mais do que uma coisa ou um animal.

Imagine um troglodita que encontra outro troglodita. Para ele, por ser pouco evoluído, é mais difícil ver no outro um semelhante e, portanto, torna-se mais fácil esmagar o crânio de seu visitante com o tacape ou, pelo menos, dirigir-lhe alguns grunhidos pouco amistosos.

Hoje chegamos a um ponto da evolução que nos impede de causar traumatismos cranianos indiscriminados. Vemos mais facilmente no outro um semelhante. Nem sempre isso é verdade, é claro. Vide nacionalismos, regimes de exceção étnica e afins, esforçando-se por tirar o que há de humano daqueles que se deseja excluir.

No entanto, o comportamento que há na internet só demonstra que a nossa inteligência não chegou a uma altura em que seja possível reconhecer o humano que há por trás de palavras e imagens.

Se alguém discorda de mim face a face, dificilmente partirá para uma troca de socos. Mas isso pode mudar se essa mesma pessoa discorda de algo que encontrou na internet. A relação humana parece se esvanecer.

Talvez o internauta-troglodita que habita em cada um de nós, por isso, sinta-se à vontade para brandir seu tacape e rosnar o quanto pode. Seja no Orkut, seja em grupos de discussões ou mesmo em blogs.

Fala-se na criação de um código de ética para blogs. Não creio na eficiência disso – embora considere louvável o esforço -, pois a verdadeira ética não está nos códigos. Vejamos o que diz Savater a seu filho:

Toda lei escrita não é mais do que uma abreviatura, uma simplificação – freqüentemente imperfeita – do que seu semelhante pode esperar concretamente de você, não do Estado ou de seus juízes. A vida é complexa e sutil demais, as pessoas são diferentes demais, freqüentemente íntimas demais, para que tudo caiba nos livros de jurisprudência. Assim como ninguém pode ser livre por você, ninguém poderá ser justo por você, se você não se der conta de que deve sê-lo para viver bem.

A solução para os desentendimentos na internet não está em um código. Está em algo mais complexo e lento de realizar: o desenvolvimento natural da humanidade.

No futuro, os humanos – se essa espécie ainda não tiver exterminado a si mesma -, olharão para nós, seus antepassados, e rirão de como éramos estúpidos com nossos tacapes.

Mas um bom passo para começar a resolver o problema talvez seja parar de chamar os relacionamentos através da internet de virtuais. Eles não são virtuais. São reais. Com pessoas reais. Com humanos reais e com toda a realeza que humanos reais devem ser tratados. Reais.

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21 Comentários para “Desentendimentos na internet e ética”

  1. Norberto Kawakami - 9 6 2007 às 16:20

    Agora ficou bem mais claro sobre ser possível se colocar na posição do outro. Talvez o que falte mesmo seja a humanização na internet. Ficamos olhando para um computador, interagindo com o teclado e mouse, mas na verdade são pessoas que estão por ali.

    Eu sou avesso a uma ética de blogs em geral, principalmente pelo motivo que você mesmo citou.
    Sou a favor, isto sim, de explicitar quais comportamentos são inadimissíveis dentro do meu domínio, ou seja, dos meus blogs. É como educar uma criança…

  2. Alessandro Martins - 9 6 2007 às 17:29

    Bem, usando o texto do Savater foi moleza, Norberto… depois que deixei o comentário no seu blog constatei, de fato, que eu não tinha sido claro, de fato. Como você, acredito que a ética – e todas as coisas boas que dela vêm – se ensine muito mais com as ações propriamente ditas do que com palavras que, mas das vezes, ficam no papel mesmo… Abraços!

  3. k - 9 6 2007 às 18:22

    ai ai ai. já pensei muito sobre isso. e acabei saindo do orkut, desinstalei o msn e fechei meu blog. há anos, antes dessa coisa de orkut e tal, li uma coisa interessante de uma psicóloga. ela usou os chats como exemplo e dizia que ali era uma oportunidade pra que as pessoas pudessem exercitar coisas que não poderiam exercitar no dia-a-dia. ou seja, se vc tinha desejo de ser de outro jeito, de falar sobre certos assuntos ou até de assumir algum tipo de atitude que não assume normalmente, ali seria um ótimo jeito de exercitar tudo isso. no entanto, as salas de chats eram, ainda de acordo com o que eu li, um campo de amplificação de preconceitos, falta de educação e verdadeiros campos de batalha.

    acho isso triste. a net é uma coisa excelente pra gente poder saber o que pensa um cara do outro lado do mundo que, se não fosse pela internet, eu jamais conheceria. acho isso enriquecedor. mas esses encontros são raros.

    na vida dita real, a gente limita muito nossos relacionamentos e acaba selecionando com quem a gente anda. isso tem seu lado negativo e tem o positivo também. o que eu experimentei no pouco tempo de exposição no orkut (eu tinha um perfil discreto, sem foto, fui colocar foto no início do ano e, acredite, a experiência foi um desastre. ) e no blog é que a gente pode ser surpreendida tanto por coisas boas como pelas ruins. conheci muita gente com quem mantenho contato até hoje. mas tive contato com pessoas que, em vez de discutirem ou de ignorarem qualquer coisa que eu tenha dito, fizeram questão de azucrinar minha vida. e vc não tem idéia, as coisas saíram do “virtual” e vieram pro real de um jeito sujo, mesquinho e que não acrescentaria na vida de ninguém.

    eu sou a favor de liberdade (tanto é que sempre deixei os comentários do meu blog sem moderação até que uma pessoa louca começou a me stalkar). inclusive se a gente topar com vários tipos de pessoas na net. acho que o buraco é mais embaixo. é exatamente o de saber que há uma pessoa “do outro lado”, que tem uma vida, que tem sentimentos e que nem sempre vive só pra net. por que é tão difícil respeitar ou tolerar ou até ignorar o que o outro escreve? afinal, ninguém força ninguém a ler blog algum!

    ainda acredito que todos os problemas que surgem da vida em sociedade têm início qdo uns não se colocam no lugar dos outros… acho que é por aí… ou seja, não é um problema exclusivo da net.

    desculpa pelo tamanho. baci.

  4. Alexandre Kovacs - 9 6 2007 às 22:01

    O tema é muito oportuno e acho que a “k” colocou as coisas de forma bem clara e completa.

    No meu entender, acho que a maior parte das pessoas tende a utilizar o anonimato na Internet para criar falsos personagens. É uma pena, pois perde-se assim uma grande oportunidade de ser verdadeiro, o que nem sempre podemos na “vida real”.

  5. Lika - 10 6 2007 às 11:35

    Acho a discussão deste post muito válida, Alessandro. Afinal existe algum limite nesse sentido? Vejo algumas pessoas extrapolarem a fronteira da civilizadade com outras que se sequer conhecem e isso é preocupante. Quanto ao orkut, é um território mais-que-prefeito para a dança das máscaras e da confusão por motivos análogos ao que eu mencionei anteriormente. Claro que há exceções. Abração!

  6. Lika - 10 6 2007 às 18:07

    ops, quis dizer civilidade e sequer se conhecem. ;P

  7. k - 10 6 2007 às 18:45

    sabe, alexandre (e todo mundo daqui), eu até acho ok as pessoas criarem personagens de si mesmas. não seria tbem experiência de certa forma? não vejo nada contra. o que me incomoda é ver gente que faz questão de azucrinar a vida dos outros em vez de , por exemplo (usando meu caso como exemplo) ir estudar mais português ou ler um livro.

  8. _Maga - 11 6 2007 às 1:46

    Olá Alessandro!

    Bom lê-lo novamente. Gostei muito do texto. Sempre penso nisso em todas as minhas relações e, acredite, a internet me ajudou a descobrir melhor o ser humano e a tornar minha linguagem mais clara, para evitar confusões desnecessárias. Ou seja: com a experiencia adquirida nos meus relacionamentos “virtuais” melhorei não apenas a minha forma de me relacionar por meios eletronicos mas, também, face a face.

    Mas devo admitir que nesta area da empatia nada me ajudou mais do que a psicologia, e minhas mais de 1000 horas como estágiaria de projetos em habilidades sociais rs (tá, eu sei, devia ter feito um projeto em português também, pra aprender a escrever melhor e não misturar tantas ideias juntas… um dia ainda aprendo isso… rs).

    A psicologia (e a analise do comportamento em especial) mudou toda a minha perspectiva de encarar o ser humano, e isso é um presente muito, muito grande.

    ——-

    Sobre códigos de conduta eu acredito que eles tem sua validade sim. Não como uma lei rigida, mas como forma de apontar quais caminhos seguir. Pode ser que alguem que esteja agindo de forma agressiva não sabia que está fazendo aqui, ou ache bacana agir desta forma. Se nós queremos que alguem mude sua forma de agir devemos criar condiçoes para tanto. Como disse o trecho que você citou: “mas o homem não nasce já totalmente homem, e nunca chega a sê-lo sem a ajuda dos outros” ninguem nasce um rei da educação. Aprende-se a ser educado (e desaprende-se também).

    Acho que era isso…

    beijos

  9. Alessandro Martins - 11 6 2007 às 13:53

    Oi, K… se você tem um blog porque não preenche o campo com a URL? Assim você ganha um link… abraços!

  10. Alessandro Martins - 11 6 2007 às 13:55

    O problema Alexandre é que algumas pessoas, aí sim, estão sendo verdadeiras… abraços!

  11. Alessandro Martins - 11 6 2007 às 14:00

    O Orkut é perfeito para quem quer apavorar, Lika… nada como os fakes… por isso meu perfil não tem nada escrito. Quem me conhece me conhece, oras… Beijos!

  12. Alessandro Martins - 11 6 2007 às 14:03

    Esse é uma das questões para quem escreve na internet, Maga. Como preencher os espaços que poderiam render desentendimentos e ser o mais claro possível… quantos emails bem intencionados já não foram mal interpretados nesse mundão de google? Beijos!

  13. k - 11 6 2007 às 16:53

    eu tirei tudo do ar. ele ainda existe, mas salvei todos os posts como rascunhos e apaguei a luz. não tenho talento pra isso…

  14. Janaína Calaça - 11 6 2007 às 18:47

    Li o texto todo Alessandro e os comentários feitos também sobre o assunto. Eu aprendi tanta coisa sobre ética no mundo virtual e fora dele, que não aprenderia em manuais sobre o assunto, porque só temos idéia das relações quando vivenciamos as experiências.
    Conheci pessoas através da net, através do meu blog, a Lika inclusiva entrou na minha vida assim. Ela era leitora do Selva e acompanhava meus textos no Brutti. Começamos a trocar e-mails, depois a nos falar pelo msn e hoje, depois que me mudei para Sampa, nos tornamos grandes amigas, daquelas que trabalham juntas, que sentam para dividir problemas ou para tomar sorvete depois do almoço.
    Conheci outras pessoas com quem mantive correspondências ou por e-mails ou por cartas, com quem fiz parcerias, enfim, estabeleci vários laços pelo Brasil afora, mas também tive experiências das mais toscas possíveis e desagradáveis. Já recebi e-mails de gente me xingando porque não concordava com o que eu escrevia nos contos, já recebi e-mails mandando eu me matar, enfim, coisas legais né? Fora aqueles comentários agressivos e sem nenhum nexo, que se alimentados, pronto… a merda tá feita.
    Minha caixa de comentários está aberta, meu e-mail está lá no Casa de Burlesco, meu msn, enfim tudo. Quer se comunicar? Beleza. Eu sou do tipo que prioriza o diálogo, mas me fecho à baixaria. Como a K mesmo disse, todos têm direito de escolha em ler ou não o conteúdo de determinado blog. Se discorda, há dois caminhos: abrir uma discussão sobre o tema, mas uma discussão para ampliar as perspectivas e não para tentar impôr uma a outra ou simplesmente ignorar.
    Estou sentindo, no entanto, que há muita arrogância espalhada por aí, muita falta de respeito à diferença e principalmente ao outro. Vejo muita gente levantando verdades e se fechando ao diálogo e apontando a diferença como algo a ser negado. Não sei em que tudo isso vai dar, mas me traz uma sensação de desolamento das grandes. Tem gente que adora falar em evolução, como se o simples passar do tempo indicasse isso, mas para mim intolerância e agressividade gratuita só me trazem a sensação de constante retrocesso.

    Beijos, querido.

    Jana

  15. k - 11 6 2007 às 20:20

    concordo com tudo, viu, janaína… fico triste. engraçado que eu estou numa fase em que quero aprender cada vez mais, quero saber o que o outro está pensando (por isso ando por aqui, por exemplo), quero que me indiquem coisas, quero idéias… mas consegui só baixaria, que veio pra vida real da pior forma possível. só pra vcs terem uma idéia, eu saí da vida virtual há mais de meses. e, há duas semanas, ainda recebi telefonemas insistentes aqui em casa. ou seja, isso acrescenta algo a alguém? quem tem tempo pra jogar fora que continue no joguinho. eu quero coisas que me façam pensar, que me levem pra frente.

    abraços.

  16. Janaína Calaça - 11 6 2007 às 22:11

    K, eu já tive vontade de dar um tempo, sabe? Já tive vontade de sair do Orkut uma vez, de moderar comentários no blog, ou seja, de me proteger por uns tempos dessa onda gratuita de agressividade, mas aí voltei atrás apenas por saber que não adiantaria me ausentar deste mundo, já que ele reflete o mundo em que vivo. A net dá uma proteção para as pessoas no sentido de falarem o que querem e não responderem por isso, o que nas ruas, nos locais públicos a coisa já se complica. Por exemplo, são incontáveis as comunidades homofóbicas, racistas, anti-semitas e daí por diante. A galera se veste com a armadura dos fakes e falam o que querem, agridem quem querem e quem não estiver legal pode desabar feio. Há dias que você está com a cabeça boa, mas há dias que os problemas pipocam e ser agredido gratuitamente é foda. Eu estou pensando até em escrever um post sobre o assunto, porque é algo que está me incomodando e o Alessandro trouxe este texto, que me fez ter mais vontade ainda de falar sobre isso.
    K, valeu pela visita ao Casa de Burlesco e Alessandro, minha parada aqui é obrigatória. :D

    Beijos!

    Jana.

  1. [...] violenta, porque passa por cima da subjetividade dos indivíduos. Estava acompanhando o post “Desentendimentos na internet e ética” do Alessandro Martins, em que o autor fala da crescente onda de agressões no meio virtual e [...]

  2. [...] Eu falo mais sobre isso no texto Desentendimentos na Internet e Ética. [...]

  3. [...] depois do BlogCamp, e aqui caio no lugar comum, noto que o mais importante são as pessoas. Como o Alessandro Martins disse um dia: não existe o mundo virtual. Só o [...]

  4. [...] já havia falado sobre algo semelhante por aqui em um artigo não sobre lei, mas sobre os desentendimentos na internet, citando Fernando Savater: Toda lei escrita não é mais do que uma abreviatura, uma [...]

  5. [...] ninguém poderá ser justo por você, se você não se der conta de que deve sê-lo para viver bem.Leia o artigo completo sobre o livro Ética Para Meu Filho, de Fernando [...]

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