Bodymod

Nice Kelly, 25 anos, trabalha em uma empresa que vende componentes eletrônicos onde a maior parte dos funcionários, incluindo os donos, são evangélicos. Com uma voz educada atende ao telefone com algo como: “Bom dia, em que posso ajudar?”.

Rafael Rodrigues de Lima, 21 anos e já com sua própria empresa, dentre os sete irmãos é um dos que melhor se dá com a mãe.
Rodrigo Ribeiro de Barros, 23 anos, faz odontologia na UFPR e se especializa em cirurgia buco-maxilo facial no Hospital Evangélico, convivendo com tradicionais experts do assunto diariamente.

Costa ou Dom Costa – como é, aos 41 anos, respeitosamente chamado no meio em que trabalha – tem seu estabelecimento visitado por pessoas que vêm de outras cidades em busca de seus serviços.

Nice enfeitou a panturrilha com uma cicatriz do tamanho de um palmo. Rafael tem quatro pontas de metal que lhe brotam da testa, além de múltiplos adornos na face e no corpo. Rodrigo, entre médicos e outros uniformes brancos, exibe tatuagens que cobrem seu braço direito. E Costa é um dos mais conhecidos tatuadores brasileiros.

Entre eles todos, poucas coisas em comum, a não ser as modificações corporais, em maior ou menor grau.

Cicatriz
Foi com a ponta seca de um compasso que Nice, aos 11 anos, fez o seu primeiro piercing. Perdeu a tarde inteira, sofreu, mas colocou o brinco no nariz. Na escola, foi uma sensação. Tinhas visto aquilo em algum lugar e fascinou-se. Foi fisgada, quase que literalmente, pelo mundo das modificações corporais.

O seu jeito de ser desautoriza qualquer teoria que associe modificações corporais radicais a pessoas agressivas. Com a mesma tranqüilidade que passa ao conversar, há cerca de um ano dirigiu-se a um estúdio fazer um branding. O branding é um processo pelo qual se faz uma marca na pele com um desenho pré-determinado com o uso de ferro quente. A pessoa que executaria a técnica desaconselhou. A scarification seria um processo muito mais preciso, uma vez que as queimaduras às vezes cicatrizam com formatos inesperados. Na scarification o desenho é feito com um bisturi.

Nice, no entanto foi além. Não ficou apenas nas linhas. O profissional lhe sugeriu uma técnica experimental em que além dos cortes uma parte de sua pele também seria retirada. Assim, duas metades de um círculo que compunha seu desenho ficariam, até a cicatrização ficariam, como se costuma dizer, no vivo.

Ela perdeu meio litro de sangue, aproximadamente. O processo foi executado sem anestesia, naturalmente. Houve alguma hipotermia. A motivação para tudo isso, segundo Nice, auto-superação. A vaidade não estaria na marca deixada em si, mas em um sentimento de poder interno.
Desde os 11 anos, quando usou seu primeiro piercing, ela perdeu as contas de quantos adornos usou no rosto e no corpo. Há quinze anos, não existia quem os executasse. Ela e a irmã, Rety, hoje com 23 anos, apelaram para um amigo do pai que era cirurgião plástico. Assim, uma saiu do consultório com um piercing na sobrancelha e a outra com um no septo. Sob alguma relutância do médico. Atualmente, Nice não tem nenhum que seja visível. É difícil conseguir emprego com eles em qualquer parte do mundo. Mas ela não se importa, pois em sua opinião, a coisa se banalizou e, de fato, até mesmo salões de beleza têm serviços de body-piercing. Se há dez anos um enfeite no umbigo arrepiava os cabelos até de supostos rebeldes, hoje não comove nem a velhinha da missa das sete.

Portanto, hoje, além de algumas tatuagens ocultas sob a roupa, Nice mantém um único piercing, no clitóris.

Nice Kelly, baterista, e Rety, guitarrista, fazem parte da banda Laura`s Problem. O processo de scarification foi gravado em vídeo e deve esta no clipe de uma das canções do primeiro CD do grupo.

Pontas
Rafael, o autor da scarification de Nice, tem o orgulho de ser o primeiro cidadão de Curitiba a portar transdermes. No caso, são quatro pontas que lhe saem pela pele na altura da testa que os desavisados chamariam de chifrinhos.

Ele fez um curso que custou US$ 8 mil para trazer a técnica para a cidade e seu estúdio, o Addiction Arts – que já trabalha com tatuagem, scarification e escalpe -, deve ser o terceiro do Brasil com essa especialidade. A fila de espera por enfeites como os de Rafael já chega a 20 pessoas. A colocação de cada transderme, implantado com uma pequena cirurgia, custa US$ 250. Implantes, que ficam ocultos sob a pele, formando um relevo também serão colocados pelo estabelecimento. Estes seriam mais seguros, uma vez que não fica nenhum orifício aberto, propício a infecções caso não haja o devido cuidado.

Duas vezes por mês, pelo menos, alguém procura Rafael para fazer uma cicatriz. O preço varia de acordo com o tamanho e a complexidade do desenho, a partir de R$ 50. Qualquer coisa que inclua escalpe, ou seja, retirada de pele, tem o preço a partir de R$ 200.

Ele tem diversos piercings, inclusive um genital, um branding, scarifications, além de tatuagens, duas delas no rosto. A mãe estranhou no início, mas hoje respeita o trabalho do filho e sua opção no que diz respeito às modificações corporais. Ele as fez por vaidade. Considera-se mais bonito com elas.

Rafael também pratica a suspensão. Com uma agulha de 4 milímetros a pele das costas ou de outra parte do corpo é perfurada em determinados pontos. Por esses orifícios um gancho é passado e o praticante é suspenso. O peso do corpo é sustentado unicamente pela pele e pelos cabos que o elevam. “A sensação é indescritível”, diz. “Quem vê pode se impressionar, mas dói muito menos que fazer um piercing.”

Rafael, que tem curso de enfermagem e de bio-segurança, acha que o Ministério da Saúde deveria estar mais atento aos estúdios de tatuagem e body-piercing. “Há muito picareta por aí”, diz. Para ele, deveria haver uma legislação mais específica e uma maior cobrança relativa à formação dos profissionais. Embora saiba que os processos de body-piercing nada tenham a ver com uma cirurgia, pretende cursar medicina para melhor defender a sua profissão no futuro.

Aceitação
O estudante de odontologia Rodrigo Ribeiro de Barros conta que, no meio médico, pelo menos, as tatuagens são coisa aceita normalmente. No Hospital Evangélico – onde estagia na especialidade de cirurgia buco-maxilo facial – conhece diversas pessoas que portam seus desenhos na pele.

De fato, a tatuagem deixou de ser uma insígnia de marginalidade para se tornar um símbolo de status. De acordo com o tamanho, complexidade do desenho e artista escolhido para sua execução, a dermo-pigmentação – como o processo de colocar cores na pele vem sendo conhecido atualmente – pode ultrapassar a casa dos milhares de reais.
Rodrigo tem em seu braço direito três caracteres japoneses que significam felicidade, amizade e força, além de, na parte interna do braço uma águia inca e um sol, este recém-tatuado. Os pais não gostaram da idéia. Por isso, ele esperou ter seu próprio dinheiro para fazê-los. Não deixa de ser um símbolo de sua independência.

Profissional
Falar em tatuagem em Curitiba hoje, é falar em Dom Costa, como é conhecido no meio, ou simplesmente no Costa, como é conhecido por seus clientes. Nunca fez curso de desenho e ou de técnicas de dermopigmentação, mas a qualidade de seus trabalhos chegou até ao exterior. Frequentemente viaja para outros países para participar de eventos. Seus trabalhos certamente são os mais caros da cidade, mas nem isso, nem a modéstia do pequeno estúdio próximo à rua Cruz Machado, impedem de que ele tenha uma agenda lotada seja no inverno, seja no verão. Ele tem clientes de outros estados e até mesmo integrantes do Jota Quest já se deslocaram para Curitiba para deixar a pele sob o cuidado de suas agulhas. Não raro, Costa recusa trabalhos que considere que, mesmo sob seu traço cuidadoso, venham a ter resultados aquém do esperado.

A primeira tatuagem fez em um hippie amigo seu, aos 16 anos. Para ganhar a vida, vendia retratos na Rua 15. Discretamente, uma pequena placa, que quase pedia para não ser vista, dizia: “Faço tatuagens.” Achava que era ilegal, daí a discrição.

As tattoos feitas à mão demoravam muito a serem acabadas. Logo precisou improvisar uma máquina caseira de tatuagem com um motor de autorama para dar conta do recado.

Como todo tatuador ele mesmo tem diversos desenhos em quase todo seu corpo. Mas pode-se classificá-lo numa ala tradicionalista das modificações corporais. Por exemplo, é a favor de não incluir nas feiras do gênero modificações como scarifications, brandings e afins. O receio é que o público misture tudo. “São coisas diferentes”, diz, considerando esse tipo de intervenção física muito radical e pouco estética. Deve-se no entanto observar que ele mesmo porta um piercing genital, ornamento considerado radical para boa parte do público. Sobre se esse tipo de piercing aumenta o prazer, diz ser lenda. Não melhora, nem piora. É apenas um enfeite.

Sua filha só se tatuou depois dos 21 anos. Mas há uma razão prática nisso. “Antes dessa idade, a pessoa não tem maturidade para escolher algo que deve durar a vida inteira em sua pele”, afirma. O filho também teve de esperar.

Outra mito que ele desfaz a respeito do mundo das tatuagens em Curitiba diz respeito a um personagem da cidade completamente tatuado, inclusive no rosto, que teria vendido sua pele à Yakuza, a máfia japonesa. Balela.

Acupuntura
Na hora de fazer um piercing na orelha pode surgir uma dúvida. Afinal, ali existem diversos pontos de acupuntura. O médico acupunturista João Mitsuhashi no entanto diz que dificilmente isso pode dar problemas.

A orelha tem 280 pontos de acupuntura. Na região em que se costuma colocar piercings estão os pontos do ombro, do cotovelo e do punho. Ainda assim, apenas se a pessoa já tiver uma predisposição a problemas nessas partes do corpo – isto é, se esses pontos já estiverem ativos por algum motivo – é que a jóia será determinante. O médico conta que recebeu em seu consultório uma garota que estava com dor no ombro. Com a retirada do estímulo, a dor desapareceu.
No tragus, aquela pequena saliência do lado de dentro da orelha, que pode ser apertada quando se quer tapar os ouvidos, a coisa é mais séria. Ali estão pontos mais nobres da acupuntura, ligados aos lobos cerebrais. “Quem quiser colocar um piercing aí deve procurar um acupunturista”, diz Mitsuhashi.

A primeira preocupação de quem faz uma perfuração na cartilagem, segundo o médico, deve ser com infecções pois, no caso de uma acontecer, a baixa circulação sanguínea desse tipo de tecido dificulta a chegada de antibióticos ao local atingido e, por conseqüência, o seu tratamento. Por esse motivo, a acupuntura nem utiliza agulhas nessa região, mas pequenas sementes, tamanho o receio de problemas.

Em outros pontos como mamilos e umbigo, as normas da acupuntura sequer permitem o uso da agulha. Nesses lugares, se necessário algum tratamento são usados outros métodos. O motivo é o mesmo: evitar infecções.

Postado em Outros.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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