A carta fictícia a seguir se destinaria a um calouro de uma universidade estadunidense. Apesar das diferenças dos sistemas seletivos (lá os alunos fazem pedidos de admissão) e educacionais, não é difícil fazer um paralelo.

Também seria necessário contextualizá-la no livro Justiça – O Que É Fazer A Coisa Certa, de Michael J. Sandel (clique aqui para comprar), que ora leio. Mas isto tornaria o texto muito longo.

Há também a carta para aqueles que não foram aprovados no sistema seletivo, mas prefiro mostrar aquela para os que passaram.

Lembre-se: ela é fictícia. Obviamente, porque é sincera demais. Nada mais ficcional que a verdade:

Prezado candidato aceito,

Temos o prazer de informar-lhe que seu pedido de admissão foi aceito. Por acaso o senhor possui as características de que a sociedade necessita no momento, de modo que decidimos explorar o que o senhor tem a oferecer à sociedade e admiti-lo em nosso curso de direito.

O senhor está de parabéns, não porque merece o crédito por possuir as qualidades que levaram a sua admissão – o senhor não o merece -, mas apenas porque o vencedor de uma loteria deve ser parabenizado. O senhor teve a sorte de ter as características certas no momento certo. Se optar por aceitar nossa oferta, poderá por fim usufruir dos benefícios resultantes do fato de ser usado dessa maneira. Esse, sim, deve ser um motivo para comemoração.

O senhor, ou melhor, seus pais podem ficar tentados a comemorar essa admissão como um fato que reflete positivamente, se não seus dotes naturais, pelo menos os esforços que o senhor conscientemente empreendeu para cultivar suas aptidões. Mas a ideia de que o senhor seja merecedor do caráter superior necessário para tal, visto que esse caráter depende de várias circunstâncias afortunadas cujos créditos o senhor não pode reivindicar, é igualmente problemática. A noção de mérito não cabe aqui.

Não obstante, esperamos vê-lo na faculdade no próximo outono,

Atenciosamente.

Note que o autor também usa o termo loteria.

É como se todo o período antes do vestibular (ou do pedido de admissão, no caso dos EUA) estivéssemos estudando para ter um melhor desempenho em algo circunstancial.

Não seria melhor se esse período escolar anterior não fosse usado em coisas que os estudantes realmente quisessem aprender? Não seria realizador?

E mais perguntas:

  • É o vestibular e a universidade a única opção de futuro educacional para um jovem?
  • A chamada formação superior, acima de tudo, é garantia de realização pessoal, uma vida com significado?
  • É a formação superior, ao menos, garantia de dinheiro no fim do mês?
  • O ensino dos anos iniciais totalmente voltado à grade curricular (lembre-se: grade é coisa de cadeia) desperta a vontade de aprender nos alunos? Eles tem prazer em aprender e aprendem a aprender e a estudar, um prazer que os manterá aprendendo para o resto da vida?

Se eu fosse escolher uma escola para mim, hoje, perguntaria se eles preparam para o vestibular. Se a resposta fosse sim, procuraria outra.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!