A Casa de Minha Infância, de Luis Nassif

O meu amigo Thássius, divulgando a editora Agir, enviou-me dois livros.

Um deles é o Cartas da Prisão de Frei Betto, de que falarei mais tarde.

No outro, A Casa da Minha Infância, de Luis Nassif, encontrei um pequeno relato biográfico da vida do playboy Baby Pignatary, neto de Francesco Matarazzo:

Solto novamente, Baby retomou sua carreira de conquistador internacional, tendo um caso rumoroso com Linda Christian, ex-Tyrone Power. Foi um caso tumultuado, com direito a troca de sopapos em público e um fim de caso inesquecível: da suíte de seu apartamento, no Hotel Excelsior, em Copacabana, Linda é acordada por uma passeata de vinte táxis lotados de mendigos, portando cartazes onde estava escrito “Linda, Go Home”.

Sobre a história do fim de caso entre Baby Pignatari e Linda Christian, encontrei um relato na Time (em inglês) que me faz crer que ela não foi muito feliz com os homens brasileiros.

Para se sair bem da história dos mendigos, ela disse que estaria no Brasil para ver outro homem que não o playboy. Na verdade, um certo farmacêutico chamado Dirceu Fontoura (filho do criador do tal Biotônico Fontoura). Depois de ir ao iate do outro, afirmou à imprensa que teria recebido uma proposta de casamento. Fontoura negou e ainda afirmou que ela era boa com brincadeiras dessas e de outros tipos.

Mas o que esperar? Talvez Fontoura, a exemplo de Pignatari, fizesse parte do Clube dos Cafajestes:

Com o fim da guerra, em 1945, Carlinhos Niemeyer entrou para a viação civil, onde conheceu sua alma gêmea: Carlos Eduardo Oliveira, o comandante Edu, também ex-FAB. Juntos, eles criaram o Clube dos Cafajestes, uma instituição de boemia carioca. Os Cafajestes eram um grupo de rapazes entre 25 e trinta anos, alegres, mulherengos, bons de copo, criativos e corajosos. Quase todos tinham curso superior, trabalhavam e falavam línguas (nada a ver com os marombeiros de hoje). Sua base de operações era Copacabana, mas suas estripulias cobriam a cidade. Andavam juntos o ano todo e, no carnaval, abafavam: suas festas a fantasia eram as mais disputadas da cidade, com bebida, orquestras e mulheres no superlativo. Brigas também, a maioria provocada por gente de fora – porque só quem não os conhecia ousava desafiá-los. Armados apenas com os punhos e um ou outro caco de garrafa, os cafajestes enfrentavam até o choque da Polícia Especial. (…) Depois, muitos boêmios, por serem amigos de um ou de outro da turma, começaram a dizer-se membros do clube (como o milionário paulista Baby Pignatari, que praticamente comprou seu ingresso no grupo). (Fonte)

Para falar sobre o livro A Casa de Minha Infância, no entanto, ninguém melhor para falar do que o próprio autor:

Outro personagem importante que está presente no livro de Nassif é o maestro Waltel Branco que, quando o entrevistei, eu era imaturo e por demais ignorante para entender a sua grandeza. Para você, eu poderia dizer que ele foi aluno de André Segóvia, concunhado de Quincy Jones e outras coisas.

Mas o que você vai achar mais legal é que esse sujeito nascido em 1929 em Paranaguá foi o arranjador da trilha sonora do filme A Pantera Cor de Rosa.

Não basta?

Fez todos os arranjos do Chega de Saudade, de João Gilberto, seguindo o método peculiar do violonista. João Gilberto o chamava, mostrava a harmonia que desenvolvera ao violão, e Waltel a seguia para o arranjo, como se cada instrumento seguisse uma corda.

Chega? Tem mais:

Tempos atrás, seu amigo Fidel Castro ficou chateado com o Buena Vista Social Club de Win Wenders, por suas distorções musicais (parênteses do editor deste blog: deve ter ficado chateado com a viagem dos músicos aos EUA), e incumbiu o maestro Leo Brower de providenciar uma nova versão, mais autêntica. Quem Brower convoca para a empreitada? Entre outros, Waltel Branco.

No livro de Nassif, é notável também o depoimento O Incrível Índio Tabajara, em que Nassif transcreve as palavras de Natalício Moreira Lima:

Natalício Moreira Lima, o solista do duo Índios Tabajaras, mora em Nova York, perto do Central Park. Com seu irmão Antenor foi sucesso internacional nos anos 1960 e 1970. Em 1963, sua gravação de “Maria Elena” superou 1,5 milhão de discos vendidos, desbancando os Beatles na lista dos mais vendidos.

O relato é incrível e poético.

Creio que uma das coisas mais interessantes do livro de Nassif são esses personagens que, mesmo tendo existido, parecem ter saído da imaginação do cronista. Dizem que a memória, às vezes, tem melhores cores que a imaginação.

Talvez o título da coletânea seja justamente por isso: nossa casa – da infância ou não – é formada não apenas de paredes, mas do que vimos, do que lemos e do que ouvimos.

Postado em Lançamentos.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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