Mexendo em meus papéis, encontrei uma página avulsa de uma revista Veja de janeiro de 1976. Nela uma resenha – ou crítica – do livro Catatau, de Paulo Leminski, escrita por Affonso Romano de Sant’Anna, quando do lançamento.
De início, chama a atenção por uma edição de autor ser resenhada por uma das revistas de maior circulação do país. Coisa que, hoje, duvido que aconteça.
Publico a íntegra como curiosidade para os fãs e os não-fãs de Leminski.
Porre Verbal
CATATAU, de Paulo Leminski, edição do autor; Curitiba; 213 páginas; Cr$ 50 cruzeiros (sic)
O motivo central deste livro é uma fantasia: o filósofo francês Renée Descartes convive com os sábios que Maurício de Nassau trouxe ao Brasil no século XVII, nascendo daí um confronto entre o pensamento cartesiano-branco-europeu e a natureza-tropical-erótica.
O curitibano Paulo Leminski, de 31 anos, casado, pai de dois filhos, que se apresenta também como professor de análise sintática, jornalista, redator de publicidade, músico e poliglota (fala dez línguas, inclusive o tupi e o russo, além de estudar sânscrito), alistou-se nas vanguardas poéticas desde que, há oito anos, iniciou o seu “Catatau”. Em círculos curitibanos já se falava há tanto tempo nesse seu livro que ele passou a ser conhecido como “El Escorial Literário”. Leminski que se autoconsidera “um poeta renascentista perdido na sociedade de consumo”, pedia sempre um “pouquinho mais de paciência”. Agora, finalmente, apresenta seu livro, dedicando-o aos poetas concretistas Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. São 213 páginas corridas numa linguagem entre a prosa e a poesia, tentando, talvez, realizar em 1975, no Brasil, o “Finnegans Wake” que o irlandês James Joyce compôs em 1939. Para tanto, esse autor, que nunca completou um curso universitário, lança mão de um variado conhecimento de línguas eslavas, clássicas e latinas, adquirido em muitas madrugadas, e compõe um texto sofisticado nos detalhes, embora discutível como proposta geral. Tem-se a impressão de que desejou começar onde Joyce acabou. E isso talvez não seja possível. Cada autor deve começar no seu princípio e não no fim de outro.
Vanguarda e balística – Onde estão as virtudes deste livro estão também os seus pecados: a marca não apenas Joyceana, mas a sua diluição, feita por Haroldo de Campos em suas “Constelações” (1963). Se surgisse há quinze anos, “Catatau” estaria num contexto vanguardista propício. Hoje seria um texto envelhecido precocemente ou algo para ser retomado daqui a alguns anos, quando ocorrer um retorno das vanguardas formalistas.
Claro que se fosse escrito em espanhol e seu autor fosse um latino-americano residente em Paris, esta obra correria mundo. Mesmo sendo um livro preciosista e não fazendo um discurso político-estético vinculado ao momento brasileiro, é superior à média de autores traduzidos para o português. Mas há um erro de balística no lance de dados (para usar uma linguagem mallarmaica) ou um erro de chute estético (para manter o tom esportivo): o jogador foi muito bem treinado, driblou direito, mas atirou tão violentamente que a bola passou altíssima, desorientando a platéia. Neste sentido, Leminski é um dos maiores talentos passíveis de recuperação na literatura brasileira. Está do lado oposto ao de João Antônio, vítima, talvez, de um irrecuperável sucesso.
Curtição de Orfeu – Por pouco Leminski poderia ter realizado nesta década uma nova “Invenção de Orfeu” de Jorge de Lima. Ou melhor: a curtição de Orfeu, pois o livro está impregnado do estilo tropicalista irônico através de efeitos como esses: “Laoaconteceu”, “Desapossesse-se” ou “Loucopletou-se”. Isto lembra o Caetano Veloso de “Ama com fé e gorgulho os pais onde Maciste”, que aprendeu com John Lennon, que aprendeu, de novo, com Joyce.
Livro sem centro, apesar de circular, “Catatau” é um moto contínuo lingüístico. As palavras caminham numa loucura orféica. Como a sua personagem coronel Cristoff Artyschewsky, o autor também está bêbado – de palavras. Daí se perguntar no final: “Bêbado, quem compreenderá?”
Curiosamente, a essa resenha segue-se uma outra, sobre o livro Poesia Sobre Poesia, do próprio Affonso Romano de Sant’Anna, autor também do texto acima.










