Por vezes me sinto tomada de carinho nostálgico por pontos da cidade onde sempre passo – ou por aquelas ruas que nunca passei, qual Mario Quintana.

Sempre senti isso, contudo foi apenas depois de ler Cidades Invisíveis de Italo Calvino que passei a pensar que este sentimento pode ser resultado não apenas do costume como também da poesia oculta das coisas.

Por isso, a ideia da primeira parte do livro Ligue os Pontos de Gregorio Duvivier, chamada Cartografia Afetiva, me cativou. Olhar para o mapa da sua cidade e se deparar com um livro de poesias é de uma beleza tocante.

Esta primeira parte do livro foi especialmente escrita para o leitor carioca que, conhecedor da poesia oculta do Rio de Janeiro, se encontrará naquelas palavras. É como se alguns versos exigissem o sotaque carioca para serem lidos.

O leitor que não possuiu tanta intimidade com aquele pedaço de mundo talvez não consiga penetrar por completo em alguns poemas, entretanto há poesias que dispensam bússolas para serem compreendidas.

o mês de agosto parece o bairro
de são conrado: é difícil atravessá-lo
às vezes demora meses sobretudo
quando chove mas é inevitável
passar por ele — é inevitável

Já a segunda parte do livro, Aprender a Gostar Muito, fala, sobretudo, do tema mais universal da poesia: o amor. Vários poemas pedem para que a gente fique mais um pouco e releia em voz alta – mesmo que com um sotaque pato branquence como o meu.

Nesta parte o que dá o tom é a contemporaneidade. Se na primeira parte é preciso ser carioca, aqui é privilégiado aquele que compartilha da mesma geração do autor.

E ser Carioca e Contemporâneo são qualidades do livro. Afinal, nada mais universal do que o nosso próprio cotidiano – exceto, talvez, o Big Bang.

num dia ensolarado, eu disse,
você pode ouvir o big bang
até hoje, eu li num jornal, até hoje,
é um barulho ensurdecedor, eu
disse, mas como é, você disse,
como é que não estamos ouvindo
nada agora, você disse, mas nós
estamos ouvindo ele agora, eu
disse, só não estamos escutando,
porque sempre ouvimos, desde
pequenos, mas se ouvíssemos
agora pela primeira vez seria
ensurdecedor, eu disse, e você
de repente disse, e eu nunca
me esqueci, disse que talvez por
isso as pessoas não se entendam
direito, por causa do estrondo,
e nós voltamos a ouvir música,
e ninguém disse mais nada.
(e eu pensei: talvez por isso
a música — para calar o estrondo)

E talvez seja esta a razão de eu ter gostado tanto da poesia de Ligue os Pontos dando ritmo a esta minha chuvosa manhã de domingo.

Ligue os Pontos Gregorio Duvivier

Ligue os Pontos Gregorio Duvivier

Duvivier, Gregorio. Ligue os pontos : poemas de amor e big bang / Gregorio Duvivier. — 1ª- ed. — São Paulo : Companhiadas Letras, 2013.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.