Muitos conhecem ou pelo menos já ouviram falar em intercâmbio cultural ou mesmo intercâmbio profissional. Contudo, poucos sabem das bolsas – nas mais diversas áreas – que o Governo disponibiliza aos brasileiros natos ou naturalizados para a complementação de seus estudos no exterior.

Aprimorar-se tecnica e/ou intelectualmente fora do país não é um sonho!

O Governo Brasileiro tem investido na qualificação intelectual de seus cidadãos de forma crescente e progressiva. Hoje se dispõe de muito mais bolsas do que há trinta anos. Recentemente, o Programa Federal Ciência Sem fronteiras foi lançado com a promessa de disponibilizar um grande número de bolsas no exterior para as mais variadas modalidades e áreas.

O estado provê mensalidade de bolsa, auxílio-instalação, passagens aéreas e seguro saúde ao brasileiro no exterior. E isto é uma forma de investimento na educação do país, haja vista que o bolsista retornará com conhecimento específico e na forma de contato com um grupo internacional. E como sabemos, conhecimento quando aplicado faz uma nação crescer, seja por meio da criação de patentes, desenvolvimento de softwares, aplicação de novas técnicas na medicina e etc.

Já o bolsista ganha duplamente. Além do conhecimento já mencionado, traz em sua bagagem uma experiência cultural/pessoal única!

Para candidatar-se a um período seja de meses ou anos no exterior, é preciso preencher certos requisitos. Para cada caso, um caso: Educação Profissional e Tecnológica, Graduação, Doutorado-Sanduíche, Doutorado Pleno e Pós-Doutorado.

Para o interessado resta saber qual a modalidade em que ele se enquadra e avaliar atentamente o preenchimento dos requisitos e os prazos para as chamadas.

E então, vai topar o desafio de viver no exterior em troca de aprendizado? Nós, colunistas do Praciência, já topamos o desafio desta aventura xenocientífica e para motivar quem possa ainda estar indeciso, damos abaixo nossos depoimentos.

Tercia Alves – França

Tercia Rodrigues Alves, autora do trecho inicial deste artigo, acima, realiza Pós-Doutorado em vascularização de tumores cerebrais/UFRJ. Fez Doutorado-Sanduíche em Paris/França financiado pela Capes.

A seguir, o depoimento dos outros cientistas:

Rossana Soletti – EUA

Depois de uma curta temporada em um laboratório de Farmacologia na Espanha, já comecei o meu Doutorado desejando fazer uma parte dele no exterior. Sabia de antemão que tanto o crescimento profissional quanto o pessoal seriam enormes (sempre acreditei naquela ideia de que viajar é uma das poucas coisas que você compra e lhe torna mais rico). Por sorte, o laboratório para onde fui ficava em San Diego, uma cidade incrível e encantadora. Não é difícil ser feliz na Califórnia, mesmo trabalhando 12 horas por dia, incluindo alguns finais de semana. No meu trabalho convivi com pessoas de todos os continentes, e por isso aprendi costumes não só americanos, mas também chineses, indianos, japoneses, vietnamitas, etc. Mas nem tudo são flores… a saudade da família e dos amigos sempre aperta (e para isso o Skype é um santo remédio) e o jeito por vezes austero dos americanos pode assustar. Sem contar que, dado que o tempo é curto, a pressão por resultados no trabalho é sempre grande. Nada que não possa ser contornado: todos os brasileiros que eu conheci nessa situação trabalhavam duro e ainda conseguiam aproveitar a vida lá fora! E no final, tudo valeu a pena, incluindo alguns “perrengues” pelos quais passei, como ter que ficar observando os outros para aprender como funciona o caixa automático do supermercado, não saber comer arroz usando hashi durante um almoço com minha chefe chinesa e descer do prédio apavorada ao ouvir o alarme de incêndio, vestindo pijamas e carregando quase todas as minhas coisas, quando todos estavam descendo calmamente e sem carregar nada (era só mais um dos inúmeros testes de incêndio!).

Rossana Colla Soletti realiza Pós-Doutorado em engenharia biomédica/UFRJ. Cursou parte do seu Doutorado-Sanduíche no UCSD Moores Cancer Center, em San Diego, Califórnia.

Patricia Pestana – Inglaterra

Eu recomendo fazer Doutorado-sanduíche e Pós-Doutorado fora do Brasil. A vontade de obter um crescimento cientifico e de conhecer novas culturas foi o que me levou a ter essas experiências internacionais. Ser exposta as novas tecnologias e usufruir de uma estrutura de pesquisa de ponta foi e está sendo uma experiência única. No Doutorado-sanduíche fui para Alemanha com bolsa CAPES no primeiro ano, e DAAD no segundo. Foi muito interessante aprender outra língua, conviver com uma cultura oposta à minha, e aprender técnicas que ajudaram muito no meu projeto de Doutorado. As dificuldades lá foram grandes, a barreira de um idioma completamente diferente, e principalmente estar longe da família e dos amigos foi duro. Mas, encontrei brasileiros que foram minha família no exterior. Amizades que até hoje eu cultivo. Hoje em dia, faço meu Pós-Doutorado em Londres, num Instituto e laboratório maior que o do Doutorado-sanduíche e está sendo fantástico! Estou aprendendo tantas técnicas diferentes e conhecendo colaboradores tão talentosos que tenho certeza que esses anos por aqui me facilitarão a montagem do meu próprio laboratório. Voltar para o Brasil levando para casa uma bagagem de conhecimento é o que mais me motiva para terminar o meu trabalho aqui. Com certeza vou carregar também as lembranças engraçadas, como por exemplo o dia em que fui convidada para um churrasco na casa do meu chefe alemão. Eu imaginava um típico churrasco, um evento informal, com muitas pessoas convidadas que chegam em horários diferentes e etc. Quando cheguei, com mais de duas horas de atraso, estava somente a família do meu chefe sentada à mesa. Eles me explicaram que eu era convidada única e que haviam desistido de me esperar para começar o jantar! Eu tive que comer sozinha – e muito envergonhada – as salsichas alemãs que sobraram!

Patrícia Pestana Garcez faz Pós Doutorado em Londres/Inglaterra financiado pelo Medical Research Council – UK. Fez 2 anos de Doutorado-Sanduíche em Jena/Alemanha financiado pela Capes/DAAD.

Gustavo Dubois – França

Desde pequeno, morar no exterior sempre foi um grande desejo. De natureza volátil e aventureira, as idéias de conviver com uma outra cultura, aprender uma nova língua sempre fizeram a minha cabeça. Quando descobri que na ciência eu poderia aliar este desejo ao aprimoramento do meu trabalho, não pensei duas vezes em ingressar nessa empreitada: fui aceito no programa de Doutorado em co-tutela entre as Universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pierre et Marie Curie (UPMC). Morar em Paris é um deslumbramento à cada esquina, por ser uma cidade do tamanho do homem, aqui encontro inúmeras paisagens e belezas separadas por apenas alguns passos (ou algumas estações de metrô). As vezes me perco e não sei definir se meu crescimento pessoal é maior que o profissional e vice-versa, mas acredito que no fim das contas estas duas modalidades estarão no mesmo patamar. Mas como nem tudo são rosas, morar em outro país não é uma situação trivial. Apesar de nunca ter sentido o peso direto do preconceito, já testemunhei alguns dos famosos rompantes indelicados e rudes do povo francês. Chega a ser engraçado: quanto mais enfurecido você está com alguém, mais polido você deve ser! Ainda vivo aqui, mas já conto nos dedos o momento de voltar para o Brasil. Apesar de ainda não ter finalizado a totalidade de minha estadia (de dois anos e meio ao todo) já posso tirar algumas conclusões: os brasileiros são o povo mais higiênico do mundo, Paris é absurdamente linda e nós brasileiros somos muito mais competentes e criativos do que imaginamos.”

Luiz Gustavo Dubois é aluno de doutorado da UFRJ e da UPMC. Faz atualmente Doutorado em co-tutela em Paris financiado pela CAPES/Inserm.

Sobre o autor: Praciência

Praciência é um novo espaço virtual, informativo, informal, bem-humorado, democrático e interativo sobre o que é fazer ciência. É um espaço para cientistas e não-cientistas. Um espaço para todos compartilharem conhecimento. Porque ninguém nasce sabendo tudo! Ninguém nasce de bigode! E por que não fazermos isso juntos e ainda com bom humor?