gato miando

O meu amigo Alex Castro escreve, entre tantos outros sites, no da Revista Forum, sobre os temas que lhe são caros. Não tenho certeza se foi exatamente isso, mas suponho que tenha sido justamente o artigo em que ele declara não poder ter o protagonismo das causas que defende, por não ser originado dos segmentos com os quais tem empatia, que passou a ser acusado por pessoas desses mesmos segmentos de tentativa de roubar o protagonismo. Eis o artigo:

http://www.revistaforum.com.br/outrofobia/2014/07/22/o-papel-das-pessoas-privilegiadas/

De fato, ele se declara homem, heterossexual, cissexual, nascido em uma família rica (embora hoje não seja rico) e branco.

E em todo o texto acima linkado ele fala da importância de reconhecer esses privilégios, exercer a empatia com aqueles que não os têm – e enfrentam toda a sorte de dificuldade por isso – e absorver o discurso dessas pessoas como legítimas portadoras das vozes que devem ser ouvidas.

Acredito que houve uma leitura equivocada deste texto. Ele está falando sim em nome daquelas categorizações privilegiadas e não pode falar de outra posição, pois nasceu nelas. De maneira alguma o Alex fala EM NOME dos desprivilegiados, mesmo porque seria impossível. Ele assume sua posição e busca uma voz que expresse situações que considera injustas do SEU ponto de vista. É um ponto de vista incompleto? Sim. Ele não é negro, nem mulher, nem trans, nem homossexual. Mas expressa as perplexidades que qualquer pessoa com empatia pelos outros deveria ter.

O fato é que ele está sendo acusado justamente de, ao falar na internet – uma mídia que não tem um espaço limitado – roubar o lugar de pessoas que poderiam, realmente, falar com mais legitimidade. Sim, repito, poderiam tratar desses temas com mais legitimidade.

Mas o Alex não precisa ser excluído da cena para que elas também tenham voz e certamente uma voz mais autêntica que a dele. Dar o microfone não significa calar uma voz harmônica quando há oportunidade de que todos falem. Gente, é internet, não telégrafo, onde só cabe um dedo de cada vez. Estamos no século 21, se não me engano.

Não sei se é a melhor ideia excluir aliados. Tenho evitado ler os posts de pessoas mais exaltadas. Algumas já bloqueei até. Mas já ouvi falar de pessoas pensando em agredir fisicamente o meu amigo. Talvez seja mais inteligente e uma atitude menos pautada pela emocionalidade (que estupidifica) manter a voz dos aliados (ainda que oriundos de um cenário privilegiado) e incluir os verdadeiros protagonistas.

Estou admirado que tantas pessoas que sofrem de exclusões em diversos âmbitos estejam reproduzindo esse comportamento e não, ao contrário, buscando incluir.

Além disso, a coisa evoluiu para um discurso de ódio e agressão que não faz o menor sentido. Existem muitas pessoas – privilegiadas ou não – que adotam causas legítimas como mero pretexto para extravazar seu ódio e sua incompreensão do outro, como se boas intenções justificassem agressões gratuitas.

Para mim é óbvio que há um enfraquecimento dessas causas quando se despreza alguns de seus melhores aliados. Se você trata mal quem é simpático a sua causa não espere trazer para seu lado aqueles que ainda não se decidiram.

Que dizer daqueles que, ao contrário, já não são favoráveis a estes discursos, que ganham em força com isso?

Consternado com a injustificada e violenta campanha de repúdio ao amigo Alex Castro vinda de segmentos dos quais ele caminha lado a lado numa postura mais de ouvinte e de aprendizado do que de professor.

Uma campanha marcada pela emocionalidade, incompreensão e pelo discurso excludente. Marcada inclusive pela calúnia que diz que ele ganha dinheiro com sua coluna na revista – não ganha – e com cursos sobre feminismo e outros (os cursos do Alex, além de terem ampla possibilidade de gratuidade, não têm esse escopo).

Estou ainda mais consternado pelo silêncio dos que se dizem amigos e que silenciam enquanto veem ele ser atacado por pessoas raivosas – repito: desprivilegiadas e privilegiadas -, que se valem de causas mais do que justas como mera válvula para sua sanha.

Se você é amigo dele, pode dizer algo aqui: https://www.facebook.com/groups/744582452247032/

photo credit: Adn! via cc

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!