Depoimento do homem que matou Euclides da Cunha
14/01/2009Tenho comigo um livrinho difícil de achar por aí – não digo que só eu o tenha – chamado Reportagens Que Abalaram o Brasil, lançado em 73 pelas Edições Bloch, e que traz 14 matérias importantes escritas por diversos jornalistas, como Otto Lara Rezende, Samuel Wainer, David Nasser e Joel Silveira.
A reportagem que abre o volume é “Euclides da Cunha Não Foi Assassinado”, feita por Francisco de Assis Barbosa.
O autor de Os Sertões foi morto no dia 15 de agosto de 1909 por tiros do amante de sua mulher, o militar Dilermando de Assis (que mais tarde acabara matando o filho de Euclides, que buscava vingança). A reportagem saiu em 1941 e Dilermando já era coronel do Exército.
A matéria é longa e toma quase 40 páginas do livro, mas publico aqui os pontos principais, que o próprio repórter Francisco de Assis Barbosa cuidou de apontar logo nos primeiros momentos do texto:
Em resumo, o Coronel Dilermando de Assis declarou-me:
- Não era parante nem amigo de Euclides;
- Euclides nunca foi seu protetor e jamais custeou sua educação;
- Só veio a conhecer Euclides em 1905
- Não morou, em tempo algum, sob o mesmo teto que Euclides;
- Segundo o pai de Euclides, este deixava muito a desejar como chefe de família;
- A esposa de Euclides foi vítima do temperamento anormal do marido;
- A Sra. Euclides da Cunha, de acordo com o testemunho de pessoa da intimidade do casal, em 1894, fora sempre esposa e mãe exemplar
- Euclides menosprezava o tratamento carinhoso da esposa;
- Assim, a Euclides da Cunha não teria faltado o amor da companheira, se ele o quisesse;
- A incompatibilidade do casal Euclides da Cunha teve início no ano do casamento, isto é, em 1890;
- Não foi, portanto, o causador da infelicidade conjugal do escrito;
- Também não foi, em absoluto, um sedutor;
- Já em 1905 Euclides tivera pleno conhecimento do fato que, quatro anos depois, veio a aparecer como tendo motivado sua atitude
- Euclides, durante longo tempo, tolerou a conduta da esposa;
- Por isso Euclides reagiu, tardiamente, aliás, por outras circunstâncias e não por questões de honra;
- Pouco antes da tragédia, Euclides se considerava um “caso perdido”, pois estava irremediavelmente enfermo;
- Euclides só pensou em matá-lo quando a esposa abandonou o lar, em vista do marido recusar o seu pedido de separação legal pelo desquite;
- O relatório do delegado Oliveira Alcântara é um documento eivado de calúnias;
- Dinorah de Assis, falsamente apontado como cúmplice na tragédia da Piedade, ficou inutilizado pelo resto da vida, em consequência do ferimento que então recebera de Euclides da Cunha;
- Que agiu em legítima defesa, própria e de terceiros
- Que só depois de agredido e ferido é que pensou em matar Euclides da Cunha;
- Que, finalmente, Euclides da Cunha não foi “assassinado”.
A reportagem continua a partir daí, destrinchando cada um desses pontos.
Enfim, crimes de amor sempre serão difíceis de julgar, sempre serão julgados e poucos são capazes de julgá-los com isenção, principalmente os envolvidos.
Julguemo-nos, pois.





2 comentários
Conheçam o site http://www.iltc.br, em que se apresenta o projeto “100 Anos Sem Euclides”, da UFRJ e da UERJ, para marcar o centenário de desaparecimento do grande escritor fluminense, Euclides da Cunha.
Atenciosamente,
Prof.a Anabelle Loivos (Faculdade de Educação da UFRJ).
Sou estudante do curso de direito e esse semestre teremos como trabalho de conclusão de semestre o caso ” A Tragédia da Piedade” e estou em busca de maiores informações, achei muito interessante a matéria acima e gostaria de saber como posso conseguir na integra o livro citado Reportagens Que Abalaram o Brasil.
Aguardo breve e positivo retorno
Obrigada