Desentendimentos na internet e ética

(publicado originalmente em 9 de junho de 2007)

Os desentendimentos e brigas na internet acontecem em última análise porque é mais difícil ver um outro ser humano do outro lado daquelas palavras e imagens que se enxerga na tela.

O artigo sobre bom senso na internet, do Escrita Torta, não é o primeiro a tocar nesse assunto mas moveu-me a falar sobre isso.

Ele observa que, na vida real, os conflitos são menos freqüentes – embora eu considere que já sejam em número acima do esperado. E, de fato, tem razão. Assim é.

Esse é tão somente um fenômeno de natureza ética segundo o que aprendi do livro Ética Para Meu Filho, de Fernando Savater. A ética depende de – entre outras coisas – liberdade e da capacidade de se colocar no lugar do outro.

Sobre a capacidade de se colocar no lugar do outro:

O pêssego nasce pêssego, o leopardo já vem ao mundo como leopardo, mas o homem não nasce já totalmente homem, e nunca chega a sê-lo sem a ajuda dos outros (…) . Por isso, falar com alguém e escutá-lo é tratá-lo como pessoa, pelo menos começar a lhe dar um tratamento humano (…). Para que os outros possam fazer-me humano, tenho de os fazer humanos; se para mim todas as pessoas são como coisas e animais, também eu não serei mais do que uma coisa ou um animal.

Imagine um troglodita que encontra outro troglodita. Para ele, por ser pouco evoluído, é mais difícil ver no outro um semelhante e, portanto, torna-se mais fácil esmagar o crânio de seu visitante com o tacape ou, pelo menos, dirigir-lhe alguns grunhidos pouco amistosos.

Hoje chegamos a um ponto da evolução que nos impede de causar traumatismos cranianos indiscriminados. Vemos mais facilmente no outro um semelhante. Nem sempre isso é verdade, é claro. Vide nacionalismos, xenofobias, regimes de exceção étnica e afins, esforçando-se por tirar o que há de humano daqueles que se deseja excluir.

No entanto, o comportamento que há na internet só demonstra que a nossa inteligência não chegou a uma altura em que seja possível reconhecer o humano que há por trás de palavras e imagens.

Se alguém discorda de mim face a face, dificilmente partirá para uma troca de socos. Mas isso pode mudar se essa mesma pessoa discorda de algo que encontrou na internet. A relação humana parece se esvanecer.

Talvez o internauta-troglodita que habita em cada um de nós, por isso, sinta-se à vontade para brandir seu tacape e rosnar o quanto pode. Seja no Orkut, seja em grupos de discussões, seja no Twitter ou em blogs.

Fala-se na criação de um código de ética para blogs. Não creio na eficiência disso – embora considere louvável o esforço -, pois a verdadeira ética não está nos códigos. Vejamos o que diz Savater a seu filho:

Toda lei escrita não é mais do que uma abreviatura, uma simplificação – freqüentemente imperfeita – do que seu semelhante pode esperar concretamente de você, não do Estado ou de seus juízes. A vida é complexa e sutil demais, as pessoas são diferentes demais, freqüentemente íntimas demais, para que tudo caiba nos livros de jurisprudência. Assim como ninguém pode ser livre por você, ninguém poderá ser justo por você, se você não se der conta de que deve sê-lo para viver bem.

A solução para os desentendimentos na internet não está em um código. Está em algo mais complexo e lento de realizar: o desenvolvimento natural da humanidade.

No futuro, os humanos – se essa espécie ainda não tiver exterminado a si mesma -, olharão para nós, seus antepassados, e rirão de como éramos estúpidos com nossos tacapes.

Mas um bom passo para começar a resolver o problema talvez seja parar de chamar os relacionamentos através da internet de virtuais. Eles não são virtuais. São reais. Com pessoas reais. Com humanos reais e com toda a realeza que humanos reais devem ser tratados. Reais.

Postado em Minhas leituras.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário