Todos os amantes de livros sabem que a ficção é tão linda porque, por mais mágica que ela seja, atinge seu leitor como se fosse a mais crua realidade. Nós nos identificamos com as personagens e seus dilemas sáo sentidos como se fossem os nossos – e, muitas vezes, esses personagens os contam de um jeito que nem nós conseguiríamos.

Uma grande qualidade das tidas “obras clássicas” é que, por mais que o tempo passe, os questionamentos de seus personagens continuam a ser atuais. Quem nunca sentiu na pele a dúvida de Bentinho? Ou a solidão dos Buendía? Ou o flerte com o imoral de Raskolnikov? Por meio das tramas desses personagens, entramos em contato com nós mesmos e nos descobrimos. A ficção invade a realidade. E, a cada livro lido, mais profundos e densos nos tornamos. O que não significa que nos isolemos: por meio dessas obras de arte, temos uma identificação e podemos compartilhar sentimentos e ideias (e o Livro e Afins é um exemplo disso, não é mesmo?).

Isso não é nem um pouco diferente com os filmes, já que eles também são narrativas. Por isso, deixo aqui uma história contada pelo Alfredo, de Cinema Paradiso, um dos maiores tributos ao cinema e à amizade (e, cá entre nós, meu filme preferido!):

Cena do filme Cinema Paradiso retirada da resenha de Mark Barry sobre o filme.

Alfredo – Em um tempo distante, o rei deu uma festa. E alí estava a princesa mais linda do reino. Um soldado, que estava vigiando, viu a princessa passar. Ela era a mais linda, e ele imediatamente se apaixonou por ela. Mas o que poderia um pobre soldado fazer, tratando-se da filha do rei? Bom, finalmente, um dia, ele conseguiu encontrar-se com ela, e disse-lhe que não poderia mais viver sem sua presença. A princessa ficou tão impressionada com seus fortes sentimentos que falou ao soldado: “Se você conseguir esperar cem dias e cem noites debaixo de minha sacada, então, ao fim de tudo, eu serei sua”. Por Deus! O soldado imediatamente foi lá e esperou um dia; E dois dias. E dez. E vinte. E todo final de tarde, a princesa olhava pela sua janela, mas ele nunca se movia. Durante a chuva, durante o vento, durante a neve, ele sempre estava lá. Os pássaros defecavam nele, as abelhas o picavam, mas ele não se movia. Depois de noventa e nove noites, ele tinha se tornado todo desidratado, todo branco, e as lágrimas derramavam de seus olhos. Ele não conseguia segurá-las. Ele não tinha mais forças para dormir. Todo esse tempo, a princesa o observava. E, na nonagésima nona noite, o soldado se levantou, pegou sua cadeira e foi embora.

Salvatore – [mais à frente no filme, Totó dá a Alfredo sua interpretação] … Em mais uma noite, a princesa teria sido dele. Mas ela poderia também não cumprir sua promessa. E teria sido terrível. Ele teria morrido. Desse jeito, porém, ao menos por noventa e nove dias, ele viveu na ilusão de que ela estava lá, esperando por ele.

(tradução livre do trecho visto em http://www.imdb.com/title/tt0095765/quotes)

E você, quantas vezes já desistiu na nonagésima nona noite?

Sobre o autor: Mariana Fonseca

Mariana é uma estudante de jornalismo paulistana. Escreve historinhas de quinta categoria e algumas matérias por aí - e ainda tem tempo de achar que amar é tudo que vale nesse mundo.