Iniciei a toque de caixa um rápido treinamento de texto jornalístico e técnica de entrevista para a equipe do site Baixaki que, aos poucos, implanta notícias a seu vasto repertório de serviços e a seu leque de opções.
Num momento oportuno falei sobre os lugares-comuns e sobre como fico preocupado com suas aparições em meus textos cada vez que deparo, com inesperada surpresa, com uma lista interminável deles. Pois imediatamente me vem a absoluta certeza de que os utilizo em meus textos por motivos alheios à minha vontade.
Falei, naquela feliz ocasião, como tenho uma doentia obsessão a esse respeito.
Chegando em casa, mais do que depressa e em desabalada carreira, encomendei o livro O Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas, de Humberto Werneck.
Como é óbvio ululante, o livro trata de lugares-comuns. Diga-se de passagem: é um livro que não se consegue largar por tratar de um tema fundamental como esse, sobretudo para quem escreve.
Logo no prefácio, há uma citação pinçada de Hannah Arendet, tirada de A Vida do Espírito, que explica essa nossa necessidade dos lugares comuns e permite que escrevamos com menos peso na consciência.
Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados tem a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera exigência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos.
Werneck continua:
Em outra citação, que já se tornou lugar-comum quando se fala de lugares-comuns, o americano H.L. Mencken vai no mesmo rumo e afirma que os clichês tem origem no “medo do desconhecido”, no conforto medíocre de quem, preferindo não arriscar, se basta com fórmulas prontas.
Assim, clichês são de certo modo, uma necessidade premente para nossa intensa vida social. Sob um amplo ponto de vista, mesmo as palavras isoladas e nossos gestos são clichês, signos e reações aprendidos e convencionados a determinados estímulos externos. Um mal necessário para nosso convívio e sem o qual nossa comunicação pessoal seria impossível, mas através do qual deixamos de enxergar com clareza o sentido profundo por trás de tudo.
No entanto, na linguagem jornalística podemos abrir mão de alguns deles e devemos evitá-los como o diabo foge da cruz, a fim de provocar o pensamento crítico em nossos leitores, lançando mão de outros recursos mais inteligentes para expresssar-nos. Um meio para isso é evitar a adjetivação excessiva, pois muitos lugares comuns são formados pela soma de substantivo e adjetivo.
Algumas dessas figuras são belas e formosas, pois quando de sua criação eram originais. Mas lembre-se: o sujeito que primeiro colocou um pinguim sobre uma geladeira foi um gênio, o segundo foi brega (estra frase não é de minha lavra; se alguém souber o autor peço que me dê uma mão).
Alguns clichês são não só esvaziados de significado, pelos usos e costumes excessivos, como constituem ledo engano por serem redundâncias: acertar em cheio, opção de escolha, encarar de frente, etc.
Porém, todo cuidado é pouco quanto aos excessos. Como alerta Werneck: corremos o risco de parecermos – cuspidos e escarrados – com o alienista de Machado de Assis, que internou a cidade inteira por julgar todos loucos. Sob um rigoroso inquérito, todas as palavras são clichês e até mesmo nós uma soma deles.
Aliás, caso você não tenha percebido, deixei em negrito aquelas expressões que julgo como tal. Algumas das quais não estão presentes no livro de Werneck. O que um crítico mais cricri diria ser um erro crasso para a obra.









