Comemore o Dia do Saci com Guinga

Hoje é Dia do Saci.

Para comemorar veja este vídeo com a canção Saci, de Guinga e Paulo César Pinheiro, interpretada por Daniel Torquete.

O Guinga, um dentista carioca, é um dos compositores mais inovadores dos últimos tempos no que diz respeito à musicalidade. Quer dizer, sem lançar mão de tecnologia e “conceitos”, conseguindo criar novas sonoridades simplesmente fazendo avanços na melodia e na harmonia. O que é heróico, considerando-se tudo o que já se fez nessas áreas.

Ele é um desses músicos que, por alguma razão inexplicável, ficam na periferia da Música Brasileira por um bom tempo. Ele teve a sorte – e, claro, o mérito – de ser trazido à ribalta na década de 90, embora desde a década de 70 tenha sido fundamental para a MPB. Por exemplo, tocou naquele famoso álbum do Cartola. Contou-me que, no primeiro dia de gravação, ganhou um lauto almoço e que Cartola “era um príncipe”.

É dele, com letra de Aldir Blanc, uma de minhas músicas preferidas. Transcrevo a letra, mas é dessas que só fazem sentido com a melodia:

Nítido e obscuro

A porcelana e o alabastro
Na pele que eu vou beijar
O escuro atrás do astro
Na boca que me afogar
Os veios que há no mármore
Nos seios de Conceição
E desafeto e mais paixão
E porque sim e porque não
Porque em você
O que me prende vive livre
Como tudo que há no espelho
Existe mas não tive
O bambual de ouro no dorso do tigre
O farol de Alexandria varando a solidão
Tu me incendeia e o ciúme entra na veia
A paixão ricocheteia
Sobe inté o coração – e é bão!
Pouco existente feito as perna da sereia
O cavalo de São Jorge, pisando a lua cheia
Igual a chuva que há no fundo da baleia:
É tão pouca e formoseia o aguarão do mar
O amor vareia: o primeiro virar areia
O segundo sacaneia
Mas o próximo é ilusão – que bão!
Eu quando choro do olho sai meteoro e fogo
De cada poro um vulcão
É dor capaz de tombar a Via-Láctea no mar
Mas cabe dentro do olho
De um grilo no manguezal
Eu quando rio faz frio de calafrio
As moça tem arrupio e terção
É alegria capaz de acovardar lobisome
E quando mais se espera dela
É aí que ela some
Eu jogo truco, dou troco
Sou truculento e turrão
Bato muito firme
Danço jongo candongueiro
Eu mato a cobra
E dispois exibo o pau pra nós dois:
Tu se afeiçoa, faz carinho e me enleia
Eu gosto mas me aperreia
O depender de mulher
É sempre nítido e obscuro o que se quer!

Guinga proporcionou-me um dos pontos mais legais de minha carreira como jornalista, não pelas entrevistas por telefone que me deu, mas por – numa dessas entrevistas -, ao saber que eu gostava dessa música, tê-la cantado para mim inteirinha, sem eu ter pedido.

Imagine sua música preferida.

Imagine seu músico preferido.

Imagine que ele a canta pra você pelo telefone. Eu quero dizer: inteira.

Acho que você entendeu.

Feliz dia do Saci!

Postado em Música.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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