Como aprendi a gostar de ler com 11 atitudes simples de meus pais
28 de março de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 43 Comentários »Uma professora de português, na pós-graduação em Literatura Brasileira que faço na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), disse que é comum que mães questionem os livros indicados aos filhos, considerando-os muito complicados.
Pensei que uma boa idéia seria perguntar delicadamente a essa mãe que outros livros ela teria indicado durante todo aquele tempo antes de ele chegar às aulas de Literatura.
Os pais têm papel fundamental na formação dos novos leitores. A responsabilidade não pode ser jogada apenas nas costas dos professores na hora de ensinar a gostar de ler.
Eis algumas coisas que meus pais fizeram para que eu me tornasse amigo dos livros. Se você for pai ou mãe, espero que isso ajude.
- Presenteavam-me com livros – Quase toda semana eu ganhava um livro novo. Nas datas festivas, além de um brinquedo, eu ganhava um livro.
- Levavam-me às livrarias – Nada mais divertido e que chame mais a atenção de uma criança que a colorida seção de livros infantis. Ainda que ela seja pequena e desorganizada, como costumam ser as de ultimamente, para a criança tudo é grande, vasto e divertido.
- Levavam-me à biblioteca - Nem todo mundo tem dinheiro para comprar livros toda semana. Mas uma biblioteca tem uma quantidade enorme de livros à disposição. De graça. Lembro como ontem o dia em que meu pai me acompanhou quando fiz a minha carteirinha. Emprestei uma edição do Príncipe Valente.
- Associavam esses passeios a coisas divertidas – Uma ida à livraria ou à biblioteca era acompanhada sempre de um sorvete, uma passada na pastelaria ou um passeio no zoológico. Não precisa ser nada muito complicado. A leitura deve estar ligada a atividades prazerosas já que também é uma.
- Não tinham preconceito quanto a gibis - As histórias em quadrinhos são ótimas maneiras de iniciar a criança à leitura. Embora sejam uma forma de arte diferenciada, habituam à palavra escrita.
- Liam histórias para mim – Minha avó também lia histórias para mim. Sempre que o fazia colocava seus óculos. Como eu ainda não sabia ler, um dia roubei os seus óculos imaginando que aquilo me ajudaria a entender aquelas letrinhas todas.
- Contavam histórias para mim – Quem gosta de ouvir histórias, gosta também de lê-las e de contá-las. Eles também me mantinham em contato com as pessoas mais velhas da família que, por natureza, são contadores de histórias. Quando criança, lembro de aos domingos, bem cedo, ir para cama de minha bisavó, onde ela me contava as suas aventuras da juventude.
- Davam livre acesso aos livros adultos – Eles nunca temeram que eu estragasse os livros da biblioteca, os livros “sem figura”. De fato, estraguei alguns, mas a minha transição dos chamados livros infantis para os adultos foi gradual e sem pressões, no meu ritmo. O primeiro que li foi Tubarão, aquele do filme.
- Meu pai me levava ao cinema – O cinema é uma das portas de entrada para a literatura. Foi ao ver Mogli, dos estúdios Disney, que me interessei em ler o Livro da Selva, de Rudyard Kipling.
- Eles liam – Meu pai, sobretudo, lia muito. Para uma criança, o cara mais legal do mundo é o pai. E, quando você é criança, tudo o que você quer é ser como o cara mais legal do mundo. E o mais importante:
- Eles NUNCA me obrigaram a ler – Tudo que é feito por obrigação é um saco. Coisas feitas contra a vontade causam trauma. E, depois de um trauma, mesmo que seja a mais prazerosa das atividades, mais tarde você vai associá-la com sentimentos ruins e se recusar a fazê-la. Para entender melhor, apenas neste item substitua a palavra leitura pela palavra sexo.

Maravilhosa lista! Será de grande ajuda para “pais iniciantes” e também para professores.
Considero os itens 10 e 11 os mais importantes. Em uma palestra que assiti semana passada, a palestrante – doutora em lingüística aplicada – terminou dizendo: “Professores! Formem novos leitores, lendo!”
E claro, parabéns aos seus pais! :)
Resposta: Eu tenho notado que muitos professores não lêem… boa parte porque, sobrecarregada, não tem tempo e outra parte porque não gosta mesmo… vai entender. O mundo é complicado…
Abraços!
Meus pais faziam o 1, o 5, 6, 7, 8, 9 e 11. 10 e 2, só às vezes. Mas posso incluir que minha mãe me levava muito ao teatro e que havia (aliás, ainda está lá) uma biblioteca na casa da minha vó. Mas às vezes é questão de gosto também. Minhas irmãs tiveram exatamente os mesmos incentivos, mas lêem muito menos, a única traça da casa sou eu.
Resposta: Preferi colocar o cinema no lugar do teatro porque é o que meu pai fazia mesmo… acho que me levou apenas uma vez ao teatro. E, de fato, não sou muito de teatro mesmo… mas claro que também é uma tática válida…
Abraços!
Meus nunca fizeram nada disso :(
Mas não foi intencional, fomos muito pobres e os dois trabalhavam como loucos, sendo assim, não tinham tempo de comprar e nos levar a lugar algum.
Mesmo assim, ainda gosto de ler algumas coisas.
Abração
Resposta: Vários dos itens listados são gratuitos e não necessitam ir a parte alguma. Tenho certeza de que, ao menos em algum momento, eles te contaram histórias. :-)
Abraços!
Eu reconheci meus pais neste texto! E mais que meus pais, meu avô paterno, um homem de grande cultura, um autodidata.
Meu pai fazia uma coisa que fiz com os meus filhos: deixava a gente ler as manchetes dos jornais e revistas, como se fosse o “Jornal Nacional”.
Também tinha livro e revista por toda a casa. O mesmo acontece na minha casa. Meus filhos amam ler!!!!!!!!!!!!
O ano passado levei o caçula a uma feira de livros aqui em Brasília. Ele nem sabia para que lado olhar.Quando saímos, ele olhou pra mim e disse: Feira de livro é bom né mãe?
Leitura é prazer…
beijão
Resposta: Que bom, Rosana… você é uma privilegiada!
Estou no caminho inversso.
Meu pai começou a ler agora, acho que de tanto me ver lendo ele ficou curioso pra ver o que tem de bom nisso.
Resposta: Lindo isso, Pri…
Também ganhei livros desde o primeiro ano na escola, pra ser sincero, lembro deles até hoje!
Onde foram parar, eu não sei.
Você estragou livros da biblioteca pública? >(
A maioria dos livros que vejo em bibliotecas (seja públicas, de escola) dão até dó. Depois tem gente que me chama de egoísta porque não empresto livros.
Abraços
Resposta: Os da Biblioteca Pública eu cuidava direitinho… mas até que gostava quando eles vinham com alguma anotação, desde que não tivesse prejudicado a leitura do texto…
Abraços!
Não sou pai ainda mas já imprimi o post e deixarei guardado num baú que tenho intitulado “coisas para o futuro” e esporadicamente fuço nele.
Achei importantíssimo, principalmente, o último tópico do post. Sem dúvida, porque, vale lembrar, a ignorância também é uma opção.
A dica do baú de “coisas para o futuro” eu também recomendo para os leitores desse site. Acumulo tudo que eu acho que vai ser importante num futuro, seja próximo ou longínquo. É quase como um seguro de vida.
Resposta: Obrigado pela importância que dá a tudo isso, Rui! Abraços! Bonito isso de baú de coisas para o futuro… uma espécie de cápsula do tempo…
Ale, muito boa essa lista. Tenho feito o máximo que posso de cada item para a Nina. Falta dar mais livros de presente, que aliás ela adora. E levar à biblioteca. Mas eu chego lá. O principal mesmo, acho, é dar o exemplo. (acho que vou colar teu post no meu blog, posso?) Bjs/ Tina
Resposta: Claro que pode, Tina! Você pode tudo! Beijos!
Gostei das suas dicas. Espero conseguir fazer isto pro meu filho…
abraços
Resposta: Espero que os pais não se afobem e não queiram fazer tudo de uma vez… rs… iria acabar estressando a criança… não esqueça que tem que ser gradual e natural…
Abraços!
Ótimo post. Sintetizou muita coisa que eu havia lido por aí e até constatado pessoalmente.
De fato os gibis, considerados por décadas como “lixo cultural”, induzem mesmo a garotada a tomar gosto pela leitura.
Hellio
Resposta: É incrível como só há poucas décadas os gibis sejam levados mais a sério… que bom que gostou, Hélio!
Excelente lista! Seus pais mandaram muito bem, muito bem mesmo. Eu, como psicólogo, não tenho o que acrescentar. Boas leituras.
Abraço.
Resposta: Talvez um dos melhores jeitos de aprender algo seja não perceber que você está aprendendo… e eles, acho, não sabiam que estavam ensinando…
Abraços!
Meu pai lia muito pra mim. Me lembro de Moby Dick, que me marcou muito, por anos. Fui resgatar esse gosto depois, na adolescência. E ninguém me forçou a ler tb.
Resposta: Há algumas semanas, tive a oportunidade de ler para uma criança… não tem exceção. Elas adoram… ainda mais se você representar as falas e barulhos. Foi a Rikki-Tikki-Tavi do Kipling….
Abraços!
Bem, bibliotecas públicas… Eu nunca fui, e minhas filhas também não. Ô cidadezinha ruim para isso, este Rio de Janeiro! Confesso que, há um tempinho, li sobre uma num shopping não muito distante aqui de casa (mas também não muito próximo). Não cheguei a levar as meninas lá, mas tive vontade.
Elas têm biblioteca na escola, e trazem livros para casa uma vez por semana. Eu também não visitava bibliotecas públicas, mas tinha biblioteca na escola, e lembro bem dela até hoje. E sempre adorei feiras de livros! :-)
Beijos,
Silvia
Resposta: Minha escola também tinha essa prática de jogar um monte de livros sobre uma mesa. Íamos, no meio da aula – o que era muito bom pois saíamos daquela sala horrível (associando livros a prazer) – e de dois em dois escolhíamos um livro… os mais disputados eram aqueles manuais Disney, como o do Tio Patinhas e dos Escoteiros Mirins… mas havia muitos livros bons e interessantes. Eu adorava. Sem falar no voto de confiança dado pelos professores ao permitir isso…
Abraços!
Oi Alessandro, tenho lido os textos do seu blog há algumas semanas e gostaria de parabenizá-lo pelo excelente conteúdo. Eu conheço uma professora da UTFPR, que fez o doutorado em literatura brasileira com o mesmo orientador que eu aqui na USP. Será que a mesma pessoa? Abraços!
Resposta: Não sei, Lika… qual é o nome dela? Talvez eu possa confirmar…
Obrigado pelos elogios e espero que continue voltando e comentando. Será muito bem-vinda.
Abraços!
Adorei a lista, não tenho filhos nem pretendo, mas incentivo muito minha sobrinha. Dou muitos livros pra ela, mesmo ela rasgando todos.
Que meigo a história da sua avó!
Beijocas
Resposta: Afinal, o fato de ela rasgar não quer dizer que ela não gosta dos livros… digamos que ela os encara com certas liberdades… acho que depois da fase de rasgar ela vai passar para a fase de pintar e, depois, a de anotar… sabe lá que fases vêm depois…
Beijos!
Não acho q os pais devem se preocupar em fazer as crianças lerem, ou gostarem de ler… Será que é tão importante para a formação da criança a leitura como todos dizem? Não estou dizendo que a leitura é prejudicial, mto pelo contrário, porém, conheço diversas pessoas que são mto inteligentes,bem sucedidas, interessantes e sociáveis que leem livros mto raramente, ou praticamente nunca leram nada… Acho q essa cultura de que a leitura é tão importante já está meio defasada…
Discordo dessa preocupação e tentativa de convencer as crianças a gostar de ler. Ela deve ler se quiser e se gostar…
Resposta: Tem razão, Luis. Por isso fiz questão de incluir o item 11 e elegê-lo o mais importante.
Por outro lado, como você disse, também sei que existem pessoas sem leitura muito interessantes e muito sábias. Incluo meus avós entre elas. Porém, considero mais fácil encontrar pessoas assim entre as que lêem. A leitura, em seus vários níveis, digamos, abre horizontes, aumenta a possibilidade de diálogo, amplia o alcance de suas idéias por melhores que elas já sejam. Não conheço forma melhor de entra em contato com o pensamento de um antepassado de mil anos atrás que, através do livro, fala diretamente a mim ou a você. Ou mesmo o pensamento de alguém de nossa época.
Não creio que a importância da leitura esteja defasada. De forma alguma. O que está defasado – e isso você o disse muito bem – é a sua obrigatoriedade. Ninguém deveria ser obrigado a fazer nada.
Seja sempre muito bem vindo por aqui. Espero que volte sempre.
Abraços,
do Alessandro.
Incrível!!
Meus pais nunca me levaram na biblioteca, ou me presentearam com livros, mas meus amigos sim. Deles já recebi ótimos livros, sobre diversos assuntos, alías, faço parte de uma corrente de livros, onde uma vez que eu já tenho lido algum, assino na contra-capa e passo para frente para alguém ler e assim por diante.
Já com meus avós, ah, com eles sempre ouvia histórias, pra tudo que é gosto e imaginação.
Saudades.
Grande beijo. Ka.
Resposta: Boa idéia essa a da corrente… e os avós… quantas histórias não é? O que uma vida não rende? Abraços do Ale, Karen…
Parabens pelo post
Eu adoro ler, alias, eu e os meus irmão somos leitores assíduos, cada qual no seu estilo.
Certamente a grande influência foram os meu pais,
meu pai sempre comprou livros e a minha mãe sempre tinha uma quantidade grande de revistas. E claro minha infância foi recheada de gibis e enciclopédias, e na adolescência( e nos dias atuais) livros.
Mas todos os livros a quais era obrigado a ler eu não curtia, no vestibular, apenas uma quantidade pequena dos livros pedido eu tinha lido, mesmo tido sido um leitor voraz de livros durante uns 10 anos antes do vestibular.
Eu realmente fico decepcionado quando falam mal das bibliotecas públicas, eu acostumava muito ir na biblioteca municipal e na escola pegar livros.
Hoje em dia, eu até evito entrar em livrarias, a tentação para comprar um novo exemplar de livro é sempre muito grande (só este ano já comprei 6 livros).
Resposta: Você tocou num ponto interessante: é impressionante como crianças gostam de enciclopédias e de atlas. O senso comum diria que não, mas elas adoram. Aliás, eu gostava muito e conheço muito gente que gostava…
Abraços!
Uma lista como essa é quase utópica hoje em dia, mas eu tive a sorte (e em alguns casos $$$) suficientes para poder desenvolver esse hábito de forma prazerosa e sem traumas (não que a minha família fosse um exemplo de intelectuais, mas sempre deram valor a educação). A lista acima demonstra como é facil formar uma sociedade intelectualizada, politizada e consciente de seus direitos e, principalmente, seus “deveres”, que, na minha opinião, é o principal problema desse nosso país. Não é de se espantar que o PT ainda esteja no governo… distribuindo dinheiro sem controle algum…
Resposta: Creio que se pelo menos três ou quatro desses hábitos fossem adotados pelas famílias, os problemas de qualquer sigla partidária seriam cada vez menores, meu caro!
Abraços fortes,
do Alessandro.