sorvete

Quando alguém defende um ponto de vista em termos de necessidade, é difícil eu conseguir seguir prestando atenção. São questões difíceis de rebater. “Quem precisa ler poesia?”, “quem precisa de sobremesa?”, “quem precisa comer carne?”, “quem precisa de namorado” e, recentemente de maneira constante, “quem precisa de copa?”. De fato, ninguém precisa. A vida segue sem sonetos, sorvete, bife malpassado, relações amorosas e gols da seleção.

O problema é que os paladinos do necessário se esquecem de que são perfeitamente prescindíveis não apenas os itens aos quais eles não dão muito valor. No duro, precisar precisar mesmo, nós precisamos de água, alguma comida, abrigo contra as intempéries, estrutura sanitária mínima, condições para a procriação e, provavelmente, conforto religioso. A humanidade perseverou por milhares de anos sem penicilina. Quem precisa de antibióticos?

As coisas necessárias não chegam a fazer a vida valer a pena. Meu ponto de vista – de palpiteiro de boteco, não de cientista, fica evidente – é que, polegar opositor à parte, o que distingue majoritariamente os seres humanos das outras espécies animais é o fato de nossas ações se guiarem antes pelo conforto, pelo prazer e pela beleza do que pela necessidade.

Só o desnecessário explora todo o potencial de nossos sentidos; no desnecessário está o presente de Deus aos homens.

Entre as ocupações humanas dedicadas ao desnecessário, a arte ocupa um lugar todo especial. Os engenheiros fazem pontes, essa invenção maravilhosa, por isso os louvamos. Nós não precisamos daquela ponte, passávamos bem antes de ela existir, mas, nossa, como a ponte nos economiza esforço, facilita a vida. Os artistas, além de desnecessários, são inúteis. De quebra, complicam a existência, levantam questões sobre questões, potencializam angústias, usam o sofrimento como matéria-prima e não dão respostas para nada.

Estranhamente, sem nos oferecer nada de útil ou necessário – apenas beleza, prazer, abertura das “portas da percepção” e possibilidades de confronto interior –, os artistas permanecem queridos e amados, independentemente de suas condutas pessoais, muitos anos depois da morte.

E o mundo inteiro cultua Sófocles, Shakespeare, Goethe, Homero, Dante, Camões, Fernando Pessoa, Cervantes, Dostoievski, Tolstói, Proust, da Vinci, Monet, Van Gogh, Picasso, Michelangelo, Rodin, Dalí, Bach, Beethoven, Mozart, Verdi, Maria Callas, Caruso, Anna Pavlova, Nijinski, Isadora Duncan, Charles Chaplin, Orson Welles, Ingmar Bergman, também Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Fred Astaire, Frank Sinatra, Gershwin, Cole Porter, Tom Jobim – e, por que não?, Garrincha, Jesse Owens, Emil Zátopek, Ayrton Senna…

Muitas pessoas sonham com seus filhos se tornando médicos, engenheiros e advogados. Há boas razões para isso: são profissões essenciais, nobres e prestigiadas. Mas não é curioso que a posteridade prefira lembrar os inúteis e desnecessários? Quantos nomes de médicos, engenheiros e advogados mortos você conhece? Enfim, uma questão boba, ser lembrado para além da vida não é necessário, tampouco útil.

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.