fofoca

Se uma informação parecer suficientemente legítima, ela não será checada, ainda que seja uma deslavada mentira, engano de boa ou má fé.

Isso vale para pessoas que não são profissionais da informação, que compartilham versos de Batatinha Quando Nasce, como se fossem de Drummond ou de Clarice Lispector.

Mas vale também para supostos profissionais da informação que, ao ler qualquer coisa em um blog, propagam aquelas informações em portais dando legitimidade a uma mentira.

Na torrente e na velocidade de notícias relevantes e irrelevantes e no volume de produção que um redator web precisa manejar, é muito fácil engazopar mesmo um site importante, de relativa credibilidade, com uma informação falsa.

Veja este caso, citado do livro A Dieta da Informação, que agora estou lendo:

Em uma tentativa de cortar gastos, jornalistas muitas vezes se tornam mais filtros do que repórteres, sucumbindo perante a enxurrada de informações manipuladoras que vem em sua direção e simplesmente repetindo o que foi dito pelas dezenas de consultores de relações públicas. Em vez de reportar notícias, simplesmente copiam o que está em um comunicado de imprensa e colam isso em suas histórias. É um tipo de plágio comercialmente vantajoso e permitido que chamamos de churnalismo.

Devo fazer uns parênteses para dizer que, em meus anos de jornalismo, nunca ouvi falar desse termo. Chamávamos de copiar release mesmo.

Adiante:

Em 2009, o cineasta independente Chris Atkins decidiu testar esse fenômeno. Ele trabalhou com uma pequena empresa de web design para preparar um site falso para uma agência de relações públicas e um falso produto cosmético para homens, o Penazzle, vendido por uma empresa falsa: a MaleBeautyDirect.com. Ele seria um tipo de tatuagem temporária a ser colocada no abdômen depilado de um homem.

Atkins enviou comunicados de imprensa a todas as grandes redações dos principais jornais do Reino Unido e fez com que pesquisadores desssem continuidade com telefonemas para cada membro-alvo da imprensa. No dia seguinte, The Sun, o maior jornal da Grã-Bretanha, apresentava uma história com a manchete “Nobbies Dazzlers” (algo como Elegância Fina) com 45% do texto extraído diretamente do comunicado de imprensa. Ele demonstrou o mesmo comportamento repetidamente, com uma história sobre um falso “cinto de castidade” que envia secretamente uma mensagem de texto ao namorado da garota quando ela o está traindo e com uma falsa história sobre como Larry, o gato do primeiro-ministro britânico, havia sido roubado de seu dono de direito. Em todos os casos, a história foi reproduzia pelos jornais sem verificação de fatos e em grande parte copiada e colada pela imprensa.

Leia a história aqui.

Trata-se de um problema comum – e não apenas dos falsários. Pesquisadores da Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha, descobriram que mais de 60% dos artigos de imprensa e 34% das matérias televisionadas são resultado de churnalismo.

Sabendo disso, você vai continuar acreditando cegamente no que lê só porque foi publicado pela Folha, pelo Globo, pelo Estadão ou por sua tia de Quixeramobim?

Em 2009, registrei a disseminação da notícia de que a Xuxa iria processar e fechar o Twitter, que iniciou em um blog sem relevância alguma, mas que, depois de ser publicada por um portal de notícias supostamente sério, se espalhou geometricamente. Leia aqui.

photo credit: Bindaas Madhavi cc

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!