Tenho comigo um livrinho difícil de achar por aí – não digo que só eu o tenha – chamado Reportagens Que Abalaram o Brasil, lançado em 73 pelas Edições Bloch, e que traz 14 matérias importantes escritas por diversos jornalistas, como Otto Lara Rezende, Samuel Wainer, David Nasser e Joel Silveira.

A reportagem que abre o volume é “Euclides da Cunha Não Foi Assassinado”, feita por Francisco de Assis Barbosa.

O autor de Os Sertões foi morto no dia 15 de agosto de 1909 por tiros do amante de sua mulher, o militar Dilermando de Assis (que mais tarde acabara matando o filho de Euclides, que buscava vingança). A reportagem saiu em 1941 e Dilermando já era coronel do Exército.

A matéria é longa e toma quase 40 páginas do livro, mas publico aqui os pontos principais, que o próprio repórter Francisco de Assis Barbosa cuidou de apontar logo nos primeiros momentos do texto:

Em resumo, o Coronel Dilermando de Assis declarou-me:

  1. Não era parante nem amigo de Euclides;
  2. Euclides nunca foi seu protetor e jamais custeou sua educação;
  3. Só veio a conhecer Euclides em 1905
  4. Não morou, em tempo algum, sob o mesmo teto que Euclides;
  5. Segundo o pai de Euclides, este deixava muito a desejar como chefe de família;
  6. A esposa de Euclides foi vítima do temperamento anormal do marido;
  7. A Sra. Euclides da Cunha, de acordo com o testemunho de pessoa da intimidade do casal, em 1894, fora sempre esposa e mãe exemplar
  8. Euclides menosprezava o tratamento carinhoso da esposa;
  9. Assim, a Euclides da Cunha não teria faltado o amor da companheira, se ele o quisesse;
  10. A incompatibilidade do casal Euclides da Cunha teve início no ano do casamento, isto é, em 1890;
  11. Não foi, portanto, o causador da infelicidade conjugal do escrito;
  12. Também não foi, em absoluto, um sedutor;
  13. Já em 1905 Euclides tivera pleno conhecimento do fato que, quatro anos depois, veio a aparecer como tendo motivado sua atitude
  14. Euclides, durante longo tempo, tolerou a conduta da esposa;
  15. Por isso Euclides reagiu, tardiamente, aliás, por outras circunstâncias e não por questões de honra;
  16. Pouco antes da tragédia, Euclides se considerava um “caso perdido”, pois estava irremediavelmente enfermo;
  17. Euclides só pensou em matá-lo quando a esposa abandonou o lar, em vista do marido recusar o seu pedido de separação legal pelo desquite;
  18. O relatório do delegado Oliveira Alcântara é um documento eivado de calúnias;
  19. Dinorah de Assis, falsamente apontado como cúmplice na tragédia da Piedade, ficou inutilizado pelo resto da vida, em consequência do ferimento que então recebera de Euclides da Cunha;
  20. Que agiu em legítima defesa, própria e de terceiros
  21. Que só depois de agredido e ferido é que pensou em matar Euclides da Cunha;
  22. Que, finalmente, Euclides da Cunha não foi “assassinado”.

A reportagem continua a partir daí, destrinchando cada um desses pontos.

Enfim, crimes de amor sempre serão difíceis de julgar, sempre serão julgados e poucos são capazes de julgá-los com isenção, principalmente os envolvidos.

Julguemo-nos, pois.

Posts relacionados