Blogs podem fazer sua parte por uma Educação melhor

A inflação acadêmica é um dos principais conceitos levantados por Ken Robinson em sua palestra Escolas Matam a Criatividade.

Sempre que vejo essa palestra fico espantado como o professor consegue fazer caber humor, conceitos complexos, histórias emocionantes e, ainda, motivar o pensamento crítico quanto à Educação em apenas 20 minutos de fala.

Pois bem. Por inflação acadêmica entende-se o fenômeno gerado, por incrível que pareça, ao acesso generalizado à educação (ver 2’20” da segunda parte do vídeo).

Diz ele:

Nos próximos 30 anos, de acordo com a Unesco, mais gente vai estar se graduando através da Educação do que desde o princípio da História. (…) De repente, os diplomas não valem mais nada. Quando eu estudava, quem tinha um diploma tinha um emprego. (…) Mas agora os jovens graduados estão voltando para suas casas para jogar videogame. Porque é preciso ter um mestrado para ocupar a vaga que antes exigia bacharelado. É prechiso ter um PhD para ocupar a vaga que antes pedia mestrado. É um processo de inflação acadêmica. E ele mostra que todo o alicerce da educação está ruindo sob nossos pés.

Existem vários motivos para que eu esteja falando sobre Educação com você em um blog sobre blogs:

  • Educação não é apenas um tema fundamental da existência humana; é O tema
  • Blogs fazem – ou podem fazer – parte da solução de boa parcela do problema

O que entendo por Inflação Acadêmica

Conversando ontem com a mãe de minha namorada e com minha namorada, ambas educadoras,  e com o pai de minha namorada pude chegar a novas conclusões sobre a questão da inflação acadêmica.

Vamos pensar em inflação em termos de dinheiro.

De modo esquemático e simplista:

  1. Há pouco dinheiro
  2. O governo imprime mais dinheiro
  3. Há mais dinheiro agora
  4. Mas, agora, esse dinheiro vale menos
  5. Imprime-se mais dinheiro
  6. O dinheiro vale menos ainda
  7. etc

Por que isso acontece?

Porque o dinheiro não tem valor em si. O dinheiro tem valor baseado em algum tipo de lastro. Ouro, por exemplo. Sem isso, o dinheiro é apenas um papel com um número escrito. Ou um número na tela do seu computador quando você confere o internet banking. Dinheiro não existe apenas porque alguém ou um banco disse que ele é real (vide a recente crise de crédito).

O que me faz concluir – e aqui vou pular diversas etapas do meu raciocínio para ser mais breve – que o ensino hoje oferecido, a educação a que nós e nossos filhos temos acesso – não tem valor em si.

Temos mais universidades, temos mais graduações ao alcance, temos vestibulares o ano todo: mas eles valem cada vez menos. Do Jardim 1 ao Pós-Doutorado.

Não porque todos tem acesso facilitado a tudo isso. Todos devem ter acesso à educação. Isso é correto.

O problema, repito, é: as universidades, os mestrados e os doutorados estão perdendo valor em si. Falta-lhes lastro.

Educação: rasurada, rabiscada, rasgada

Uma cédula de dinheiro que vale pouco é mais facilmente rasurada, rabiscada ou rasgada. Os próprios usuários do dinheiro fazem isso. Acabam com ela.

O mesmo se dá com a Educação.

Imagine uma sala de aula com 40 alunos e um professor lá na frente, na árdua tarefa de ensinar algo que provavelmente interessa apenas a dois ou três dentre todos. Tanto maior o problema da inflação, tanto mais desvalorizada sua cédula, mais ele terá que se esgoelar.

É natural que o que ele tenta ensinar, boa parte das vezes, não gere interesse, muitas ocasiões nem o dele. Por quê? A resposta está na própria pergunta: o que ele tenta ensinar não parte do interesse dele ou dos alunos. Justamente.

O que ele tenta ensinar parte do interesse de uma estrutura social sobre a qual nenhum de nós, nem o mais poderoso de nós, tem controle.

Há solução?

Pensei, durante algum tempo mais sobre o tema. Como seria a educação se, de algum modo, as necessidades de nosso modelo econômico, não tivessem priorizado determinados tipos de conhecimento em prejuízo de outros.

Segundo Ken Robinson, hoje temos, mais ou menos, a seguinte hierarquia no ensino:

  1. matemática
  2. língua
  3. ciências
  4. educação física
  5. artes

Na última colocada, artes, temos:

  1. artes plásticas
  2. música
  3. teatro
  4. dança

E não há razão – a não ser as razões externas (aquelas sociais, sobre as quais nenhum de nós tem controle) -, não há razão para considerar a dança menos importante que a matemática. Ou o contrário.

Acontece que o lastro da educação – como convém o conceito de lastro econômico – está fora da educação. A matemática é mais importante, para ficarmos nesse exemplo, porque ela é importante funcionalmente para outra coisa que não é o maior interessado na educação.

Você.

Como seria se fosse

Então imaginei como seria a educação sem essas necessidades externas, as necessidades do que as universidades hoje costumam chamar de mercado.

Creio que, se não fosse isso, o processo educacional iria se dar mais naturalmente. As informações estariam disponíveis a todos. A cada instante eu buscaria os dados necessários para o meu ensino e, em algum momento, cada um de nós assumiria o papel de aluno ou professor.

Não haveria salas de aula. O aprendizado poderia se dar sem a necessidade de um espaço físico. O espaço de aprendizado é aquele que está ao alcance dos sentidos e das capacidades de quem aprende.

E é aí que entram os blogs. Bem como as demais mídias sociais.

Hoje eu vivo de blogs. Tudo o que eu aprendi para que isso fosse possível – mesmo a maneira como me expresso verbalmente – aprendi fora do processo tradicional de educação. Em nenhum momento das minhas duas décadas de bancos escolares aprendi a blogar. Não nego, no entanto, que através deles cheguei até aqui.

Mas não há dúvida de que, a partir do momento em que decidi e botei em prática o plano de viver de blogs, aprendi tudo aquilo que desejei aprender. De certo modo, ninguém foi meu professor e todos foram meu professor. As informações estão disponíveis. É como se tudo isso fosse uma grande massa de conhecimento. E não falo só da internet, embora ela tenha papel importante nesse processo – no meu caso em especial.

A questão da educação, agora e no futuro, é: desejo, busca, seleção e assimilação.

  • desejo: no sentido de lastro, de valor em si, para o indivíduo, daquilo que se aprende
  • busca: com a informação disponível deve saber-se buscar; afinal, onde ela está?
  • seleção: talvez seja esse o papel dos educadores do futuro, ensinar o discernimento
  • assimilação: a assimilação de um conhecimento que previamente se desejou é muito mais rápida, simples e eficiente

Talvez essa combinação (desejo, busca, seleção, assimilação; os educadores possivelmente tenham outros nomes), seja a solução para que a Educação volte a ter um valor em si.

Obviamente os blogs, com o compartilhamento de informações relevantes – ou mesmo com o modo como compartilham informações menos relevantes -, tem um papel fundamental e de grande responsabilidade nesse processo. Convido você a participar disso.

Postado em Blogs.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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