Meu caro amigo,
pede-me veentemente notícias minhas e, confesso, tenho sido um tanto reticente nas últimas semanas. Talvez minhas vagas comunicações sejam fruto da intensa quantidades de informações que gostaria de passar-lhe e, ao tentar, me frustro.
É que tenho aprendido aos 10 coisas dos 20, aos 30 coisas dos 40 e creio que aos 40 anos de idade, não será diferente. Tenho me adiantado, por assim dizer. E esse tipo de coisa, que gostaria de dizer a você, só se diz em caminhadas silenciosas, dessas em que um de nós de vez em quando aponta um passarinho que nem um nem o outro tinha visto antes e, ainda assim, apenas se resmunga alguma coisa. E continua-se o passeio. Os dois meio emburrados mas felizes.
Uma dessas coisas que tenho aprendido é que não devo me preocupar muito com o que acontecerá quando eu for memória. Afinal de contas, quando eu for, não estarei aqui para me lamentar ou para comemorar a boa ou má imagem que deixei.
Não sei bem onde, então, estarei. Ou se esse verbo – estar – terá cabimento. A memória é uma preocupação dos que ficam, portanto. E o esquecimento é o legado de todos, mais dia menos dia. Mais século menos século, que seja. Até as pedras. Elas só não esquecem porque nada têm para lembrar. E, lembradas, somente as pedras que permanecem. Isso não é para quem é feito de carne.
As minhas certezas no momento – e limito o que chamo de certeza às restritas e incertas cercas humanas – se estendem ao cumprimento de um braço, na direção daquela que deita ao meu lado. Se o que digo hoje pudesse valer algo na história de bilhões de anos do universo, a única coisa que gostaria de dizer é que eu estivesse junto dela mesmo até o fim da vida e até para o que estiver para além da vida. E se o que estiver para além da vida for tão somente inconsciência, ainda assim quero estar ao lado dela nessa inconsciência.
Creio que tantas uniões se frustram porque na hora, na igreja ou seja lá onde for, falta um complemento para aquelas afirmações: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, etc, etc. Na consciência e na inconsciência. Se você não está disposto e feliz por viver na eternidade com alguém, mesmo no imponderável, há uma maior possibilidade de não conseguir conviver com essa pessoa durante o curto período de uma vida humana.
Mas acho que, para nós, falta a idéia do que seria a eternidade.
Pois bem. Dito isso, esfrego a lâmpada para que apareça o gênio. Costumo formular os pedidos antes. Assim evito de, quando surge a oportunidade, titubear, balbuciar e não saber o que quero. Tenho evitado hesitar.
Esses dias fui ao médico. E, pela primeira vez em toda a minha vida, era um médico mais jovem que eu. Apenas uns cinco anos mais jovem, no máximo, entenda-se bem. Mas mais jovem.
Até então, para mim, médicos eram pessoas mais velhas a quem meus pais me levavam. Eram pessoas a quem a idade conferia a confiança de que eu precisava em algum momento incômodo.
Notei nele um muito discreto e delicado ar de condescendência – que miseravelmente se costuma ter com as pessoas mais velhas – e, por outro lado, um sutil cuidado, uma diplomacia pessoal – como se ele tivesse que se justificar por ser ao mesmo tempo médico e jovem. E por eu ser obviamente mais velho que ele, ainda que pouco.
Talvez temesse que, por isso, eu não confiasse devidamente minha dor de garganta a ele. Explicava-me esse simples problema com um detalhamento até exagerado. Tirou um modelo plástico de pescoço de dentro do armário e dissecou-o até que chegasse à região onde estaria minha inflamação, apontando-a com uma caneta de aparência cara.
Por fim, receitou-me um anti-inflamatório. Que, depois de tantas justificativas, explicações, diplomacia e desculpas, vi-me compelido a comprar e tomar segundo a prescrição, não sem antes ler a bula e colar na geladeira a periodicidade com que isso deveria acontecer.
Pois bem.
Esfrego minha lâmpada novamente para que todas as minhas dores de garganta sejam apenas dores de garganta até o fim da vida. Na inconsciência e na inconsciência. Que eu nunca precise ser dissecado como aquele modelo de plástico, amém.
A verdade é que não me sinto velho. Não que uma pessoa de 33 anos – prefiro dizer que trata-se da idade com que Adão nasceu – devesse se sentir assim. Mas é que não me sinto com mais idade do que quando tinha 20 anos. E tenho a sensação de que isso deve se prolongar. Junto, a certeza da morte no entanto é a um só tempo uma crueldade e um alento. Por um lado dá a noção da humildade dos mais gloriosos gestos. Por outro, a grandiosidade das mínimas coisas. Um homem que vive sem ter conhecimento – conhecimento quase tátil da morte – ou é miserável ou dá tamanho maior que o verdadeiro a suas realizações. Talvez as duas coisas simultaneamente.
Não peço vida longa – ainda que eu acredite que a terei -, mas apenas essa consciência que chamarei sadia e feliz da morte.
Bem. Creio que esfreguei a lâmpada três vezes. Como consta no moderno mito de Aladin, esgotei os meus pedidos. Dizem que na história antiga, os desejos eram inesgotáveis. Onde foi que aprendemos a limitá-los tanto assim? E, ainda por cima, a três. Dois carregamos com uma mão e com a outra. E o terceiro, caso não tenhamos bolsos na ocasião? Onde ele vai? Não responda.
Se é assim, concedo-me um quarto pedido. O de que eles nunca se esgotem. E um quinto. O de sempre ter bolsos. Estendo esses dois a você.
Espero que tenha recebido esta mensagem com saúde. Felicidades é o que espera para você o seu amigo.
Abraços fortes
do Alessandro.









