Minha mãe é bibliotecária e diz que não é raro as pessoas entrarem numa biblioteca sem saber por onde começar. Pensando nisso, resolvi escrever este post como um be-a-bá. Pode parecer simples para quem já tem intimidade com bibliotecas, mas esse é o tipo de conhecimento que, por se supor que todos têm, ninguém ensina. Entender o funcionamento de uma biblioteca nos ajuda a circular com intimidade entre as prateleiras, fazer pesquisas mais eficientes e encontrar preciosidades.

1º Etapa: Catálogo

Um livro catalogado é um livro que recebeu uma etiqueta que o identifica. Essa identificação consiste em certos números, que estão anotados na lombada do livro e em diversas fichas. As fichas estão à disposição dos usuários e há três maneiras possíveis de procurar o mesmo livro: nome do autor, nome do livro e assunto. Isso ajuda muito, porque às vezes sabemos apenas o nome do livro, ou queremos um livro qualquer de um autor, ou queremos um livro de qualquer autor e com qualquer nome, mas que nos esclareça sobre algum assunto.

Existem, então, pelo menos três caminhos diferentes para chegar ao mesmo livro. Eu posso procurar por livros de Guimarães Rosa, indo ao fichário de Autores e procurando por ROSA, Guimarães. Posso encontrá-lo pelo título do livro Sagarana no catálogo de Títulos. E posso encontrá-lo como Literatura Brasileira, Novelas  brasileiras, dentre outros, no catálogo de Assunto. Em todas essas fichas, estará anotado um número no canto. O exemplar da Biblioteca Pública do Paraná que tenho em mãos é:

B869.35
R788
SAG

Não é incomum as pessoas acharem que as fichas podem ser arrancadas do catálogo. Um ficha arrancada é uma informação perdida, talvez para sempre. Esse número deve ser anotado num papelzinho. Geralmente os catálogos tem um papelzinho de rascunho e canetas por perto.

2º Etapa: Sala

Se a biblioteca for grande, ela terá salas – ou sessões, ou andares – separadas para vários assuntos: “História, Geografia e Ciências Sociais” ou “Filosofia e Literatura” ou “Literatura infanto-juvenil”. Basta ir à sala que corresponde ao assunto do seu livro. Caso você não faça ideia de como ele foi classificado (alguns livros podem ser classificados de mais de uma maneira), tente descobrir isso através do número que o identifica – isso pode estar na entrada de cada sala ou numa lista próxima do catálogo. Por exemplo: o número 800 identifica os números classificados como Literatura. Então, como o livro que eu procurei no catálogo (Sagarana, de Guimarães Rosa) é 869, ele na sala de Literatura.

3º Etapa: Estante

Ao chegar perto das estantes, elas normalmente possuem etiquetas ou alguma coisa que as identifica. Essas etiquetas podem dizer que número elas possuem, que tipo de livro estão lá, ou as duas coisas – “Literatura brasileira – B869″. É como procurar uma rua. Tente encontrar o número que mais se aproxima do livro que você procura e veja pra que sentido os números vão. No exemplo que eu dei, em primeiro lugar devo procurar pelo número 869. Quando encontrar o número 869, começo a procurar pelos números que vem logo a seguir – 869, 869.0, 869.1, 869.12, 869.18373, 869. 2… Perceba que a contagem não é a mesma que fazemos normalmente. Antes de chegar no 870, o 869 ganha vários números depois. Primeiro levamos em conta o número que vem logo depois do ponto, e depois o outro e o outro. No sistema da biblioteca 869.19870 vem antes do 869.2, porque o primeiro tem o 1 logo depois do 869 e o outro tem 2 logo depois do 869. A classificação funciona assim pra permitir a entrada de novos livros sem ter que refazer tudo.

Depois que você encontra o mesmo número que estava procurando (869.35), está na hora de procurar pelos dados que estão embaixo. Logo abaixo, na primeira linha sempre tem uma letra. Aí basta procurar em ordem alfabética. O r do R788 (na ficha de exemplo que eu dei acima) indica o sobrenome do autor: Rosa. Isso quer dizer que, dentre todos os livros de literatura brasileira da biblioteca, estamos diante dos livros de e sobre Guimarães Rosa. O número seguinte, 788, é procurado na ordem normal (786, 786, 788..). As três letras embaixo, no caso SAG, indicam o título do livro: SAGarana. Lembre-se que é o título original, na língua que o livro foi publicado. Se vocês for procurar pelo livro Grandes Esperanças de Charles Dickens, as três letras embaixo serão GRE, de Great expectations.

Aí é só encontrar o livro. Se ele não estiver na estante, pode ser que esteja emprestado, que foi emprestado e não foi recolocado ou que tenha sido roubado. Para emprestar, é preciso fazer uma carterinha da biblioteca. Geralmente é rápido e eles exigem o preenchimento de uma ficha, um documento e um comprovante de endereços. Na maioria das bibliotecas é possível passar duas semanas com o livro e renová-lo uma única vez, durante mais duas semanas. O empréstimo só pode ser renovados quando a devolução é feita dentro do prazo. Fora do prazo, é preciso pagar uma multa, de um valor fixo que aumenta por dia.

Essas são indicações gerais. As bibliotecas classificam os livros num sistema universal, então você encontrará esse mesma lógica aonde quer que for. Para informações mais precisas, vá à biblioteca do seu bairro ou da sua cidade e dê uma passeada. Com bibliotecas a gente desenvolve uma relação de intimidade.

Sobre o autor: Caminhante Diurno

Caminhante tem casa, marido, cachorro, blogs (Caminhante Diurno e Caminhando por Fora), carteirinha da biblioteca. E não pode viver sem qualquer um deles.