Há poucos meses, ministrei duas aulas em momentos diferentes para pessoas diferentes, mas em ambas uma pessoa passou o tempo todo grudado no celular a despeito das minhas indiretas durante as aulas. É claro que essas pessoas não podiam ser sensíveis às minhas indiretas e isso por um único motivo: elas simplesmente não estavam me ouvindo.

A partir de então mudei a minha postura. Sempre no início das palestras/aulas/dinâmicas costumo sinalizar o comportamento esperado da platéia e continuo a fazê-lo. Entretanto, passei a incluir nos avisos recados sobre o uso dos celulares. Além do clássico pedido para que os celulares fiquem no silencioso, agora peço que não façam uso deles. Se houver alguma situação que justifique o seu uso, solicito que esta informação seja passada antes do início de cada atividade.

twitter

Por estes dias ministrei, junto com um colega mestre em jornalismo, palestras sobre midias digitais. Neste ponto pode até parecer contraditório falar de Internet, smartphone, tablet, Twitter, Facebook, Instagram, What’s up e afins e solicitar que os celulares permaneçam no bolso. E para justificar tal pedido uso dois argumentos: 1. que a palestra pode ajuda-los a usar melhor as midias digitais; 2. estamos dedicando – a platéia, o outro palestrante e eu – um tempo precioso de nossas vidas naquele lugar, e para que aquele tempo seja bem aproveitado é necessário que a atenção esteja voltada para a apresentação.

Costuma funcionar muito bem. Nas cinco vezes em que ministramos a palestra em apenas uma esqueci de dar o aviso, e o desempenho da platéia foi bem menos participativo – além de desagradável para nós, palestrantes.

Esse tipo de aviso pode parecer coisa de pessoas autoritárias e retrogradas que não entendem nada da superconexão atual. Contudo, parece que eu não sou a única a pensar desse jeito. Tiago Dória, especialista em mídias e tecnologias emergentes, escreveu no seu blog o seguinte:

“Um novo comportamento chamou a minha atenção nas últimas conferências que participei nos EUA. Talvez essa atitude chegue um dia ao Brasil.

Cada vez mais, mediadores de eventos e painelistas estão pedindo para que a plateia desligue os celulares e não fique tuitando durante as palestras. O mote “escute primeiro, escreva depois” ganha espaço.

É irônico isso acontecer. Os palestrantes e organizadores dos eventos eram, até então, os primeiros a incentivar que a audiência usasse “hashtags” específicas e publicasse tweets de forma frenética durante os painéis de uma conferência.”
Tiago Dória

Talvez, algumas apresentações sejam feitas para serem comentadas instantaneamente, outras para serem refletidas e comentadas em outros momentos.

Jaron Lanier em seu texto The End of Humam Specialness (O fim da excepcionalidade humana), descreve a seguinte situação:

“Recentemente, quando eu solicitei a estutantes para não tweetassem ou blogassem durante uma palestra, para que eles pudessem existir, eles se levantaram e aplaudiram” (tradução livre)

Parece que nós, palestrantes e platéia, estamos descobrindo o seguinte: se é para fazer uma apresentação sem platéia, prefirimos fazer outra coisa, como dar opinião em um blog ou ler um.

E você, caro leitor, o que pensa sobre o tema? Já passou por alguma situação dessas como palestrante ou platéia?

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Ps.: Convido-os a ler o texto completo do Tiago Dória que inspirou este texto: Desconecte-se do Twitter e desligue o celular, por favor!

Ps.2: Lembrei de mais uma situação desagradável que as vezes vem junto com o uso do celular: o sinal sonoro do teclado. Ele pode e deve ser desligado, independente de o palestrante permitir o uso de celulares durante a apresentação. Essa regra se estende para cameras fotográficas que fazem barulho ao serem manuseadas e abarca também apresentações artíticas que exigem silêncio para serem devidamente apreciadas.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.