Estou lendo Morangos Mofados livro que é considerado a obra-prima do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996).

Durante a leitura o que mais me surpreende não é a escrita do autor – nada muito novo para quem já leu outros autores, e mesmo assim muito bom.

O que me surpreende na leitura do livro é o fato de Caio Fernando Abreu ter se tornado – junto com Clarice Lispector – o escritor mais citado das redes sociais.

Em Morangos Mofados, Caio escreve sobre sexo, homosexualidade, dor, angustia, loucura, drogas, amores que não deram certo, brigas, feridas… tudo isso envolto em muito sangue, vomito, pus, lágrimas, lama, fezes, esperma.

Quem acompanhou as redes sociais nos úlmos tempos já deve ter entendido o que estou querendo dizer. Se não tiver ideia do que falo, pode ver esta pesquisa que fiz no Google Imagens com as palavras “Frases Caio Fernando Abreu”.

Como um autor que escreve sobre temas pouco palatáveis para a maioria pode ter se tornando popular por ter milhares de fotos fofas acompanhadas por frases suas – ou ao menos que dizem ser suas – na internet?

Parece-me que só há uma explicação, a de sempre, aliás: praticamente nínguem lê os autores que cita na internet. Veja: não há mal em achar uma frase interessante em um livro e citá-la. Mas, temos que ter consciencia que ao fazer isso retiramos a frase de seu contexto. Por isso, antes de colocar a frase em uma foto bonitinha e compartilha-la nas redes sociais, que tal ler um pouco sobre o autor?

Caio Fernando Abreu em momento “trollando o Facebook”

Isso me lembrou de uma história que aconteceu comigo recentemente.

Estava conversando com um amigo que havia acabado de conhecer e quando a conversa passou pelo tema livros, ele perguntou se eu tinha indicações para lhe dar. Após fazer algumas perguntas sobre que tipo de histórias gostava e sugerir três ou quatro livros, perguntei se ele teria algum para me indicar.

É uma pergunta sincera, alguns dos melhores livros que já li foram descobertos assim. Então ele falou o seguinte:

– Olha, eu não li, mas está todo mundo falando bem desse, não sei ao certo o nome, mas era algo como tons de cinza.

– Ah, 50 tons de cinza? Você está ciente de que está me indicando literatura erótica? – perguntei.

– Não sabia – bastante sem graça.

Eu sei, o que eu fiz é maldade – não façam isso com seus amigos. Contudo veja o absurdo a situação: estava indicando um livro que não leu e do qual não tem a menor idéia do contéudo.

Obviamente eu não tenho o menor problema em receber indicações de literatura erótica. Entretando, vi problema em receber indicações para ler um livro por alguém que mal lembrava do nome do livro e não havia nem ao menos lido uma sinopse sobre ele.

E é isso que venho sentindo toda vez que uma frase de Caio Fernando Abreu aparece na rede com pessoas felizes ao fundo. Não quer dizer que o autor não possa ter escrito livros mais palatáveis, e nem que aquelas frases não possam estar no meio de seus textos.

Ele pode ter escrito e pode ter sido uma bela crônica de auto-ajuda. Mas se você ler Morangos Mofados vai perceber o quando isso faz pouco sentido.

E esse é um dos motivos pelos quais é importante ler livros: para não passar por ingênuo ao citar uma frase de algum autor.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.