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Batel Soho: um lugar que não existe em um bairro que não há

18 de abril de 2009 | Publicado na Categoria Outros assuntos | 18 Comentários »

Um famoso cardiologista que trabalhava no Hospital Angelina Caron, na Região Metropolitana de Curitiba, respondeu ao ser perguntado se gostaria de trabalhar em outro país:

- Nada mais provinciano que querer sair da província.

Nada mais provinciano que tentar negar suas origens.

Afirmá-las sem se fechar às influências do tempo e das novas culturas, no entanto, é o que se pode chamar do máximo do refinamento.

Recentemente, criou-se aqui em Curitiba essa história de Batel Soho. O Batel Soho é uma idéia da Associação de Comerciantes da Região da Praça da Espanha (Ascores) para designar uma região que inclui uns 10 quarteirões em torno da simpática Praça Espanha.

No que me diz respeito, eles podem designar o que quiserem daquilo que bem entenderem mas, pessoalmente, não compro a idéia.

Estou certo de que a aposta de sucesso – que será atingido, não tenha dúvida disso, pois a idéia em si é interessante – gira em torno de iniciativas similares como a Soho Hong Kong, na China, e o Palermo Soho, na Argentina. E também ao redor do deslumbramento que a palavra SoHo parece ter o poder de causar.

O que talvez os deslumbrados de sempre desconheçam é que Soho é um termo que surge da união das iniciais de South e Houston. Em Nova York, SoHo é a região que fica ao sul da Rua Houston. Daí o nome.

Creio, porém, que o sucesso do Soho original se deu de forma orgânica e natural e o que tentamos fazer é o caminho inverso. Coisa sempre meio jacu, diga-se de passagem.

É notável, no entanto, que a Praça Espanha originalmente não fique no Batel. Ela está situada em um bairro chamado Bigorrilho, vizinho ao Batel. Por motivos similares, Inglaterra e Argentina entraram em guerra na década de 80 a fim de descobrir se uns terreninhos perdidos no meio do oceano se chamavam Malvinas ou Falklands.

Mas não imagino moradores do Batel e do Bigorrilho arrancando os paralelepípedos das ruas, diante de uma polícia atônita, partindo para a briga para descobrir a quem, afinal, pertence o Soho da Capital das Araucárias, aos gritos de guerra tais como: “Mim Curitiba! Mim muito-pinhão! Mim muito-pinhão!”

O bairro Bigorrilho, por sua vez, parece ter um nome não muito vendável, ao menos aos ouvidos das imobiliárias, que preferem chamá-lo de Champagnat, para melhor acomodar os fregueses do Batel Soho.

Nas décadas de 1970 e 1980, o bairro transformou-se em uma espécie de paliteiro das construtoras que enfiaram ao longo de sua principal avenida mais edifícios do que permitiria a sensatez.

Na melhor das hipóteses, o Soho curitibano seria chamado de Champagnat Soho. Talvez este nome tenha sido evitado para esquivar-se da dupla dificuldade: um lugar inventado em um bairro cujo nome autêntico não é esse. Afinal, nem passou pela cabeça de algum comerciante chamar a invencionice de Bigorrilho Soho. Assim, estrategicamente, cedeu-se o posto avançado de comércio ao bairro vizinho.

Temos portanto a seguinte situação: um lugar inventado (Soho), num bairro que não existe (Champagnat), emprestado a um bairro ao qual não pertence (Batel). É desse tipo de material que os sonhos de consumo são feitos.

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18 Comentários para “Batel Soho: um lugar que não existe em um bairro que não há”

  1. Caminhante - 18 4 2009 às 18:07

    Eu nem sabia que Batel Soho era nome de bairro. Eu achava que era alguma associação de decoradores, um evento que envolvia certas lojas, coisas assim.

  2. Alessandro Martins - 18 4 2009 às 18:15

    Acho que está mais para isso mesmo, Caminhante. Mas note que, no texto, em nenhum momento eu chamo o Batel Soho de bairro.

    Beijos do Ale.

  3. Anny - 19 4 2009 às 8:43

    Bom dia Ale!
    Este nome parece que acompanha mesmo o sonho de consumo das pessoas. Até aqui em Salvador tem um. Hehe!

  4. Maria Thereza - 19 4 2009 às 12:08

    rá, te achei também! Batel sempre vai ser muito mais rentável do que Bigorrilho ou Champagnat. mas nem sabia que estavam discutindo isso, aprendi uma coisa nova no seu blog! haha

  5. Alessandro Martins - 19 4 2009 às 13:39

    Pois é, Maria Thereza…

    … na verdade, acho que nem há discussão mais a este respeito. O a idéia em si até que é legal: http://migre.me/ysp … Mas acho que o nome prejudica bastante.

    Ainda bem que não é oficial. No caso do Bigorrilho, houve até proposta de que se mudasse oficialmente o nome do bairro há algum tempo. Mas não foi acatada.

    Beijos do Ale.

  6. Mariana Sanchez - 19 4 2009 às 23:40

    Alessandro, deliciosa sua crônica! Só sendo invisível em Curitiba, como nos ensinou o Snege, para frequentar bairros que não existem, rebatizados com nomes inventados. Com muito orgulho nasci no Campina do Siqueira, me mudei pro Bigorrilho e hoje moro no Cristo Rei – que andam querendo chamar de “Jardim Botânico”, claro.
    Soho Batel é a ideia mais provinciana que Curitiba já comprou. Depois de tantos rótulos propagandísticos ostentados pela cidade, só nos faltava esse. Parabéns pelo texto, abraços!

  7. André Sala - 22 4 2009 às 21:08

    Ei, Alessandro, acho que só nessa crônica você acabou escrevendo a melhor campanha publicitária para divulgar o “novo” bairro:

    “Um lugar inventado, num bairro que não existe, emprestado a um bairro ao qual não pertence”. Legal!

    O final do parágrafo é ainda mais arrebatador: “É desse tipo de material que os sonhos de consumo são feitos”.

    Muito legal, Alessandro, eu que nunca tinha me interessado por essas invenções da especulação imobiliária estou até pensando em adotar o nome. Minha única dúvida é na pronuncia: Se fala “Sôrro”, “Zôrro”, “Sô-o” ou apenas “Soro”?

  8. Alessandro Martins - 24 4 2009 às 14:24

    André,

    acho que o texto serviu mais de propaganda do que outra coisa. Sou assim: mesmo quando critico acabo ajudando. No fundo, o projeto é bacana. Apenas não gostei do nome e dos sentimentos que há por trás dele.

    Abraços do Alessandro.

  9. Juliano Zanardini - 8 5 2009 às 5:33

    Caro Alessandro,

    Concordo integralmente com sua opinião. E também ressalvo que não me oponho de forma alguma à criação de uma nova vocação para um determinado espaço no tecido da cidade. Ainda que as razões mais fundamentais sejam as de especulação imobiliária, às quais não considero exatamente “nobres”, devo reconhecer que no final das contas o projeto não trará, aparentemente, nenhum grande mal para aquela região.

    Já o nome não podia ser mais infeliz…

    Longe de me considerar um purista da língua portuguesa, até porque o português falado no Brasil é uma bela mistura com línguas indígenas e africanas, este “estrangeirismo” inglês era absolutamente desnecessário. Se querem um nome novo, que tenha pelo menos relação com a história do lugar. Isto foi um menosprezo à nossa cultura. Mas não de todo surpreendente, basta ver os nomes de qualquer condomínio de luxo pela cidade… nenhum faz referência à alguém ou algo nacional… (se alguém souber de algum, me mande o endereço porque quero ir lá pessoalmente fotografar esta raridade)

    E como a vocação do blog é livros, sua definição: “Um lugar inventado, num bairro que não existe, emprestado a um bairro ao qual não pertence” parece ter saído de um livro chamado ‘As Cidades Invisíveis’ do Ítalo Calvino. Caso você ou algum dos leitores do blog não conheça, trata-se de uma ficção na qual Marco Polo descreve cidades que só existem na sua imaginação ao imperador Kublai Khan. Nesta ficção o Grande Khan jamais teve tempo de conhecer toda extensão de seu império e Marco Polo, como seu secretário e para satisfazer a curiosidade do imperador, descreve para ele dezenas de cidades que estariam dentro do império. Cidades, absurdas, fantásticas, estranhas, surreais… Cada cidade é um capítulo, uma pequena crônica.

    Lembro-me especificamente de um capítulo cuja descrição de uma determinada cidade – não me lembro o nome exato dela – é repetidamente adjetivada como ’sublime’. E ele conclui o capítulo neste termos: “(a tal cidade) é sublime até mesmo quando caga”… Não preciso explicar porque me lembro desta história quando penso em determinados aspectos de Curitiba, certo?

    Não vejo mal algum que surjam novos bairros, afinal as cidades são ‘dinâmicas’. Este Batel Soho, não é um bairro. Ainda. Mas pelo que depender da intenção de muitos, será. Tal como ouvi nas palavras de uma arquiteta outro dia: “Está nascendo um novo bairro em Curitiba, o Batel Soho…”

    Mas pelo prazer de estar na contramão vou chamá-lo doravante de “Bigorrilho Soho” como você sugeriu. Só espero que em represália os partidários do tal ‘Soho’ não resolvam rebatizar o Centro como ‘Downtown’, Santa Felicidade como ‘Little Italy’, Atuba e Tarumã como East Side… (Não dá idéia, Juliano!!! Não dá idéia!!!…)

    Abraços!

    Ps.: Aos que me lêem, perdôem-me meu texto que em parte está em português arcaico. Não se trata de ‘provincianismo’ fundamentalista. Só não me dei ainda ao trabalho de estudar todas as novas regras gramaticais…

  10. Heloisa H. Henemann - 26 6 2009 às 23:37

    Olá Mariana, desculpa, mas não entendo e não concordo que o nome Batel Soho seja uma idéia provinciana, pelo contrário, se a intenção era dar um nome para aquelas poucas quadras, onde circula o comécio diferenciado, e com a associação dos comerciantes, entendo que trata-se de um grupo de empreendedores organizados. Parabéns pela iniciativa. Sou Curitibana, mas vivo em outra cidade há mais de 15 anos, quero ir ver de perto como é esse BAtel Soho.

  11. Douglas - 22 7 2009 às 16:33


    O Bairro Bigorrilho (local onde estão chamando de Batel Soho) é o mesmo Bairro Bigorrilho. Comércio seletivo, sustentado por um grande sistema de seguranças, não é argumento para mudar o nome de um bairro ou região, na minha opinião. Apenas houve uma pequena reforma na praça (…do Batel, rs). Nenhuma outra novidade urbanística ou arquitetônica será encontrada além das lojinhas caras.

    Agora, se seu negócio é gastar e se você tem grana pra isso, então venha…só tem lojas lá. Trata-se de um ‘pool’ de lojas refinadas nas ruas de uma parte do Bairro Bigorrilho. Nada de mais.

  12. Bruno Camargo Manenti - 2 10 2009 às 11:17

    Não creio que o nome prejudique o evento. Ele não diz nada em relação a nossa cultura, ao fato de ser curitibano, mas não acho necessário. A praça da Espanha fica no Bigorrilho, conhecido também como Champagnat, e a rua que divide o Batel do Bigorrilho passa na frente da praça. Comercialmente é mais rentável chamar de Batel, do ponto de vista turísitico e promocional. Não acho que isso seja um grande problema, é só uma adaptação logística. Se o evento funciona, divulga bandas daqui e atrai as pessoas para o lazer, não vejo problema. Por que deveria se chamar “festinha do bigorrilho”?? Batel Soho dá destaque, faz as pessoas que vao lá se sentirem como sendo tratadas de maneira especial, faz elas terem a impressão de algo chique. Não atrapalha ninguém. Se as pessoas gostam de sonhar com cosumo, pelo menos de vez em quando, isso é positivo. Ninguém é obrigado a atirar pedras das calçadas e gritar “mim pinhao” como você disse (o que pra mim foi extremamente desnecessário e preconceituoso) o tempo todo.

  13. Diogo - 7 10 2009 às 8:03

    Realmente tem gente que gosta de falar mal do nosso país e de poucas boas ideias como esta, que acredito que dará muito certo!
    Antes de falar sobre algum assunto procure se informar, SoHo é na verdade originado em londres, e copiado por Nova York posteriormente, assim como esta sendo em curitiba.
    Essa mania de achar que nos eua é tudo muito lindo e original e que o brasil copia tudo.

    Parabens aos comerciantes que criaram essa ideia, é um grande projeto que será bom tanto para a população quanto para o comercio, 10!

  14. Alessandro Martins - 7 10 2009 às 11:12

    Diogo,

    desculpe, mas desconheço essa informação de uma região ao sul de uma rua Houston, uma South Houston, em Londres. Se puder apontar uma referência agradeceria.

    Obrigado pelo comentário.

    Abraços do Alessandro.

  15. Alessandro Martins - 7 10 2009 às 11:42

    Diogo,

    já encontrei a informação, em espanhol, e de fato você tem razão:

    http://es.wikipedia.org/wiki/Soho_%28Londres%29

    De qualquer forma, o complexo de colônia permanece. Seja ele londrino e novaiorquino.

    Abraço e obrigado.

  16. Fernanda - 4 2 2010 às 19:43

    A vida e o costume dos outros é muito mais interessante quando se trata desta cidade e povo medíocre. Concordo totalmente com sua opinião….

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