Como um texto pode ser o ponto de partida de vários outros

Fiquei muito feliz com a qualidade e a quantidade de respostas ao artigo Quem escreve escolhe seus leitores. Mostrou-me que é possível obter uma resposta de diferente nível dos leitores. Que são ninguém mais ninguém menos que pessoas a quem também leio. Respostas não melhores, não piores, mas, como já disse, diferentes do que por exemplo as dos leitores que obtenho no Cracatoa Simplesmente Sumiu, site em que – por sua natureza – não sugere o diálogo, embora esteja aberto a ele.

Chamou-me a atenção também o fato de que, embora o tema principal fosse a possibilidade de um autor selecionar seus leitores, mas outros assuntos abordados de raspão terem virado foco para alguns dos comentaristas.

Uso o termo autor por considerá-lo mais abrangente, servindo para nós – reles mortais que escrevemos em blogs, fábricas de remédio e gráficas de esquina -, como também para escritores de fato, como se intitula Bruna Surfistinha em um de seus perfis no Orkut.

Eis alguns dos grandes momentos do diálogo suscitado pelo artigo acima citado.

  1. A Fernanda, do Caminhante Diurno, fez questão de observar que os valores femininos exaltados por uma das obras citadas, A Nova Heloísa, de Rousseau, são aceitos até hoje pelas mulheres para o prejuízo do próprio gênero. Confesso que não li o livro inteiro, apenas a parte que interessava para ilustrar meu ponto de vista, mas estou certo de que devem ser poucos os valores femininos que possam ter permanecido de há tanto tempo que não venham a ser prejudiciais a elas e a nós homens.
  2. Para o Gino Netto, do Sobre Blogs, chamou mais a atenção do fato de se estar menos preocupado com a quantidade que com a qualidade dos leitores e até indicou um artigo seu sobre esse assunto. Para ser sincero, não me importaria de ter um milhão de visitas únicas em um dia, desde que os leitores fossem os “leitores certos”, mas considerando a dificuldade que há entre chegar a tal número e manter a qualidade, partilho da opinião do Gino. E ficarei contente com 500 mil visitas únicas por dia.
  3. O Vitor Hugo bem lembrou de que a maior das visitas de um blog vem dos sistemas de busca tais como o Google. Isso lá é verdade. Mas prefiro crer que, caso esse visitante não se identifique com o conteúdo e com a forma do site, ele siga em paz. E que o senhor vos acompanhe.
  4. O Thássius Veloso, do Memorias Fracas, além de concordar com o Vitor Hugo, destacou o fato de alguns blogueiros se especializarem em certos assuntos tais como tecnologia, gadgets, hortas e jazz senegalês e assim encontrarem o seu público. Thássius prefere, pelo menos por enquanto, falar sobre generalidades. Nada errado com nenhuma das duas posturas. De certa forma, é melhor falar sobre generalidades que sobre um assunto específico, de que por ventura não se goste, só para “profissionalizar” o blog. Na verdade, isso seria cair novamente na armadilha de que quer fugir alguém que sonha ganhar dinheiro com seu blog. Melhor falar sobre tecnologia, gadgets, hortas e jazz senegalês, tudo ao mesmo tempo.
  5. Para o Lucas Castro, que tem um blog cujo o nome da página sempre me faz pensar que ela carregou em branco, chamou mais a atenção a referência que eu faço aos debates, tão comuns nos blogs do Brasil. Como bem disse o Paulo Polzonoff – por e-mail porque por mistérios da internet não conseguiu comentar – existe uma idéia errônea de que em um debate é preciso nocautear um adversário. Portanto quero deixar claro ao Lucas que entendi e sei que não é a esse tipo de debate a que ele se refere, mas àquele em que os dois sujeitos abandonam a mesa sem muitos arranhões e com novas idéias que, por ora, não se encaixam às atuais mas que, depois de longos monólogos, podem se tornar bem úteis. Ou não, como diria o outro lá. Para esse tipo de debate, estou pronto. Sobretudo se estiver recheado de inúmeras bobagens e alguns silêncios.
  6. Para a Ana Paula, do Simples Assim, destacaram-se as breves palavras sobre os comentários. Noto que raramente os autores de blogs respondam os comentários, mesmo quando o sistema de publicação permite isso, ao contrário do sistema fornecido pelo blogspot, por exemplo – que não cadastra o e-mail do comentarista. Esse tema merece um artigo só para ele e em breve ele estará publicado aqui.

E, na verdade, cada um deles merece. Surpreendeu-me positivamente o número de assuntos diferentes que um único artigo pode desencadear.

Em um texto que trata de como um autor pode selecionar seus leitores, eu chamaria isso de metalingüística. Para bem.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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