Carta a um amigo distante
14 de março de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 6 Comentários »Meu caro amigo,
pede-me veentemente notícias minhas e, confesso, tenho sido um tanto reticente nas últimas semanas. Talvez minhas vagas comunicações sejam fruto da intensa quantidades de informações que gostaria de passar-lhe e, ao tentar, me frustro.
É que tenho aprendido aos aos 10 coisas dos 20, aos 30 coisas dos 40 e creio que aos 40 anos de idade, não será diferente. Tenho me adiantado, por assim dizer. E esse tipo de coisa, que gostaria de dizer a você, só se diz em caminhadas silenciosas, dessas em que um de nós de vez em quando aponta um passarinho que nem um nem o outro tinha visto antes e, ainda assim, apenas se resmunga alguma coisa. E continua-se o passeio. Os dois meio emburrados mas felizes.
Uma dessas coisas que tenho aprendido é que não devo me preocupar muito com o que acontecerá quando eu for memória. Afinal de contas, quando eu for, não estarei aqui para me lamentar ou para comemorar a boa ou má imagem que deixei.
Não sei bem onde, então, estarei. Ou se esse verbo – estar – terá cabimento. A memória é uma preocupação dos que ficam, portanto. E o esquecimento é o legado de todos, mais dia menos dia. Mais século menos século, que seja. Até as pedras. Elas só não esquecem porque nada têm para lembrar. E, lembradas, somente as pedras que permanecem. Isso não é para quem é feito de carne.
As minhas certezas no momento – e limito o que chamo de certeza às restritas e incertas cercas humanas – se estendem ao cumprimento de um braço, na direção daquela que deita ao meu lado. Se o que digo hoje pudesse valer algo na história de bilhões de anos do universo, a única coisa que gostaria de dizer é que eu estivesse junto dela mesmo até o fim da vida e até para o que estiver para além da vida. E se o que estiver para além da vida for tão somente inconsciência, ainda assim quero estar ao lado dela nessa inconsciência.
Creio que tantas uniões se frustram porque na hora, na igreja ou seja lá onde for, falta um complemento para aquelas afirmações: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, etc, etc. Na consciência e na inconsciência. Se você não está disposto e feliz por viver na eternidade com alguém, mesmo no imponderável, há uma maior possibilidade de não conseguir conviver com essa pessoa durante o curto período de uma vida humana.
Mas acho que, para nós, falta a idéia do que seria a eternidade.
Pois bem. Dito isso, esfrego a lâmpada para que apareça o gênio. Costumo formular os pedidos antes. Assim evito de, quando surge a oportunidade, titubear, balbuciar e não saber o que quero. Tenho evitado hesitar.
Esses dias fui ao médico. E, pela primeira vez em toda a minha vida, era um médico mais jovem que eu. Apenas uns cinco anos mais jovem, no máximo, entenda-se bem. Mas mais jovem.
Até então, para mim, médicos eram pessoas mais velhas a quem meus pais me levavam. Eram pessoas a quem a idade conferia a confiança de que eu precisava em algum momento incômodo.
Notei nele um muito discreto e delicado ar de condescendência – que miseravelmente se costuma ter com as pessoas mais velhas – e, por outro lado, um sutil cuidado, uma diplomacia pessoal – como se ele tivesse que se justificar por ser ao mesmo tempo médico e jovem. E por eu ser obviamente mais velho que ele, ainda que pouco.
Talvez temesse que, por isso, eu não confiasse devidamente minha dor de garganta a ele. Explicava-me esse simples problema com um detalhamento até exagerado. Tirou um modelo plástico de pescoço de dentro do armário e dissecou-o até que chegasse à região onde estaria minha inflamação, apontando-a com uma caneta de aparência cara.
Por fim, receitou-me um anti-inflamatório. Que, depois de tantas justificativas, explicações, diplomacia e desculpas, vi-me compelido a comprar e tomar segundo a prescrição, não sem antes ler a bula e colar na geladeira a periodicidade com que isso deveria acontecer.
Pois bem.
Esfrego minha lâmpada novamente para que todas as minhas dores de garganta sejam apenas dores de garganta até o fim da vida. Na inconsciência e na inconsciência. Que eu nunca precise ser dissecado como aquele modelo de plástico, amém.
A verdade é que não me sinto velho. Não que uma pessoa de 33 anos – prefiro dizer que trata-se da idade com que Adão nasceu – devesse se sentir assim. Mas é que não me sinto com mais idade do que quando tinha 20 anos. E tenho a sensação de que isso deve se prolongar. Junto, a certeza da morte no entanto é a um só tempo uma crueldade e um alento. Por um lado dá a noção da humildade dos mais gloriosos gestos. Por outro, a grandiosidade das mínimas coisas. Um homem que vive sem ter conhecimento – conhecimento quase tátil da morte – ou é miserável ou dá tamanho maior que o verdadeiro a suas realizações. Talvez as duas coisas simultaneamente.
Não peço vida longa – ainda que eu acredite que a terei -, mas apenas essa consciência que chamarei sadia e feliz da morte.
Bem. Creio que esfreguei a lâmpada três vezes. Como consta no moderno mito de Aladin, esgotei os meus pedidos. Dizem que na história antiga, os desejos eram inesgotáveis. Onde foi que aprendemos a limitá-los tanto assim? E, ainda por cima, a três. Dois carregamos com uma mão e com a outra. E o terceiro, caso não tenhamos bolsos na ocasião? Onde ele vai? Não responda.
Se é assim, concedo-me um quarto pedido. O de que eles nunca se esgotem. E um quinto. O de sempre ter bolsos. Estendo esses dois a você.
Espero que tenha recebido esta mensagem com saúde. Felicidades é o que espera para você o seu amigo.
Abraços fortes
do Alessandro.
Serviço
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Caro amigo,
A ausência de notícias, menos que preocupação, traz a impossibilidade de trocar idéias. Infelizmente sabemos que notícias ruins são mais rápidas que qualquer correio.
Como temos pensamentos complementares todas as vezes que faltam perguntas imagino quais as que você faria para dar alguma tentativa de respostas.
Veja só, sinto que sou atrasado em relação ao tempo, parece-me aprender as lições da vida sempre com dez anos de atraso. Posso dizer hoje que estou na maturidade – cronologicamente falando – mas passo pelas dificuldades da juventude.
Talvez ajudado pela proteção recebida da família, pelo ambiente paroquial que sempre vivi, ou talvez pela dificuldade de adquirir conhecimentos com rapidez. Mas a verdade que você vai lépido e ligeiro, e eu cá. Fico com meus atrasos.
A pedra sem memória, traz lembranças dos tempos do paraíso. Ela guarda dentro de si lembranças de outros tempos, por não ter memórias ela guarda as dos outros. Assim como nós. Traz ainda lembranças de histórias antigas do Mar Cáspio, onde o povo que vivia a margem do rio Uzboi beijava as pedras, pois as considerava sagradas. E esse lirismo de um beijo na pedra serviu-me como ligação à memória dos tempos idos do paraíso.
Agradeço os desejos e os deixo intactos. Não preciso mais de bolsos. Aprendi a abdicar deles pela frustração que eles acarretam, pelas inimizades que eles criam e treino firmemente para me integrar à areia que formou aquela pedra, todas as vezes que um tempestade se aproximar no horizonte. Os berberes fazem assim e creio que é o melhor a fazer nessas circunstâncias.
Aprendo todo dia a brincar mais e mais. Estender a minha de criança através dos tempos, não pela longevidade, ela não importa muito, hoje – talvez – não sei, mas pela força que o viver transmite brincando.
E por isso e pelas notícias recebidas o convido para sentarmos juntos e rirmos muito de tudo que é sério e feito para se preocupar; e rir muito do que é hilário e feito para rir mais ainda. Para isso bastam dois lugares e dois cafés. Não esqueça de trazer tempo. Por favor.
Com abraços.
Djabal.
Resposta: Adorei a carta! Praticamente um espelho! Valeu, Djabal!
Sempre me perguntava porque esse não era o primeiro pedido,o de que eles nunca se esgotem.
Resposta: Na verdade, os desejos não esgotam. A vontade de realizá-los é que poda tudo. Sem falar no cagaço.
Abraços!
Pri, acho que há um componente filosófico aí. Alguém que queira poder pedir a vida inteira é alguém que terá, também, infinitas carência. Ao restringir os pedidos (e, por conseqüência, as realizações) a três, o autor pressupõe que o homem é quase completo e feliz.
Ademais, os pedidos feitos ao gênio não são como a wishlist da Amazon. :-)
Resposta: Meio budista isso, hein? Rs.
Que lindo… sabe, agora eu queria ter uma frase de algum escritor para poder colar aqui e não precisar não dizer nada. Mas não tenho.
Os pedidos que não couberem na mão você põe no coração. No final, são esses os que importa, não?
Há pouco li uma propaganda em uma revista. A propaganda: “porque contamos idade em anos e não em abraços que demos? em sorrisos? quantos sorrisos você tem?”.
A efemeridade da vida é sempre um bom tema. Mas as vezes tenho a impressão de que sabemos muito sobre isso. E por mais que saibamos que saber não é tudo, continuamos sabendo. E só sabendo.
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A carta do Djabal está linda!
Não importa a velocidade em que cada amigo ande. O importante é que continue andando. Se possivel as vezes andando em uma caminhada, lado a lado, em silêncio. (essa figura ficou ótima Alessandro! lembrou do texto “Amizade Sincera” da Clarice Lispector – aprendi um bocado sobre amizade com ele (ah, peguei na intenet há vários anos, espero que realmente seja da Clarice… rs).
Beijos
Se o tempo envelhecer o seu corpo mas não a sua emoção,você será sempre feliz.(Augusto Cury)
Na amizade soma mais quem divide como você tem feito, vai sempre sobrar espaço para mais e melhor,tenho certeza que na caminhada e no tempo você vai mudar para melhor.(essa é do meu coração para você )
Olha essa carta tem muito a ver com a minha realidade…..As vezes nos preocupamos muito,e muita das vezes com a pessoa errada!!!!!!!!