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Como um personagem se leva a sério demais

2 de junho de 2009 | Publicado na Categoria Trechos de livros comentados | 5 Comentários »

Terminei de ler o livro Como Me Tornei Estúpido, de Martin Page, e durante cada uma das páginas, admito, tive um certo incômodo embora haja humor e, de certo modo, seja um livro divertido.

Acontece que o personagem se acha importante demais. Leva-se a sério demais. Seu sofrimento, por considerar-se inteligente e perceber cada filigrana das causas e efeitos que regem o mundo, é tão egoísta que acredita que a cura de seu mal é tornar-se estúpido, tornar-se um daqueles que permite que o mundo seja do modo que é.

Não é necessário tornar-se estúpido para ter uma vida melhor. Tampouco é necessário estar triste para desejar que o mundo progrida eticamente e efetivamente fazer com que isso aconteça. Na verdade, creio, sabedoria nada tem a ver com tristeza. Possivelmente não tem nada a ver com erudição também.

Veja o que diz Barry Schwartz em sua palestra no TED:

Quando se pergunta a faxineiros como os que eu descrevi quão difícil é aprender a fazer o trabalho deles, eles respondem que é preciso ter muita experiência. E o que eles querem dizer não é experiência em aprender a limpar o chão ou esvaziar as latas de lixo. Precisa de muita experiência para aprender como cuidar das pessoas. Aqui na TED o brilhantismo é rampante É assustador. A boa notícia é que não é necessário ser brilhante para ser sábio. A má notícia é que sem sabedoria, brilhantismo não é o suficiente. É tão provável que leve você ou outras pessoas a terem problemas quanto outras qualidades.

É uma palestra sobre ética. Relacionamo-nos com os outros humanos através dela, um conjunto de valores individuais que vem antes da moral e das leis.

Devo grifar: relacionamo-nos com os outros. Nada seria tão contra significados éticos mais amplos quanto tais intenções egoístas.

O personagem de Page fala de sua preocupação com o mundo, com a origem dos alimentos que come ou da camisa que veste, mas isto faz com que apenas ele deixe de se relacionar com o mundo, faz com que ele olhe o mundo de cima, como se estivesse em um pedestal.

Pessoalmente, creio que o livro narra como o personagem de Page passa de um estado de estupidez para outro para, finalmente, voltar ao estado de estupidez inicial.

Gosto muito de um texto do meu amigo Paulo, escrito depois da minha festa de aniversário de 34 anos, há cerca de um ano e meio, e que considero um dos maiores presentes que já tive:

É bom estar no meio de pessoas que não se importam com política. Nem com os rumos da literatura contemporânea. É bom estar no meio de pessoas que riem de si e dos outros sem perversidade. Que não julgam. (…) Você pode pensar que estávamos bêbados. Mas… não! Não havia uma só gota de álcool na festa. Estávamos mesmo embriagados pela sensação inequívoca de estarmos juntos. (…) Sinto confessar, mas me falta a convivência com pessoas cujo único objetivo na vida é esta felicidade pequena e adorável. Uma felicidade que não busca se explicar com referências poéticas ou filosóficas. Uma felicidade que simplesmente é. Não éramos pessoas idiotas naquela casa. Cada qual, eu podia perceber, sabia-se dono de uma existência única, marcada por opiniões também únicas. Eram todas admiráveis por sua individualidade. Eram todas louváveis porque não procuravam o prazer pelo massacre do diverso.

É preciso coragem para entender como o mundo realmente funciona e para aceitar relações de causa e efeito que, muitas vezes, nem nos damos conta até atingirmos determinados padrões de consciência.

E, depois disso, é preciso mais coragem ainda  para cultivar e buscar a felicidade. Pois o mundo nos diz – até mesmo gente que se acha esperta nos diz – que as duas coisas, consciência e felicidade, são incompatíveis.

Ser consciente (seja lá o que for isso) e ser feliz é o maior desafio ético que um ser pode enfrentar.

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5 Comentários para “Como um personagem se leva a sério demais”

  1. Ronaud Pereira - 2 6 2009 às 13:05

    Perfeito o seu ponto de vista. Dias atrás escrevi algo sobre este tema. Aqui na internet e especificamente na blogosfera, encontramos pessoas inteligentíssimas, mas desprovidas de qualquer traço de sabedoria. Só sabem criticar e criticar e criticar e após a leitura passamos a sentir o mundo pior. E não é assim. Esse povo que se acha não entendeu essa diferença que você acabou de expor. A diferença entre conhecimento e sabedoria. Entendimento de verdade e não mera compreensão intelectual.

  2. Jorge Leberg - 2 6 2009 às 18:55

    Falando rapidamente: uma das coisas que eu mais repito nessa vida é que inteligência, intelectualidade ou genialidade não tem nada a ver com a autêntica sabedoria. Mas também acredito que um estado de espírito, não importa se feliz ou melancólico, não é intrínseco à ideia de sabedoria. Existem sábios felizes e sábios tristes, dependendo da forma como eles encaram as agruras da vida. Ser sábio, para mim, é saber conviver racionalmente/proficuamente com as pessoas e com o mundo de uma forma geral.

  3. Gustavo - 3 6 2009 às 15:03

    Lí esse livro e achei chato, e em alguns pontos realmente estúpido. Ele não se tornou estúpido, ele sempre foi. Os personagens do livro eram engraçados, bem mais interessantes do que o personagem central. Não posso falar muita coisa porque li esse livro em 2005.

  4. Eduardo Alex - 24 9 2009 às 22:01

    Apesar de ter em minha estante essa obra há aproximadamente um ano, somente agora arrumei tempo para lê-la. E confesso que ela não atendeu às minhas espectativas.
    Até a primeira metade, o livro funciona bem. Depois parece meio sem rumo, descambando para um finalzinho insosso.
    Como o comentarista Gustavo, em determinado momento da leitura, confirmei o que desconfiava: Antoine já era estúpido; um estúpido esclarecido.

  1. [...] As melhores pessoas que conheço Arquivado em: Crônica — Marcelo Lopes @ 3:51 pm Inspirado por este post. [...]

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