Fiquei chocado ao descobrir que meu irmão, apenas oito anos mais novo do que eu, nunca havia ouvido falar de Constantino. É uma pena que a História esteja se perdendo para as gerações mais recentes, e me sinto na obrigação de fazer o possível para não deixar feitos memoráveis caírem no esquecimento. Posso dispor apenas de meus textos nessa luta: é pouco, mas já me garante a consciência livre da sensação de não ter feito o que estava a meu alcance.

Bom esclarecer, o Constantino a que me refiro não é o aborrecido imperador romano, de importância duvidosa. Não, presto honras aqui a figura muito mais notável: chamemo-lo simplesmente, a partir daqui, de Tinão, por muitos anos folclórico morador do condomínio Morada do Sol. A figuraça tinha como características mais marcantes a virulência verbal, as súbitas mudanças de temperamento, a notável capacidade de ingestão etílica, o fervor pela Sociedade Esportiva Palmeiras e a muito particular defesa da fauna e flora – que ele tomava como particulares, mantendo viveiros, gaiolas e pomares em espaços exíguos como a graminha atrás do prédio e a garagem do bloco D. Seguem alguns dos lendários episódios por ele protagonizados.

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 Tinão olha para cima e, com a assertividade dos sábios, aponta para um pássaro qualquer no céu e atesta: “É este o gavião filho da puta que está matando meus passarinhos!”. Ato contínuo, corre a seu apartamento e volta com uma garrucha. Notando seus vapores alambíquicos e cônscia de seu comportamento temerário, a garotada corre para se esconder, buscando distância do desastre anunciado. Pudemos apenas espiar seu disparo de fazer inveja a John Wayne, fazendo o gavião (era mesmo um gavião?) desabar em movimentos circulares. “Missão cumprida!” – e voltou, trôpego, a seu lar.

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 Na noite de 12 de junho de 1993, o Palmeiras ensacou o Corinthians por 4 a 0, conquistando o Campeonato Paulista e saindo de uma seca de 16 anos. Imaginem a felicidade do Tinão – e a quantidade de goró entornado. Saiu em êxtase pelas ruas internas do condomínio, bradando, para o mundo ouvir e tomar conhecimento, “Eu vou mostrar meu cu! Eu vou mostrar meu cu!”. Assim o fez, quando chegou à frente de seu bloco D. Para compensar o desgosto pela forçosa visão de seus alvos glúteos, ofereceu sorvete Kibon a TODAS as crianças do condomínio (que tinha sete prédios, quase cem famílias), contanto fossem elas palmeirenses. Meu amigo Emmanuel ganhou uma taça caprichada, vestia uma camisa do São Paulo. Até hoje não se sabe se Tinão teve uma inaudita complacência para com a audácia da infância ou se não percebeu as cores do time do Morumbi.

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 Desta não fui testemunha ocular. Meu amigo Danilo entra no condomínio e vê o filho de Tinão chorando desgraçadamente. “O que aconteceu?”, “Meu pai… la… cô… tô”, “O quê? Seu pai te cortou?”, “Não! Meu pai enfartou!”. Danilo olha para o lado e vê nosso herói estatelado no banco do bloco D, olhos fechados, pescoço pendendo para trás, ruídos e espasmos assustadores sendo produzidos por seu corpo. A seu lado, um engradado com garrafas vazias de cerveja. Prestativo, meu amigo corre para chamar o médico que morava no bloco da frente. O doutor não precisou de mais do que 15 segundos de exame: “Que enfarte o cacete! Isso aí é porre! Dá um banho no velho!”.

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 Estava passando em frente à janela de seu apartamento (Tinão morava no térreo), ele me viu e cismou que eu havia roubado goiabas de sua árvore. Eu não gosto de goiaba. Tudo bem, esse fato por si só não me isenta de culpa, também não gostava de amoras e as roubava do saudoso Luiz André, apenas pelo gosto do furto. Mas juro que era inocente no caso em questão. Só que vai convencer o Tinão disso… Mandou os dois filhos ao meu encalço, com o seguinte ultimato: “Ou batem nesse moleque, ou apanham aqui em casa!”. Os dois pobres garotos vieram cumprir a parte a eles cabida no trato, mas acontece que eu estava acompanhado de, sei lá, uns dez outros caras. Tiveram de dar meia-volta e correr para o triste e sabido destino, chegamos a ouvir alguns gritos e protestos dos coitadinhos. Demos risada – criança não presta mesmo. No dia seguinte, Tinão cumprimentou-me como meu melhor amigo fosse.

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 Havendo ou não oportunidade adequada, Tinão sempre se gabava de sua dotação sexual. Dizia ele que carregava entre as pernas um pênis de 82 centímetros, excepcional fato anatômico que o impossibilitava de usar preservativos. Qualquer um que tivesse a desventura de cruzar com ele na entrada do banheiro masculino era obrigado a ouvir a proposta: “Vai! Ranca essas calça! Vamo vê quem tem o pau maior!”.

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 Certa feita, o síndico resolveu podar as árvores do condomínio. A medida incluiu o pomar do Tinão. Imagino que nosso administrador devia ter suas razões para ordenar a poda, mas, seja lá quais fossem, não convenceram Tinão. Esforços tiveram de ser empreendidos para evitar derramamento de sangue. Restou apenas o registro da equipe de reportagem chamada por Tinão, seu rosto estampado no jornal com uma careta que, em tempo vista fosse por Anthony Hopkins, fá-lo-ia repensar sua interpretação de Dr. Hannibal Lecter. Pouco tempo depois, envenenaram um dos gatos de Tinão, o admirável Nego. Desta vez, nada demoveu o homem, que jurou vingança, com a mão no escudo do Palmeiras. O problema é que não se confirmou até hoje a identidade do assassino de Nego – mas sobram suspeitas.

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.